Prolongamento
Bruno Cortez: Do fracasso no Benfica à consagração absoluta no Grêmio
António José Oliveira
2017-12-04 21:20:00
"Deus faz as coisas de um jeito que às vezes nós não entendemos", refere o lateral-esquerdo

Chegou ao Benfica no verão de 2013, fez sete jogos de águia ao peito, não convenceu e em Janeiro de 2014 rumou ao modesto Criciúma do Brasil. Quase cinco anos depois, Bruno Cortez, numa prova de superação, ultrapassou a desconfiança generalizada e atingiu a consagração absoluta enquanto futebolista ao conquistar a Taça Libertadores da América pelo Grêmio de Porto Alegre. O lateral esquerdo foi uma das principais figuras dentro e fora dos relvados. Pelo que jogou e pelo que festejou, juntamente com outro "português", Geromel, antigo defesa-central do Vitória de Guimarães e Desportivo de Chaves agora simbolo maior do Grêmio. Depois da vitória na final sobre os argentinos do Lanús, Cortez centrou atenções ao ponto de ofuscar o capitão do conjunto gaúcho durante os festejos, protagonizando um momento diferente, bastante enfatizado pela imprensa brasileira.

"Foi um momento maravilhoso, mas eu quero pedir desculpas ao meu amigo Geromel, porque naquele momento, na hora que ele levantou a Taça, eu levantei o troféu individual tapando-lhe o rosto. Então, peço desculpas ao meu capitão do tri. Mas foi um momento de muita felicidade. Estou muito grato a Deus", explica Bruno Cortez.

O antigo lateral do Benfica superou, desta forma, um 2017 que se antevia traumático, depois de várias experiências falhadas, o Benfica incluído. Após regressar do futebol japonês, Cortez estava de malas prontas para rumar ao Náutico, o mesmo é dizer para baixar de divisão, direitinho à Série C. Mas um telefonema "mágico" do amigo Léo Moura tudo mudou e fê-lo ingressar no Grêmio, onde foi aposta aposta segura do treinador Renato Gaúcho. Como resultado, desfrutou agora da glória do título mais gostoso de clubes na América, bem junto da família. Ainda para mais com o contrato renovado por mais duas temporadas, um prémio por ter superado a desconfiança da torcida canarinha.

"Deus faz as coisas de um jeito que às vezes nós não entendemos. Estava tudo certo para ir para o Náutico quando recebi uma ligação do Léo Moura, dizendo para eu esperar. Esperei e vim para o Grêmio. Esta medalha conquistada agora tem muito valor para mim. Uma pessoa que chegou desacreditada conquistar a América, é para poucos. É muito gratificante", sublinha o esquerdino (em baixo na foto com a medalha de campeão), sem deixar de acrescentar: "Era o plano de Deus para a minha vida, vir para o Grêmio, ser tricampeão, conhecer o Renato, os outros jogadores e poder retomar o meu futebol com alegria, com felicidade, e poder estar em alto nível."

O Benfica é passado, as coisas não correram bem na Luz, mas o defesa não guarda qualquer rancor. E explica as razões pelas quais não triunfou em Portugal. "Na tática utilizada no Benfica os laterais exercem uma função mais defensiva e isso dificultou a minha procura de espaço na equipa, já que é uma maneira de atuar bastante diferente da que estou acostumado e jogamos no Brasil. Foi pelo meu diferencial de apoiar bem o ataque que me consegui destacar e cheguei até à seleção brasileira", afirma, sublinhando: "Então, em conjunto com os meus empresários e com a direção do Benfica, decidimos que seria melhor para ambas as partes essa rescisão. Não tenho nada para reclamar do período em que defendi o Benfica, pelo contrário. Serei eternamente grato ao clube português por tudo o que fez por mim e ao Jorge Jesus pela oportunidade. As coisas não deram certo por questões que acontecem no futebol."

Geromel foi o jogador que levantou a Taça de Libertadores da América, o ponto alto da festa do Tricolor, em ambiente de enorme euforia. O defesa-central que representou o Desportivo de Chaves (entre 2003 e 2005) e o Vitória de Guimarães (de 2005 a 2008) repetiu os feitos de Hugo de León (1983) e Adílson (1995), após a vitória sobre o Lanús, por 2-1, quarta-feira, no estádio La Fortaleza, que mais não fez do que confirmar o triunfo da primeira mão. O defesa foi o capitão gremista durante toda a campanha vitoriosa e conseguiu o seu segundo título desde 2014, quando assinou contrato com o Tricolor. Em 2016, também como capitão, liderou a equipa do Rio Grande do Sul na conquista da Taça do Brasil.

"Não tive a oportunidade de conversar com o De León, sei quem é, já ouvi falar muito e tenho maior respeito por ele, mas não tivemos oportunidade de conversar. Com o Adílson já. Mais do que falar, a atitude que tiveram, fala por eles. Tento agarrar-me a isso e uso-os como exemplo. Já vi muitos bons capitães, tento tirar o melhor de cada pessoa para ser o melhor possível", afirmou Geromel, em declarações ao "GloboEsporte". "Desde que cheguei que, pelo meu profissionalismo, tento chegar cedo aos treinos, trabalhar e ajudar da melhor forma possível. Não só com o meu futebol, mas com o meu modo de ser, servindo de exemplo para os mais jovens. Desde que cheguei ao Grêmio, com o Felipão como treinador, quando o Rhodolfo não jogava, era eu o capitão. Foi acontecendo, de modo natural."

A magnífica época que efetuou levou Geromel a integrar o lote final de candidatos ao título de melhor jogador do Brasil e a despertar a cobiça do Palmeiras. Mas, aos 32, anos o defesa mostra gratidão ao Grêmio e já pensa no Mundial de Clubes, onde irá encontrar Cristiano Ronaldo. "Não tenho a mínima vontade de sair, tenho mais dois anos de contrato e estou feliz aqui", refere, não se escusando a eleger o pior momento que viveu em Porto Alegre. "O pior momento foi, de longe, quando cheguei. Não tinha oportunidades e era criticado por todos. Isso serviu de motivação e inspiração para provar que eu tinha condições de vestir a camisa do Grêmio."

Geromel na senda de Baidek e Hugo de Léon

Jorge Baidek, antigo defesa-central que representou o Grêmio de Porto Alegre durante mais de uma década e que em Portugal vestiu a camisola do Belenenses, fez uma dupla histórica com Hugo de Léon. "Ele era um líder, um vencedor nato. E fizemos uma dupla de área extraordinária, com entendimento perfeito", recorda Baidek, sustentando: "A dupla Geromel e Kannemann é das melhores da América. Não tenho dúvida nenhuma, pelo brilhante trabalho que Geromel tem feito, que a taça está em boas mãos."

"Fiz com o Hugo de Léon uma dupla que recordo com muita satisfação. Conquistámos a primeira Taça dos Libertadores da América pelo Grêmio e o título mundial de clubes a 11 de dezembro de 1983", frisa Baidek, que não teve grande dificuldades em recordar tudo sobre os dois jogos míticos. "Na Libertadores, vencemos o Peñarol. Depois de um empate a um golo, triunfámos por 2-1, e na final do Mundial vencemos, por 2-1, o Hamburgo, que na altura tinha 80 por cento dos jogadores da seleção alemã e tinha Feliz Magath como capitão."

Na mesma linha, Jorge Baidek (na foto em baixo com o seu antigo colega Hugo de Léon) enfatiza o momento de Bruno Cortez, que também chegou ao Grêmio com necessidade de mostrar o real valor. "O Bruno Cortez é outra situação muito própria do mundo do futebol. Não teve sorte na passagem pelo Benfica. Chegou desacreditado, mas ganhou confiança com o Renato e assumiu a titularidade." E como é que se justifica que jogadores que tenham falhado na Europa se afirmem depois com tamanha facilidade em equipas de topo da América do Sul? O antigo defesa do Grêmio responde: "Tem muito a ver com o contexto. Passa tudo por uma questão de confiança e o Renato Gaúcho tem tido essa qualidade natural de transmitir grande confiança aos jogadores."

Baidek, que fez questão de dar os parabéns ao Grêmio logo após a consumação da histórica conquista da terceira Taça dos Libertadores da América, tem vivido, desta forma, com emoção este momento histórico. "Fiquei muito feliz com esta conquista. Vesti a camisola do Grémio durante 11 anos e estes são momentos que não se esquecem", afirma, destacando o trabalho levado a cabo pelo presidente, Romildo Bolzan Júnior, e pelo treinador, Renato Gaúcho. "Têm feito uma obra excelente. Agora, que venha o Mundial."

Com este triunfo, a equipa de Porto Alegre passou a ser, juntamente com o Santos de Pelé e o São Paulo de Sócrates, a equipa brasileira com mais títulos na competição, à frente do Cruzeiro e do Internacional, também de Porto Alegre, com dois títulos. Flamengo, Palmeiras, Corinthians, Vasco da Gama e Atlético Mineiro somam um título.

 

 

 

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