Prolongamento
Alverca: reergue-se o mítico da EN10. Com lama e uma incrível história de vida
Diogo Cardoso Oliveira
2018-06-04 20:00:00
Foram precisos mais de 10 anos para este clube mítico do distrito de Lisboa poder dizer “já não somos dos distritais".

Sentados numa cadeira do estádio, tirámos a fotografia principal desta reportagem. Queríamos a visão real dos adeptos. O olhar exato de quem viu e chorou, naquela cadeira, pela queda do Futebol Clube de Alverca, que está de regresso aos campeonatos nacionais, depois de ter caído no abismo e de ter demorado a pôr a cabeça de fora. A estrada nacional 10 esventra a cidade de Alverca – faz cócegas ao Complexo Desportivo – e o número 10 até parece nem ser um acaso: é que foram precisos mais de 10 anos para este clube mítico do distrito de Lisboa voltar a poder dizer “já não somos um clube dos distritais”.

Aliás, esta frase tem autor. Fomos até Alverca e, no café Aroma, sentimos um tremendo aroma a vitória. Ao Bancada, o senhor Raúl puxa dos galões.

“O que esta subida significa para mim? Oh meu filho, eu nem consigo explicar. Sabe o que é poder dizer que já não somos um clube dos distritais? Tenho muito respeito pelos distritais, mas esta mer**, cá em baixo, não tem nada a ver com o nível do meu Alverca. O Alverca que eu vi jogar lá em cima e que vi cair”.

Não fomos apenas sentir o pulso a Alverca, falámos também com alguns dos jogadores responsáveis por esta subida ao Campeonato de Portugal. E temos boas histórias, de uma equipa que até tem um Roger Milla. Já lá vamos. Em Alverca, ouviu-se, desde 2005, o silêncio profundo de um clube triste e de um relvado regado pelas lágrimas dos adeptos. E enjaulado numa profunda crise financeira.

Agora, as bancadas do campo do Futebol Clube de Averca voltaram a estar dispostas em forma de sorriso. E de bandeiras. E de cornetas. E de minis fresquinhas, mesmo a estalar. Com velhotes lado a lado com crianças.

Antes de mergulharmos no Alverca, pedimos a Carlos Gomes, jogador do plantel, que nos contasse uma boa história desta temporada. Perdoe-nos a nota opinativa, mas esta história está para lá de boa. O futebol é isto. Nada mais, nada menos do que isto.

Há uma história que nunca irei esquecer e que serve para exemplificar o motivo pelo qual ando no futebol, que está relacionado com as pessoas e as memórias que me proporcionam. Após sermos campeões, um dos meus colegas personificou o carinho e alegria que este momento lhe estava a proporcionar. Há alguns anos, no dia 13 de maio, este meu colega, jogador e amigo soube que o seu pai tinha falecido. Era ele uma criança, a jogar num pelado e com o sonho de, um dia, ser feliz no futebol. Segundo ele, foi o dia mais triste da sua vida. Anos depois, a 13 de Maio de 2018, ele sagrou-se campeão de braçadeira de capitão no braço, devolvendo o Alverca aos nacionais e transformando um dia duro e negro da sua vida numa das mais belas recordações e momentos de felicidade que teve a oportunidade de vivenciar".

"Nem que chovam canivetes, car****"

Voltemos atrás uns minutos. Um desorientado jornalista chega a Alverca e encontra um labirinto. Sim, a zona próxima do estádio é um autêntico labirinto de ruas estreitas, de sentidos obrigatórios e com muito comércio. É já aqui que ficamos. Entramos na “Delícia de Alverca” e o nome já antecipava uma delícia de conversa. Tivemos sorte. Dois adeptos de gerações mais antigas estão agarrados a um jornal desportivo. São, certamente, fãs de bola.

Oh amigo, esta subida é só o início. Não sei se ainda cá vou estar para assistir, mas o FC Alverca vai chegar lá a cima outra vez, nem que chovam canivetes, car****”, diz Joaquim, interrompido pela esposa: “Olha a linguagem, Quim, que isto vai aparecer”. Deixe lá a linguagem, Quim, que nós gostamos assim.

Falta o outro senhor, que opta por não entrar na conversa. “Não é adepto do Alverca?”, questionamos. “Nada disso, eu sou do Vilafranquense. Mas é bom ver o clube da minha terra, o Alverca, a juntar-se ao meu Vilafranquense no CNS”.

Quem segue a nacional 10, desde Alverca, vai dar a Alhandra e a Vila Franca de Xira. O primeiro não tem seniores, mas o segundo tem. E, no próximo ano, há dérbi garantido. A subida do Alverca ao Campeonato de Portugal agenda, desde já, um duelo com o Vilafranquense que, no playoff final, falhou a subida à II Liga. Que festa tremenda podemos prever. “Vai ser giro. Já tínhamos saudades deste jogo. Vamos comê-los vivos”, dispara o senhor Joaquim. O vermelhão e branco de Vila Franca frente ao vermelho e azulão de Alverca. Preparem os tremoços, que vai ser incrível.

O tema seguinte foi abordado já mesmo pertinho do estádio, na pastelaria Primavera. Este sucesso de primavera, conseguido pelo Alverca, pôs fim a uma travessia no deserto, 13 anos depois. A grave crise financeira espoletou tudo isto, pouco tempo depois da saída de Luís Filipe Vieira da presidência do clube. Como chegou o abismo? “Não me leve a mal, mas eu prefiro não falar de quem nos destruiu o clube”, diz-nos o senhor Joaquim. Não o da Delícia, este é outro Joaquim.

Um clube que saiu da lama... literalmente

No velhinho estádio, esta sala de imprensa poderá, em breve, voltar a ser utilizada pela comunicação social. Basta, para isso, que o clube não pare por aqui. “Isso é pergunta que se faça? Isto é pa’ subir já no próximo ano, homem. E daqui a dois estamos a receber aqui os grandes”, diz-nos um simpático senhor de bigode farto, que preferiu manter o anonimato.

Um dos jogadores-chave desta caminhada na divisão Pro-Nacional de Lisboa (divisão mais alta do distrital) foi um rapaz chamado Roger Milla. Roger Milla Brito Miranda. Mas chamemos-lhe Milla, que dá muito mais estilo. O médio defensivo cabo-verdiano diz, ao Bancada, qual foi o segredo do primeiro lugar – bem destacado – no distrital lisboeta. “O grande segredo da temporada foi o trabalho, o empenho, a humildade, o sacrifício e o respeito: quer entre os colegas – com união dentro e fora do balneário – quer, acima de tudo, perante os nossos adversários”.

Que reportagem seria esta sem falarmos com o goleador? Seria um zero. José Semedo foi o homem-golo desta equipa (o portal “zerozero” diz que fez 19 golos em 28 jogos) e, ao Bancada, não foge do que disse Milla, mas faz uma referência importante: os adeptos. “O grande sucesso do Alverca foi os jogadores terem-se ajudado uns aos outros e ter existido um bom espírito de grupo”, começa por dizer, antes de acrescentar: “E a ajuda dos treinadores e da direção em terem-nos feito acreditar que era possível chegar ao objetivo proposto. Não esquecendo a claque, que sempre ajudou e apoiou”.

Nova pausa na história. Tem muita graça podermos dizer que estivemos a falar com Roger Milla, sobretudo num período pré-Mundial, onde Milla - não este, mas o velho craque camaronês - é sempre relembrado. Vamos trazer mais Milla, que aceitou o desafio de nos contar uma história vivida nesta temporada. Daquelas que as pessoas não sabem. Dá-lhe, Milla.

“Um dia, no novo centro de estágio, depois de acabar os treinos, a equipa ia toda para o balneário tomar o banho e a carrinha do clube ficou presa na lama seca. Foram cerca de 30 minutos e tivemos de empurrar a carrinha. A malta toda com os pés cheios de lama”.

Lama? Pois, na mouche. Foi na lama que esteve o Alverca e, pelos vistos, o escape pode ser falado em sentido perfeitamente denotativo. A extinção, em 2005, levou o clube até ao lamaçal. Teve de recomeçar do zero, na última divisão dos distritais de Lisboa. Lembra-se de, no início, termos dito que a subida foi feita devagarinho? Foi mesmo. De 2006 a 2008 na segunda divisão, de 2008 a 2013 na primeira e, desde 2013/14, no Pro-Nacional. Tudo devagar. Mas já diz o povo que, devagar se vai ao... exato, isso mesmo. O Alverca está a montar o caminho para ir longe. “As pessoas que estão à frente do Alverca são pessoas enormes, que não poupam esforços para o bem do clube. Por isso, sei que são capazes de levar o Alverca até à I Liga”, diz Roger Milla, enquanto Carlos Gomes, outro jogador do plantel, é mais cauteloso e traça o plano.

"Acho que há que pensar um objetivo de cada vez. Primeiro, há que estabilizar o clube, pois, por vezes, é mais difícil lidar com o sucesso do que propriamente com o fracasso. Quando fracassamos, sabemos que temos de mudar, mas, quando temos sucesso, nem sempre temos lucidez para acreditar que mudar é igualmente importante. Tudo vai depender da capacidade de adaptação que o Alverca tiver à nova realidade do Campeonato de Portugal. São divisões muito diferentes e com necessidades muito diferentes. Sei que o Alverca está bem entregue. A envolvência de toda a cidade na ajuda à recuperação deste clube, no que a objetivos de primeira divisão diz respeito, é fundamental. Caso haja uma simbiose grande entre esta direção e toda a população, não tenho dúvidas de que, num futuro próximo, a probabilidade de isso acontecer será grande".

Voltamos a Alverca. Perto do campo, uma senhora, ainda jovem, pede-nos que lhe tiremos uma fotografia com as filhas, no parque. Sem problema nenhum, respondemos, acrescentando: “Mas então tem de nos falar um bocadinho do Alverca”. Afinal, a vida é dar e receber. Assim foi. Marta assume que não é fã de futebol, mas que, no final da temporada, a cidade e os adeptos estavam tão próximos do clube, que até foi à bola. “Fui ao jogo decisivo, não me lembro contra quem. Fui com o meu marido e uma das minhas filhas. Gostei do ambiente e foi uma grande festa. Mesmo não sendo uma adepta fervorosa, emocionei-me”, conta-nos.

Esse jogo, contra o Tires, carimbou a subida aos nacionais e mostrou que a cidade está, novamente, com o clube. Carlos Gomes, jogador do Alverca, atesta-o.

"Para a cidade de Alverca foi, sem dúvida, muito importante. Quando cheguei, senti que a cidade estava algo esquecida do futebol. Não começámos da melhor forma e, com as lutas de subida de divisão de anos anteriores, que não foram bem sucedidas, havia alguma descrença. Voltámos a puxar pela cidade e a tê-la junto de nós. Rapidamente sentimos que havia muita gente a apoiar-nos e com grande vontade de que puséssemos o Alverca de volta aos nacionais. Isto envolve muita coisa, envolve a cultura ribatejana e a vontade de as pessoas de Alverca voltarem a ver neste clube uma instituição de confiança e sucesso".

A cidade está com o clube, mas não só. O clube também está com a cidade. Prova disso é a construção do novo centro de formação do clube, um projeto já antigo – bem antigo, mesmo – e que está quase terminado, com o trabalho da atual direção, presidida por Fernando Orge. O peladão onde jogam os miúdos pode ser trocado pelos sintéticos novinhos em folha.

Por falar em infraestruturas, há uma curiosidade sobre o Alverca: das 15 equipas que disputaram a divisão Pro-Nacional, o Alverca é uma das três que tem relva natural. De resto, tudo sintético e, boa parte, com campos de dimensões reduzidas. Vantagem em casa, dizem uns, desvantagem fora de casa, dizem outros. É uma faca de dois “legumes”, como, um dia, disse Jaime Pacheco.

Esse espaço pode ser vosso

Paredes-meias com o estádio está este anúncio. Aquele espaço pode ser seu, dizem os anunciantes. Ao Alverca, dizemos nós: esse espaço, nos campeonatos nacionais, pode ser vosso.

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