Opinião
As lesões de Coentrão e Rúben Dias
António Tadeia
2018-03-20 14:55:00

Quando anunciou a convocatória para os jogos com o Egito e a Holanda, Fernando Santos disse que esta lista estaria a 70 por cento do elenco que vai ao Mundial da Rússia. E não precisou de o dizer, porque toda a gente o sabe, que estes dois jogos – e os treinos e a interação no estágio – serão preponderantes para definir os 30 por cento que faltam. O que me conduz a duas reflexões, em torno de Rúben Dias e Fábio Coentrão, que pela chamada para estes dois jogos pareciam ser dois fortes candidatos aos lugares de defesa-central e defesa-esquerdo, mas que não viajarão para a Suíça, impedidos por questões de índole física.

Ambos justificaram na Liga a presença na lista de Santos. Rúben Dias tem sido um dos pontos de estabilidade da defesa do Benfica na recuperação que a equipa tem feito na tabela, substituindo Luisão sem prejuízo do coletivo. Fábio Coentrão recuperou a condição física que nos últimos anos o atraiçoou, por não vindo a ter continuidade no Real Madrid, e mostra na esquerda do Sporting uma competitividade que o distingue dos colegas – sendo que a condição técnica e tática já se lhe conhecia desde que era o titular da posição na seleção nacional. O problema é que nem um nem o outro poderão mostrar a Santos que estão prontos para a fase final do Mundial. E aqui, de facto, os dois casos distinguem-se.

Começo por Coentrão. Por um lado, Fernando Santos sabe que o lateral leonino não acusará a pressão de defender a camisola nacional num Mundial, tantos foram os jogos de perfil elevado que ele já teve de fazer – só na seleção já soma 52 internacionalizações, incluindo dois Mundiais e um Europeu. Por outro, não deixará de ser prejudicial para o jogador a constatação de que, depois de já ter saído lesionado ainda na primeira parte do complicado jogo na Hungria, volta a ser baixa quando se lhe pede que responda presente. E se é verdade que o comunicado da FPF – que diz que os exames ao jogador “não revelaram uma situação impeditiva”, mas que este se declarou “muito queixoso” – poderia até abrir a porta a uma constatação de falta de disponibilidade ou de espírito de sacrifício de um jogador que, pelo contrário, tem sido um exemplo de dedicação no clube, a verdade é que pode nem ser preciso chegar aí. Bastará a Santos atentar à facilidade com que Coentrão se lesiona para pensar duas vezes antes de o levar ao Mundial. A um Mundial onde, a julgar apenas pelo rendimento no clube, ele teria o seu lugar.

É diferente o caso de Rúben Dias. Completamente isento de quaisquer suspeita de falta de empenho – o Benfica não tem tido o calendário tão sobrecarregado como o Sporting, Dias não precisa de repousar como Coentrão e, aliás, ninguém terá ficado mais chateado com a lesão do que o próprio jogador –, o central encarnado perde uma oportunidade de ouro para se integrar e conviver com o grupo que vai ao Mundial. Não quer dizer que isto signifique a sua ausência da lista final, mas é um risco que o jogador é obrigado a assumir. Santos quererá ter ao menos um elemento do Benfica na convocatória final – tal como do Sporting e do FC Porto, para mobilizar o país em torno da equipa, que já se sabe que os adeptos são, primeiro e fundamentalmente, dos seus clubes – e com Rúben Dias matava dois coelhos de uma só cajadada. Mas Rolando tem, ele sim, uma grande oportunidade de marcar pontos, o que deixa Rúben Dias a ansiar por uma ponta final de época extraordinária, que torne a sua inclusão uma obrigatoriedade.

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