Opinião
As lágrimas de Buffon e uma ideia para a Itália
António Tadeia
2017-11-14 14:00:00
Buffon, Itália, Ventura e a análise ao que se passou com a "squadra azurra".

Na viagem de regresso de Viseu, após o jogo de Portugal com a Arábia Saudita, na sexta-feira, enganei o sono a ouvir um programa da Inês Pedrosa e do Rui Zink, na Antena 3, cujo tema principal andava à volta da parvoíce que é achar-se que “os homens não choram”. A coisa deixou-me logo dividido, como vim a confirmar ontem, quando me emocionei a ver as lágrimas de Gigi Buffon na “flash interview” que se seguiu ao 0-0 e à eliminação de Itália do Mundial. Os homens choram porque as pessoas choram. E é também isso que os engrandece.

É que uma coisa é valorizar a coragem, a força e a resiliência de quem nunca desiste. Outra, bem diferente, e aquela a que a argumentação de Rui Zink se dirigia, é criticar a divisão sexista entre as mulheres, que podem chorar, e os homens, os machos alfa, os latinos, que não choram nunca. Ora não haverá no futebol melhor paradigma do macho latino do que Buffon. É italiano, exala ao mesmo tempo indiferença pelo que dele acham – como se viu quando abanou insistentemente a cabeça a reprovar os que assobiavam o hino da Suécia – e um charme de autêntico cavalheiro. E chorou. Chorou lágrimas de verdade, mostrou as emoções que tinha à flor da pele – que o choro ali não foi programado como o beijo de Casillas e Sara Carbonero depois da final do Mundial de 2010. Era emoção, não era marketing.

As lágrimas de Buffon, nascidas da morte de um sonho de epílogo de carreira na final do Mundial (e muito antes de lá chegar), deviam levar todos os cérebros do futebol italiano a tentar entender por que razão isto aconteceu. A primeira razão é evidente e incontrolável: a Espanha no mesmo grupo, apenas um qualificado, pelo que alguém tinha de ficar para o play-off. A segunda razão é também evidente: a qualidade defensiva de uma seleção fortíssima na sua organização, como é a Suécia. Os suecos sentem-se mais à vontade quanto menos espaço há para o improviso, em desportos mais previsíveis, e o play-off de ontem era jogado numa das suas zonas de conforto. Mas ainda assim, a Itália não foi capaz de lhes fazer um golo em 180 minutos. Bulgária, França e Holanda marcaram-lhes três cada uma nos jogos de qualificação.

O que nos leva à terceira razão: a gritante falta de ideias desta seleção italiana. Não me falem em falta de talentos. Isso foi conversa como a de 1966, quando após um Mundial miserável e a eliminação pela Coreia do Norte, os italianos fecharam as fronteiras do seu campeonato e impediram durante anos a entrada de jogadores estrangeiros nas suas equipas. Mas daí não virá nunca nada de bom: ninguém melhora pela falta de concorrência. O que falta ali são ideias, é a capacidade para manter o futebol italiano na vanguarda que durante anos ocupou. Pelas boas e pelas más razões, do ponto de vista estético e moral. Foi em Itália que Helenio Herrera montou as maiores fortalezas defensivas de que há memória nos tempos das marcações individuais. Foi em Itália que Arrigo Sacchi criou a zona pressing, modernizando os conceitos bebidos de Liedholm. Foi em Itália que experimentalistas como Zdenek Zeman encontraram espaço para as suas ideias inovadoras. E, no entanto, sendo italiano um dos treinadores mais interessantes do atual futebol europeu (Sarri), sendo italiano um dos resultadistas mais eficazes do continente (Conte), a azzurra está nas mãos de um homem que nenhum dos amigos com quem vi a ponta final do jogo sabia sequer quem era.

A reestruturação do futebol italiano não passa só pelos jogadores jovens que Buffon identificou na tal flash-interview à qual as lágrimas não tiraram lucidez. Passa sobretudo pela capacidade de se procurar um caminho que possa conduzir a algum lado. E esses não começam apenas pela competência. Começam por uma ideia. Não vou dizer que Gian Piero Ventura não é competente. Mas tenho a certeza de uma coisa: não tem uma ideia acerca do que deve ser o futebol da Itália.

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