Opinião
Benfica com fogo pálido
Manuel Fernandes Silva
2017-09-13 14:00:00

Era difícil adivinhar um final de jogo assim, com Rui Vitória a ter dificuldades para compor uma explicação razoável para a derrota frente ao CSKA de Moscovo.

A equipa do exército russo marchou quase sempre para trás, com os jogadores muito juntos, encostados ao corredor central e com poucas "baionetas" ofensivas. Mas acabou na frente, com o resultado virado do avesso e uma eficácia atacante que chegou para travar todas as boas intenções encarnadas.

O Benfica iniciou a Liga dos Campeões sem Fejsa, o médio que vive agarrado às lesões e que junta à condição física errática a circunstância de não haver, no plantel encarnado, quem o substitua com proveito. Rui Vitória escolheu Filipe Augusto, mas as indefinições no início de construção, as falhas de posicionamento e a menor eficácia de passe fizeram ecoar o nome do sérvio pelas bancadas do Estádio da Luz.

Podia ser este o único problema no "onze" inicial, mas Jonas foi um titular sem comparência no jogo, desfazendo na Europa a exuberância de uma parceria com Seferovic que conseguiu definir alguns resultados nas competições internas. O eixo central encarnado era uma espécie de fogo pálido, por isso, aos 10 minutos, Pizzi tratou de unir dois pontos com um passe longínquo para Salvio, só que o argentino não chegou a tempo de transformar o toque na bola numa primeira ameaça séria.

Do lado esquerdo, com a coligação ofensiva entre Grimaldo e Zivkovic, estavam as promessas encarnadas de perigo para Akinfeev. O extremo sérvio estendeu no corredor inteligência e critério na definição das jogadas e bastou juntar a isto um bom movimento de Seferovic para que o Benfica chegasse ao golo, aos cinco minutos do segundo tempo. A pedra que o suíço quis colocar no jogo foi afastada pelos russos devido a uma certa neutralidade encarnada: quando o CSKA tentou fazer subir a ambição uns metros no campo, o Benfica não foi capaz de aproveitar a probabilidade de abertura de novas vias até à baliza de Akinfeev. Os encarnados não conseguiram fechar o jogo e deram uma segunda vida ao CSKA, que respondeu ao convite com dois golos.

Este choque frontal da equipa de Rui Vitória com a Liga dos Campeões transformou um arranque teoricamente prometedor numa derrota comprometedora. A margem de erro fica agora mais estreita, porque os encarnados perderam um jogo em casa frente a um adversário mais fraco. Foi como se uma chuva repentina estragasse um piquenique num dia que prometia tempo seco.

Mais do que os nomes dos que jogaram, dos que ficaram no banco ou dos que deixaram a Luz, importa perceber que o resultado negativo do Benfica entronca na mesma dificuldade que levou a outras noites europeias menos conseguidas: a equipa de Rui Vitória está demasiado dependente do talento individual e essa "limitação estratégica" torna-se mais clara quando do outro lado está um adversário mais forte do que muitos dos que habitualmente defrontam o Benfica nas provas internas. Foi assim em alguns clássicos das últimas épocas, foi assim no jogo de Vila do Conde e também agora, frente ao CSKA de Moscovo.

Para recuperar estes pontos perdidos, que Rui Vitória promete resgatar nos próximos jogos, o Benfica terá de conseguir fazer mais do que alinhar uma lista de soluções ofensivas nos últimos minutos de um jogo que pareceu estar, durante muito tempo, perfeitamente resolvido.

P.S. - O encontro ficou marcado por uma arbitragem polémica e abaixo de sofrível do árbitro Undiano Mallenco, que terá julgado haver falta inicial de Seferovic num lance que acabou com o avançado agarrado na grande área russa. O árbitro espanhol usou ainda critérios diferentes em dois lances de braço na bola (um deles de grande penalidade), em prejuízo do Benfica.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras

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