Opinião
A valsa dos candidatos
2018-08-01 16:20:00
Manuel Fernandes Silva analisa a corrida às eleições no Sporting.

O Sporting já ultrapassou os piores dias da tempestade mais grave de sempre, mas a tranquilidade que o afastamento de Bruno de Carvalho garantiu ainda não permitiu o aparecimento de uma verdadeira solução, agregadora e capaz de ajudar o clube de Alvalade a "limpar" o passado recente.

No meio de um turbilhão quase diário de novas candidaturas, é possível encontrar um pouco de tudo. Há os "outsiders", sem quaisquer hipóteses reais de sucesso, que se lançam na corrida em busca de pouco mais do que uma fugaz notoriedade mediática. Há também alguns regressos às urnas, mas são quase sempre nomes pouco ancorados e com resultados residuais em eleições anteriores. Por fim, surgem duas ou três personalidades com capital de credibilidade relevante junto de uma parte substancial do "eleitorado" sportinguista.

No meio deste já considerável grupo estão ainda três nomes ligados à anterior gestão: Carlos Vieira, o próprio Bruno de Carvalho e José Maria Ricciardi.

O banqueiro nunca esteve envolvido diretamente na gestão do ex-presidente, mas foi sempre o homem na sombra e o apoio (pouco) invisível. Ricciardi esteve ao lado de Bruno de Carvalho enquanto isso foi humanamente possível e numa altura em que as vozes de contestação já não eram assim tão irrelevantes. Retirou o apoio ao líder leonino apenas quando já não era razoável defender o indefensável. Surge agora na corrida, admitindo o risco que comporta (e não há aqui qualquer trocadilho entre o verbo e o nome da herdade que pertencia à família Espírito Santo) sair do conforto dos bastidores para tentar conquistar os votos dos sócios do Sporting. Esse mérito - ao menos esse - terá de ser creditado a José Maria Ricciardi.

Carlos Vieira esteve com Bruno de Carvalho até ao estertor da presidência anterior, mas surgiu depois como uma espécie de herdeiro daquilo que considerará ser o melhor do "brunismo" (mas agora sem Bruno). O antigo administrador financeiro enfrenta o mesmo problema do ex-líder leonino, que é o da quase certeza de que não poderá protagonizar uma candidatura. Há, no entanto, uma questão que ultrapassa a necessária clarificação disciplinar (que vai, é agora quase certo, afastar da corrida os dois antigos dirigentes) e que entronca no que deveria ser um dilema ético de quem tinha responsabilidades no clube no momento em que foi exercida inqualificável violência sobre alguns dos principais elementos do futebol profissional. Bruno de Carvalho e Carlos Vieira querem, apesar de tudo o que se passou, ser candidatos. Dificilmente terão esse direito, que nunca deveriam ter reclamado.   

Com todo este cenário, o Sporting passou do drama à improvisação diária de uma campanha com nove "quase-candidatos", cada um deles a puxar para um lado diferente, cada um deles a esticar até ao limite a capacidade de (des)união do emblema de Alvalade.

É nesta aparente desordem de projetos que surge o apelo de um grupo de sócios, liderado por Miguel Poiares Maduro. Os subscritores do manifesto pedem a convergência de listas em torno de um nome mobilizador e que permita potenciar um clima de união que o Sporting parece estar longe de assegurar. A deixa parece perfeita para colocar em primeiro plano os interesses do Sporting e não tanto (e tantas) ambições pessoais.

Neste aspeto, o exemplo de Sousa Cintra poderia ser inspirador para alguns candidatos: trabalho de recuperação de ativos e de imagem do clube, ausência de "agenda escondida" e uma ambição alicerçada numa boa política de contratações. Sousa Cintra despede-se da liderança do Sporting daqui a pouco mais de um mês, mas com ele levará uma marca de competência que seria capaz de lhe atribuir boas chances de sucesso num hipotético embarque na corrida eleitoral. Não vai a votos, mas é quase certo que vai sair pela porta grande.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras.