Opinião
A vitória justa do Benfica e a justiça na vitória de Mourinho
2018-10-08 14:00:00

Ganhou o Benfica e ganhou bem. Não porque jogue muito futebol, que não joga – em toda a partida construiu só um par de oportunidades e raras foram as jogadas com ligação efectiva – mas porque, desta vez, quis mais ganhar que o Porto. E quis em duplo sentido: foi taticamente mais ousado - em português corrente, atacou mais, sobretudo na segunda parte e até ficar com um homem a menos – e manifestou crença efectiva e em doses suplementares, numa vontade de ganhar visível nos planos próximos da tv, particularmente evidente nos rostos de Ruben Dias, Grimaldo ou Pizzi. E depois tem melhores jogadores, pelo menos muito mais soluções ofensivas de qualidade. A comparação não deixa dúvidas: o Porto, sem Aboubakar, com Soares à procura do ritmo certo e Marega ao pé-coxinho, tinha como única solução de recurso o jovem André Pereira, enquanto o Benfica pôde lançar Rafa, dispunha de Jonas e Castillo e ainda deixou fora da lista Zivkovic, João Félix e Ferreyra. De competências técnico-tácticas muito haverá ainda para analisar no futuro da época mas quanto à profundidade do plantel não há dúvidas de que o Benfica leva vantagem.

O jogo não foi grande coisa, a primeira parte então foi mesmo fraca demais, mas as águias surgiram mais fortes no reatamento e o dragão nunca exibiu o poder de fogo que mostrou noutros momentos importantes, por exemplo no mesmo clássico da temporada anterior que pesou bastante na decisão do título. Demasiado viciada nos lançamentos longos para Marega e Soares, que o Benfica soube controlar, e com os laterais presos à vigilância dos extremos encarnados, a equipa foi sobretudo incapaz de construir com qualidade, de ter bola e de a circular. No eixo central, a colocação de Herrera como segunda unidade pressionante no momento defensivo fê-lo viver o jogo numa espécie de exílio tático, enquanto o combate com o trio benfiquista – Fejsa, Gabriel, Pizzi – ficou resumido a um Danilo que ainda não vejo justificar a suplência de Sérgio Oliveira e a um Otávio fora do habitat natural, por isso sem espaço para a criatividade e essencialmente faltoso. Só depois da expulsão de Lema o Porto poderia ter marcado mas verdadeiramente pouco tinha feito por isso até então.

Torci como já não me lembrava por José Mourinho. Gostei mesmo de o ver guiar o Manchester United à reviravolta frente ao Newcastle. O treinador português tem cometido vários erros nos últimos anos, restam poucas dúvidas. Apontaria, sem qualquer pretensão de verdade absoluta, o ter desvalorizado em certos momentos a construção de um jogar de qualidade (e de iniciativa) em detrimento de algum experimentalismo estratégico, com planos demasiado diferentes para cada jogo ou marcações individuais anacrónicas (que reforçam a importância dada ao opositor), ter revelado quase uma obsessão por jogadores musculados (Lukaku, Fellaini, mesmo Pogba), quiçá na tentação de mostrar que se pode ganhar com ideias opostas às que Guardiola celebrizou, ou ainda a preocupação excessiva em chamar sobre si próprio os holofotes da crítica, o que só poupa os jogadores até certo ponto, envolve-os também fatalmente, depois. José Mourinho não pode é ser tratado como um qualquer, que há toda uma história que não se apaga e que faz dele um dos técnicos mais bem sucedidos de sempre na história do jogo. É certo que depende essencialmente dele ser capaz de inverter a tendência recente. E até acredito que pode fazê-lo pegando no exemplo daquela última meia hora do jogo deste sábado, quando a equipa se livrou de estratégias de equilíbrio e se assumiu, com todos os talentos à solta, como aquilo que efetivamente pode ser mais vezes: uma grande máquina de jogo ofensivo, capaz de encostar o rival às cordas. Não, não esqueço que o adversário era o Newcastle, que segue frágil nos últimos lugares da Premier, mas não escondo que gostava de ver sequelas daquele filme. Porque o Man United é melhor assim e porque aquele é o Mourinho que nos faz vibrar. E respeitar mais ainda.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada às segundas feiras.

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