Opinião
As diferenças após o clássico
Carlos Daniel
2017-12-04 13:45:00

O campeonato mantém três candidatos, que o Benfica, a despeito de um rendimento modesto, conseguiu sair vivo do clássico no Dragão. O próximo jogo grande, a recepção dos encarnados ao Sporting no início de Janeiro, dirá se as notícias das propaladas melhoras da águia não serão manifestamente exageradas, tal quanto da morte de um candidato, para usar a expressão hiperbólica de Rui Vitória após o jogo.

O Porto-Benfica não revelou nada de muito diferente sobre qualquer das equipas. Mostrou um Porto consistente, particularmente forte nos duelos e na consistência defensiva mas com doses insuficientes de criatividade com bola, e um Benfica em que uma mão cheia de talentos - Jonas, Pizzi, Grimaldo, cada vez mais Krovinovic, e mais o mal aproveitado Zikvkovic - pontualmente ilude a falta de qualidade colectiva mas que, perante adversários mais fortes, pouco mais pode garantir que alguns minutos de sossego defensivo. Passados esses primeiros minutos, em que há energia total e ainda ecoam as palavras motivadoras escutadas no balneário, perante a evolução do jogo e o natural desgaste, qualquer equipa acaba por se agarrar aos seus hábitos, às suas rotinas, ao que está mais consolidado, e é aí que o rendimento dos encarnados tende a piorar. O Benfica da segunda parte foi uma sombra de campeão, sempre muito mais perto de sofrer que de marcar, de perder que de ganhar. O que se viu no Dragão foi um Benfica ainda incapaz de ligar uma jogada completa ate à baliza rival, só lá tendo chegado duas vezes com algum perigo, fosse após uma intervenção imperfeita do guarda-redes da casa ou um ressalto provocado por desentendimento entre dois portistas. Demasiado curto para um tetracampeão que quer ser penta.

Do lado do Porto, o início foi sofrido, que as dificuldades para os dragões crescem sempre que não consegue encostar o adversário à sua área e submetê-lo à asfixia de uma reacção à perda de bola que é imagem de marca azul e branca e para o que, nestes jogos, ainda acrescenta mais um médio “de trabalho”. Sérgio Conceição lá foi mexendo, com Marega mais para o centro, Herrera mais para a direita, mas até que o Benfica perdesse o gás inicial e se remetesse às tais imediações da área, o que mais se viu foram lançamentos longos quase sempre improdutivos, à excepção de um passe iluminado de Brahimi que colocou Marega uns metros à frente de Jardel. Falta, nesses momentos, à equipa do Porto, mais criatividade, verdadeiro talento, o que se agrava quando Corona não está em campo – resta Brahimi para inventar soluções – e torna ainda mais estranho o afastamento consecutivo de Óliver. Ao esboço mais poético e sedutor do arranque da época, de um meio campo com Corona, Óliver e Brahimi ao mesmo tempo, nas costas dos dois avançados, sucedeu uma obra com mais músculo e menos cérebro, em que os operários ganharam terreno aos artistas, o que pode garantir a consistência de que muitas vezes se fazem os campeões mas diminui claramente o número de soluções para desatar alguns jogos.

Do jogo ficam ainda duas substituições que merecem análise. No Porto, obviamente, a troca de Aboubakar por Soares, mantendo-se Marega em campo. Claro que Sérgio Conceição saberá melhor que ninguém o risco físico em que estaria o camaronês, mas não só é duvidoso que fosse mais um quarto de hora em campo – após tantos jogos seguidos – a provocar fatalmente uma lesão como é difícil crer que Aboubakar não concretizasse pelo menos uma das duas oportunidades que Marega ingloriamente falhou. Nesses momentos não adianta falar de sorte ou azar: ou há verdadeira qualidade a definir ou não, e Aboubakar define bem melhor que Marega, e que Soares também, já agora. Como Jonas define melhor que todos os outros no Benfica e Bas Dost no Sporting, tantas vezes a disfarçarem jogos de menor produção colectiva. No Benfica, Rui Vitória fez a substituição habitual quando o resultado lhe agrada, dando mais “físico” à equipa, com Samaris na vez de Pizzi. Vi aplauso generalizado à opção - com excepção do próprio Pizzi - mas foi com Samaris em campo que o Porto caiu definitivamente sobre a área do rival e criou as mais flagrantes oportunidades. Quando uma equipa é forçada a defender mais, importa incutir no adversário, ao menos, o receio de um ataque rápido. A esse nível, Vitória esteve bem melhor ao lançar Zivkovic, mesmo se durou pouco em campo pelas razões conhecidas.

Neste momento, quase no fecho do ano civil, o campeonato apresenta-nos candidatos com traços claramente distintos. O Benfica descobriu em Krovinovic o novo farol táctico, mudou de sistema mas ainda está longe da qualidade de jogo exigível, mesmo se tem um plantel rico em soluções de ataque e pode beneficiar da saída prematura da Europa. O Porto surge em antítese, com menos talento disponível – e sem rentabilizar todo o que tem, valha a verdade - e num elenco curto, mas mostra robustez colectiva, feita de equilíbrio táctico e disponibilidade física permanente. O Sporting tem a ideia de jogo mais sedutora, claramente a mais criativa em ataque organizado, mas precisa de se mostrar mais consistente, de modo a não dar a sensação de que corre o risco de perder pontos em qualquer jogo, mesmo naqueles que tem totalmente dominados na maioria do tempo e tal como ocorreu de novo frente ao Belenenses.

PS: Mantendo o princípio de não entrar na análise do trabalho dos árbitros – por não ser minha especialidade, não faltar quem faça com competência, e porque me recuso a participar da loucura instalada no futebol português – não posso deixar de anotar que urge rever pelo menos uma dimensão do famigerado protocolo do VAR. É que se o vídeo-árbitro não serve para corrigir um erro grosseiro como o do fora de jogo no lance que podia ter valido um golo ao Porto, então serve de pouco. É que em relação a eventuais expulsões ou penaltis, como o clássico do Dragão também mostrou, nunca haverá unanimidade.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas-feiras.

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