Opinião
A via verde e o cheque em branco
Manuel Fernandes Silva
2018-09-12 14:00:00
Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.

Acredito que daqui por uns anos o país desportivo (e não apenas leonino) olhará para o dia oito de setembro de 2018 como um dos mais importantes da história do Sporting Clube de Portugal. Não por ter sido o dia da eleição de Frederico Varandas, mas por assinalar de forma quase irrevogável o final do percurso de Bruno de Carvalho no clube de Alvalade. Para o Sporting, este momento era fundamental, por permitir entregar a cadeira leonina a um novo líder, legitimado pelos associados.

A apressada tomada de posse dos renovados órgãos sociais, realizada 24 horas depois do fecho das urnas, ajuda a perceber que aquele momento era o final de um pesadelo que colocou à prova a resiliência dos sportinguistas e a capacidade de regeneração do clube. Por muito legítimas que possam ser as críticas à multiplicação de candidaturas, a verdade é que os sócios tiveram à disposição um leque alargado de ideias, com muitos nomes sonantes associados. A votação foi de tal forma expressiva que o vencedor teria sempre total legitimidade, por isso o ex-diretor clínico do Sporting tem via verde para a execução do projeto. Mas sem o cheque em branco que os sportinguistas deram a Bruno de Carvalho nos últimos anos. A frase mais marcante de Frederico Varandas na tomada de posse marca a diferença para o passado e sublinha a ideia de uma liderança sem prepotência: “nasci Sporting, cresci Sporting e respiro Sporting, mas não sou o Sporting”.

Todos os candidatos fizeram questão de rejeitar a herança da gestão de Bruno de Carvalho, o que parece tão óbvio como condenar o fogo posto ou os derramamentos de petróleo no mar. No entanto, a campanha eleitoral teve também uma espécie de contrarrelógio individual, para avaliar quem esteve mais ou menos tempo ao lado do anterior presidente. Uma competição inútil e despropositada, porque em determinados momentos Bruno de Carvalho conseguiu ser praticamente unânime, provando que os populismos podem ser igualmente perigosos (mas também eficazes) no desporto.

O presidente destituído não vai desaparecer do mapa leonino assim tão facilmente. Vai espernear, vai desenhar ameaças e vai conseguir encontrar um palco para poder fazer oposição ao alvo preferido: o mundo que existe para além dele próprio. Afastado das eleições, Bruno de Carvalho deverá agora ser afastado do clube através da expulsão. Essa é a pena máxima, mas também a medida mínima para um dos piores dirigentes da história do desporto português, que conseguiu ter uma patética aparição em alguns órgãos de comunicação social por causa de uma indisposição que o levou ao hospital durante a noite eleitoral.

O Sporting vive um tempo novo e quer esquecer Bruno de Carvalho, mas os prejuízos desportivos e a complicada situação financeira vão servir de lembrete diário dos piores tempos do clube de Alvalade. A ideia de união tem prevalecido desde o anúncio dos resultados eleitorais, com João Benedito a dar uma lição de democracia e com resposta à altura de Frederico Varandas e Rogério Alves, que elogiaram o adversário mais votado. Pode parecer tudo normal, mas basta recuarmos alguns anos, até às eleições em que Godinho Lopes derrotou Bruno de Carvalho, para percebermos como o ambiente está menos tóxico.

Frederico Varandas apresentou o projeto, deu a conhecer a equipa e recolheu a maioria dos votos dos associados que foram escolher a nova liderança. Fez tudo isto com um discurso tranquilo, ponderado, mas ao mesmo tempo apaixonado e ambicioso. Venceu o jogo dos argumentos, mas agora tem de entrar no difícil combate do futebol português, frente a adversários muito mais experientes. O novo presidente prometeu o título de campeão, mas a grande vitória do Sporting está assegurada. O clube conseguiu sobreviver à passagem de Bruno de Carvalho.

P.S. - Os elogios à gestão de Sousa Cintra não são exagerados. O experiente gestor conseguiu recuperar ativos desportivos, assegurou a sucessão de Jorge Jesus e recuperou a credibilidade do clube. Não o terá feito sozinho, mas foi o rosto mais visível de um Sporting de regresso à urbanidade.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.
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