Opinião
A táctica, sempre ela
Carlos Daniel
2018-11-12 14:15:00
Carlos Daniel escreve no Bancada às segundas feiras.

Vi muitos mas não todos (desta vez era mesmo humanamente impossível) os grandes jogos de um fim de semana em cheio. Mesmo assim, arrisco dizer que o Barcelona-Bétis foi talvez o mais admirável. Quique Setién, antigo médio ofensivo de recursos limitados, é o mais recente profeta do belo jogo, sem limites. Mais que os resultados - o ter ganho em Camp Nou e ser o primeiro a fazê-lo em dez anos e na mesma época também no Bernabéu – conta a forma como fez, o processo de jogo que é impressão digital deste sucesso em casa do líder. A primeira parte foi particularmente notável: condicionou a todo o campo, pressionou para ganhar a bola onde queria, geriu as transições com critério, conservando a bola como prioridade, foi magistral na gestão da posse e feriu quando tal se mostrava possível. Foi um Bétis à Barça no templo do melhor jogo e que nem um Messi regressado com dois golos pôde evitar. Já no Las Palmas Setién mostrara ao que vinha, numa prova segura de que antes dos jogadores está a ideia de jogo, que serve também para simplificar… a escolha dos jogadores. Homens como Sidnei ou Tello, que os portugueses viram sem grande sucesso por cá, são exemplos de que só é possível dar o melhor no contexto certo. Numa defesa que quer construir, Sidnei brilha (como Bartra), garantindo ainda a capacidade de recuperar os metros nas costas com uma velocidade incomum que o perfil gorducho parece esconder. Tello voa pela direita, embalado de trás e acionado quando a equipa consegue colocá-lo nas situações de um para um que tanto o favorecem. À esquerda faz o mesmo um miúdo da terra das praias, o dominicano Junior Firpo, que ontem dinamitou a defensiva catalã. Por ali se abriu mais vezes a autoestrada que valeu quatro golos mas a via verde era garantida pelo eixo pensador, feito de unidades vocacionadas mais para jogar do que para caçar rivais. São os movimentos interiores do velho sábio Joaquín a somar-se à inteligência feita dinâmica da dupla Guardado-William Carvalho, que não carregam pianos. O médio português fez um jogo monstruoso, terá sido até o melhor em campo numa equipa de brilho generalizado, com qualidade no desarme, vigor no transporte, acerto total no passe com assistências deslumbrantes. No contexto tático que o favorece, William é um craque absoluto e indiscutível.

É justo referir também Lucien Favre, o suíço de 61 anos que já anteriormente (no Nice ou no Borussia M´gladbach) mostrara ser diferenciado. O novo Borussia de Dortmund parece ter-se fartado de aplaudir títulos do Bayern e deixou agora, num jogo de confronto direto, o colosso da Baviera 7 pontos abaixo. Foi mais um jogo de emoções - que as equipas de iniciativa raramente podem ser responsabilizadas por jogos sonolentos - com o Bayern a perder depois de ter estado duas vezes em vantagem. Só a muita qualidade de jogo dos donos do Signal Iduna Park  permitiu a reviravolta. À posse de risco (como joga Witsel!) juntou-se a capacidade de pressionar a construção deficiente dos bávaros, que vão longe as rotinas de Guardiola. O resto fez-se de criatividade e contundência a atacar o espaço, destacando-se Reus, liberto das lesões e livre no campo, o magnífico lateral marroquino Hakimi, destro a jogar à esquerda, emprestado pelo Real Madrid, e esse prodígio inglês pescado do City que se chama Jadon Sancho. É mais uma equipa de autor feita de base tática. Procuram-se treinadores? É seguir o caminho das melhores ideias, como as Favre como Quique Setién, tantas vezes escondidas em equipas de meio da tabela.

Em Inglaterra vi a enésima manifestação de superioridade do Manchester City e do seu futebol em que o talento não se mede aos palmos (nenhum dos médios e avançados titulares cegava a 1,80m). Foi mais uma demonstração de génio coletivo em que emergem os magníficos Silvas (David e Bernardo) e um Sterling que Guardiola transformou em arma letal, acrescenta-lhe entendimento do jogo. E não houve propriamente demérito (sobretudo defensivo) do Manchester United, que mesmo sofrendo golos cedo em cada parte conseguiu colocar areia na engrenagem ofensiva do rival. Acontece que o City é, hoje em dia, do ponto de vista coletivo, e de longe, a mais forte equipa do planeta e está num momento quase insuperável. Os melhores jogadores são potenciados pelas melhores ideias e não o contrário. Outra das melhoras propostas além-Mancha sai da minúcia tática com que Maurizio Sarri (em poucos meses!) construiu um novo e competitivo Chelsea. Ontem emperrou, como poucas vezes lhe acontecera, na estratégia impecável com que Marco Silva armou o Everton, entrando no coração do rival ao retirar, tática mas literalmente, do jogo Jorginho, elemento nuclear do jogo dos azuis de Londres e extensão de Sarri na relva.

Em Portugal, o prato principal foi servido no Dragão, onde Porto e Braga provaram ser as melhores equipas da Liga até agora. E digo melhores no binómio qualidade de jogadores/rendimento, o que serve de elogio em caixa alta aos dois técnicos, particularmente a Abel Ferreira. Sérgio Conceição superou a fase sofrível de há um mês e devolveu o conjunto a um rendimento constante, otimizado pelo recurso (finalmente!) ao genial Óliver Torres e pela aposta regular em Corona. Isto faz com que a equipa coloque mais criatividade sobre o campo, além de multiplicar soluções diferentes para lançar durante o jogo. Conceição aproveitou muito bem o recurso a Otávio e Herrera (e depois Hernâni), conseguindo mexer taticamente com o jogo e carregar sobre a área rival nos últimos minutos que se revelaram decisivos. Do outro lado esteve uma outra equipa completa, feita de competência no momento defensivo e ousadia quando lhe era permitido atacar, a jogar um futebol de iguais como poucos conseguem em território portista e que a deixou à beira de pontuar. Vale a pena essencialmente sublinhar a qualidade tática de ambos os lados, como princípios de jogo claros e uma identidade evidente entre o que os treinadores pedem e os jogadores mostram ser capazes de garantir. É disso que se fazem as melhores equipas. Além de que as boas ideias não têm de ser todas parecidas.

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