Opinião
Canarinha: o feeling existe
2018-03-23 14:05:00

Tem a Canarinha capacidade para se bater consistentemente com os melhores do planeta e assumir-se como candidata legítima à conquista da Jules Rimet já no dia 15 de julho, no Luzhniki? Os 1-7 do ‘Mineirazo’ ainda conferem um espetro altamente assombroso para a população brasileira, que inibe a muita gente a vontade de sonhar mais alto. No entanto, já passaram quatro anos e quase tudo mudou nos sinais manifestados em campo, designadamente no compromisso e na cultura de merecimento que Tite instaurou, com reflexos indisfarçáveis no plano técnico de jogo.

O jogo-teste da seleção brasileira contra a Rússia, hoje à tarde, no Luzhniki, em Moscovo, marca um ponto de viragem na preparação de Tite. Sem Neymar, a estrela do PSG que se lesionou no pé durante o clássico contra o Marselha, o selecionador prometeu a titularidade a Douglas Costa do lado esquerdo, garantindo a outra réplica-supersónica (Willian) no flanco direito. Com isto, Tite também pretende trabalhar mais situações de ataque na exploração da largura do campo, que será um detalhe importante para eliminar as dificuldades parciais contra equipas que defendam com uma linha mais recuada de cinco: no Mundial, poderemos ter Inglaterra, Bélgica, Argentina, Alemanha e Espanha com esse desenho, entre outras. Ainda que Cherchesov tenha de lidar com desfalques brutais no eixo defensivo da Sbornaya, os russos deverão ter os tais cinco elementos a defender em linha no terço defensivo, à frente de Akinfeev.

Há um dado engraçado para hoje. Alisson, guarda-redes que tem sido uma fera na baliza da Roma nesta época em que substitui Szczeszny, vai tornar-se o 15.º homem da vigência-Tite a vestir a braçadeira de capitão da Canarinha. Isso transmite a ideia de partilha de responsabilidade, acrescentando o sentimento de importância e de equidade que Tite quer inculcar em cada um dos elementos, sem que haja uns a pensar que estão acima de outros. Do onze que vai iniciar em Moscovo, só Douglas Costa e Gabriel Jesus não tiveram esse “privilégio” da braçadeira.

Taticamente falando, um dos pontos de maior curiosidade para o desafio no palco que também vai servir de abertura e final do torneio é a perspetiva de ver o desempenho de Coutinho na zona central do meio-campo. Não vai jogar na direita, como tem sido habitual, em virtude da coexistência simultânea com Neymar e com a aposta recorrente em Renato Augusto para uma das posições do meio-campo central.

Ficando Casemiro como guarda-costas e Paulinho como o fiel interior-direito, resgatando a fiabilidade que Tite já lhe conhecia dos velhos tempos no Pacaembu, Coutinho vai criar jogo numa posição mais interior (centro-esquerda), como fazia frequentemente no Liverpool e como tende a fazer mais vezes no Barça na pele de Iniesta. Na Canarinha, a equipa-tipo tem vindo a contemplar Renato Augusto nos últimos meses, que é outro fiel corinthiano de Tite, no meio-campo ofensivo central. Uma vez que Neymar é dono da extrema-esquerda, isso tem empurrado Coutinho para a faixa direita do sistema habitual de 4-3-3, ainda que com natural propensão para fletir para o meio.

Mas, numa perspetiva futura, quando Neymar estiver recuperado, será a manutenção de Renato Augusto no onze-base do Brasil tão essencial, a ponto de sacrificar parte da dinâmica de Coutinho e de inviabilizar a utilização de Willian? A lesão do grande artista potenciou a mudança na linha atacante, mas Tite deve estar bem mentalizado para tirar Coutinho da direita e o colocar no meio. Willian é mais “agudo” (expressão de Tite) e está a jogar barbaridades no Chelsea: oferece uma aceleração tremenda nas incursões pelo flanco direito, servindo de complemento à criatividade de Coutinho e de Neymar, que prolongam mais o contacto com a bola.

Hoje, mesmo podendo não estar a um nível tão deslumbrante como Alemanha e Espanha, o Brasil é uma das seleções mais bem organizadas. Tite deu-lhe consistência e há legitimidade dentro da equipa para pensar em chegar às derradeiras eliminatórias do Mundial. Importa saber em que estado irá Neymar regressar depois da lesão, mas o panorama é animador porque há uma série de concorrentes viáveis para quase todas as posições. Veja-se Gabriel Jesus e Firmino. E até Willian José, ponta de lança aprimorado nas Canárias e em San Sebastián, entrou na corrida, com a arma secreta do jogo de cabeça formidável para serviços ocasionais. O feeling existe.

Luís Catarino é comentador da Sporttv e escreve no Bancada às sextas-feiras.