Prolongamento
Calça as chuteiras, trata das contas e gere um clube. Eis o presidente-jogador
Luís Santos Castelo
2018-03-09 22:00:00
Bruno Costa (na foto, de amarelo) é influente nos destinos da AD Fornos de Algodres dentro e fora das quatro linhas

Na série C do Campeonato de Portugal, a AD Fornos de Algodres destaca-se por estar na última posição sem qualquer vitória e apenas três empates nas 23 jornadas já disputadas, mas há outra curiosidade. Bruno Costa, o presidente do clube, é também jogador da equipa da vila, e ninguém vê qualquer problema nisso - bem pelo contrário. O dirigente e atleta de 30 anos é visto como alguém que pegou nos destinos do clube numa altura complicada e melhorou tudo, tanto a nível financeiro como desportivo.

O amarelo e o verde são as cores da Associação Desportiva de Fornos de Algodres, um concelho do distrito da Guarda com menos de 5000 habitantes. Os locais, de forma carinhosa, referem-se ao clube apenas como 'Associação', e o regresso de Bruno Costa, que cresceu na ADFA, foi o resultado de uma iniciativa conjunta. “Foi há quatro anos. Como é o clube da minha terra e estava numa situação complicada financeira e desportivamente, eu e mais alguns colegas resolvemos pegar no clube. Tomei a iniciativa de ser presidente, regressando ao clube do meu coração”, explicou Bruno Costa em declarações ao Bancada. Depois de se ter formado no clube, Bruno Costa foi jogador do GD Trancoso e do GD Gouveia e, em 2013/14, voltou a integrar o plantel da ADFA.

Mas, afinal, o que motivou Bruno Costa e a restante direção a assumirem a liderança da AD Fornos de Algodres? Tanto o presidente como alguns dos membros da direção eram antigos jogadores do clube e não conseguiram ignorar o estado de degradação em que se encontrava e, mal foram eleitos, partiram para alterações no modo de funcionamento da gestão. “Quando chegámos, o clube estava na 2ª distrital e nem ia competir. Estava completamente cheio de dívidas, não podendo competir porque a AF Guarda não permitia. Segurança Social, Finanças, Hospital, muitas coisas… O que fizemos? Todos os jogadores a jogar de borla e, no ano passado, começámos a pagar três euros por treino e dez euros por vitória. Este ano subimos, mas nenhum jogador recebe mais de 100 euros por mês.”

O presidente da AD Fornos de Algodres em ação dentro das quatro linhas (AD Fornos de Algodres)

Os resultados foram praticamente imediatos, apesar de ser a primeira experiência de Bruno Costa no dirigismo desportivo, a equipa sénior subiu várias divisões no futebol regional e chegou aos campeonatos nacionais, entrando no Campeonato de Portugal em 2017/18. Tudo isto com pouco apoio municipal, até porque a Câmara Municipal de Fornos de Algodres é uma das mais endivididas do país e o apoio ao clube é muito baixo. Esta época, até ao momento, Bruno Costa revelou ao Bancada que o clube apenas recebeu 7500 euros de apoios municipais, ficando o restante orçamento assegurado com patrocinadores.

Um presidente jovem e único e um jogador normal

“Conheço o Bruno há muitos anos. Joguei com ele nas camadas jovens. O clube, na nossa infância, deu-nos carinho. Era a única maneira de os jovens terem ocupação desportiva e, ao longo dos anos, essa vontade de muitas pessoas que o clube fosse maior que o que pode ser fez com que o clube chegasse a um patamar alto e caísse numa espiral muito rápida. Decidimos pegar nesta Associação que estava um bocado moribunda, digamos assim”, começou por dizer ao Bancada Bruno Rebelo, elemento da direção e da claque Fúria Amarela.

Rebelo foi um dos que acompanhou Bruno Costa nesta aventura e considera o presidente "um grande líder". O facto de também ser jogador está longe de criar qualquer tipo de conflito ou problema e prova disso é a reação dos adeptos. “Ele não tem vencimento. Faz isso para poupar dinheiro para o clube, para que continue estável. Toda a gente na vila está agradecida por isso. (...) Os adeptos viam com bons olhos. O Bruno tinha sido das camadas jovens, chegou aos seniores e, depois, saiu. Ele quis voltar, toda a gente o recebeu de braços abertos e toda a gente viu com muito bons olhos ele ser jogador e presidente ao mesmo tempo para que este clube não fechasse portas. Principalmente os jovens, que viram nele um exemplo”, explicou Bruno Rebelo.

No balneário, também não se estranha ter um presidente como colega de equipa. Rui Lopes, capitão de equipa, admite que a situação é muito pouco comum, mas já joga com Bruno Costa há tempo suficiente para, dentro de campo, tratar o presidente de forma diferente. Ao Bancada, o médio garantiu que Bruno Costa sabe "acatar as ordens do treinador". “Acaba por não ser normal, mas ele já é meu colega de equipa há muitos anos e já nos habituamos. Não é muito fácil para ele, que tem de lidar como jogador às ordens do treinador, mas, ao fim ao cabo, ele é que é o presidente. Não há de ser fácil para ele, e, por vezes, nota-se. Ele sabe acatar as ordens do treinador.”

Confrontado com a diferença que poderá ter no balneário em comparação com os restantes jogadores, Bruno Costa reconheceu que, para os novos jogadores, as primeiras abordagens enquanto colega de equipa são algo "tímidas", mas que, depois disso, tudo entra na normalidade. O atleta que também é dirigente não tem dúvidas: este tipo de casos permite ver "o verdadeiro futebol, o que existia antigamente". Bruno Costa deixou ainda algumas críticas à atual indústria do futebol.

“É normal que o pessoal que não me conheça que esteja sempre mais tímido. Agora, os outros colegas que já me conhecem já são amigos. (...) Penso que será inédito nos campeonatos nacionais, tenho quase a certeza. Não há outro caso. Sei que é uma situação que não é muito comum, mas é o que eu costumo dizer: é nestes casos que se vê o verdadeiro futebol, o futebol que existia antigamente. Agora, o futebol é muito mais do que isso, é uma indústria onde se tenta ganhar a todo o custo. Se calhar, os outros presidentes vestem o fato e a gravata e vão para os jogos. Eu não, tenho outras tarefas a desempenhar dentro do clube. Chega a hora de jogo e muitos presidentes vão para a bancada, eu vou para dentro de campo”, frisou o presidente-jogador.

Fúria Amarela, a claque do clube, em apoio à equipa (AD Fornos de Algodres)

A época decionante e o objetivo de conseguir uma vitória

Apesar do bom trabalho feito pela direção de Bruno Costa na recuperação e desenvolvimento do clube, a temporada 2017/18 não pode ser considerada positiva. 23 jornadas no Campeonato de Portugal e apenas três pontos conquistados, todos resultantes de empates. A equipa ainda procura um triunfo e esse é o principal objetivo até ao final da temporada. A despromoção e o regresso aos campeonatos regionais já são um dado adquirido matematicamente.

“Há muita inexperiência da nossa parte, do nosso plantel. Isso paga-se caro, não há volta a dar. Temos perdido muitos jogos nos minutos finais, aos 98’, 97’, 95’, 94’… Já nos aconteceu um bocadinho de tudo. Somando estes fatores todos e o fator principal, a falta de recursos financeiros – temos o subsídio da Câmara, mas só chega no mês de abril -, temos dificuldades. Um patrocínio aqui, um patrocínio além e é disso que sobrevivemos”, contou Bruno Costa.

O ingresso nos torneios nacionais trouxe outro problema: as exigências do futebol moderno e do futebol de um nível mais elevado, o que desgastou Bruno Costa mais do que as três anteriores. “Esta época consumiu-me mais do que as outras três. Foi uma época extremamente desgastante, difícil e deparei-me com vários problemas que não foram fáceis de solucionar e, às vezes, faz-me questionar o porquê de andar no futebol. Já não é futebol, é uma indústria. Todos os valores que fazem parte desta indústria e que são pedidos são surreais para um clube do interior.”

No seio da equipa, há a noção do falhanço desportivo e Rui Lopes reforçou a inexperiência já referida por Bruno Costa. No próximo ano, tudo o que não seja apontar para voltar a subir será inesperado. Até porque a qualidade do futebol no distrito da Guarda baixou, o que não obriga ao reforço excessivo do plantel.

“O balanço desportivo é péssimo, os resultados mostram. Mas é o primeiro ano de muitos jogadores num Campeonato Nacional. [O objetivo em 2018/19 é regressar ao Campeonato de Portugal?] depende do objetivo da direção. Normalmente, vai ser. Por aquilo que vejo e acompanho, o futebol da Guarda cada vez mais está mais fraco a nível de competitividade. Não precisamos de fazer uma super equipa para voltarmos a ser campeões”, assegurou o capitão de equipa.

No geral, o balanço do mandato de Bruno Costa, para o próprio, é positivo. A recuperação financeira, o sucesso desportivo e a estabilidade são os grandes feitos da jovem direção que orienta a Associação. O caminho é este, e há que continuar no mesmo rumo. “Todos os objetivos a que me propus consegui alcançar. Fui campeão duas vezes, ganhámos a taça e tornámos o clube uma referência no panorama distrital. Desde que me tornei presidente, o clube obteve sempre saldos positivos. Nunca tivemos saldos negativos, o que é o mais importante. O clube, financeiramente, está estável, de boa saúde. Desportivamente, vamos cair novamente no distrital, mas sempre com o objetivo de voltar a subir”, concluiu o presidente-jogador.

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