Opinião
A seleção e os portugueses em depressão
Mauro
2018-03-27 16:15:00

Os portugueses adoram entrar em depressão com o futebol e os dois jogos que a seleção nacional fez esta semana na Suíça, contra Egito e Holanda, deram-lhes um pretexto ideal para o fazerem. Sim, foi quase tudo muito mau. Mas sim, também foram jogos particulares, que – mais ainda nesta fase – servem para que se tirem ilações. Não acerca do real valor de uma equipa, que o passado está cheio de casos de equipas miseráveis na preparação e depois ganhadoras na competição, mas acerca do que ela deve e não deve fazer. E a esse respeito a passagem por Zurique e Genebra foi rica.

O jogo com a Holanda, então, foi um tesouro, porque mostrou muitas verdades ao selecionador. Portugal teve muita posse, mas zero intensidade, pouca ou nenhuma presença na área e falhas comprometedoras atrás. Conclusões? À frente de todas a de que o plano com Ronaldo como referência única do ataque só pode servir em noites nas quais a equipa nacional não tenha de fazer as despesas do jogo, em que possa apostar mais nos momentos de transição ofensiva, com adversários que saiam mais da toca do que fez esta Holanda. Porque apostar mais no momento de ataque organizado e depois verificar que não há ninguém na área – porque Ronaldo rende mais em mobilidade e porque não lhe juntou um primeiro avançado que ao mesmo tempo ocupe o espaço e o liberte – equivale a um tiro no pé futebolístico.

Depois, há a questão do meio-campo. Se houve boa notícia para os adeptos portugueses após a vitória no Europeu foi a do aumento das opções para o meio-campo. Sucede que elas esta época estão a minguar, porque André Gomes, Adrien Silva e João Mário têm feito uma época muito abaixo das suas reais possibilidades. Contra a Holanda, ainda por cima, Santos optou por colocar um André Gomes sem ritmo nem bastão de comando – notou-se bem a diferença quando entrou João Moutinho – a manobrar na sala de máquinas, remetendo Manuel Fernandes para a esquerda, naquela posição que pressupõe ser ao mesmo tempo ala e terceiro médio-centro e que costuma ser ocupada por… André Gomes. Ora se Portugal jogou com Ronaldo a fazer de André Silva, Bruno Fernandes a fazer de Ronaldo, Manuel Fernandes a fazer de André Gomes (ou João Mário) e André Gomes a fazer de William, é normal que as coisas tenham saído mal e que tenha perdido largo.

Resta a questão Quaresma. Antes destes dois jogos, eu próprio estava convencido de que Gelson e Quaresma eram um pleonasmo – se o titular da posição de extremo-direito vai ser Bernardo Silva, que sentido faria gastar duas vagas na lista de selecionados com dois jogadores que iam lutar pelo papel de revulsivo, de agitador para jogos que estejam a correr mal? Hoje estou convicto de que têm de ir os dois ao Mundial. Porque, além da “química” especial que tem com Ronaldo, que se viu na forma como os dois ganharam o jogo com o Egito, Quaresma é a melhor solução para momentos de desespero. E porque, como se viu no jogo com a Holanda, em que foi titular, lhe falta constância, ritmo e continuidade para ser uma primeira solução para questões que venham a colocar-se a esta equipa.

Sei que os leitores gostam sempre mais de personalizar as coisas – e prometo que em breve aqui voltarei a avaliar a evolução das possibilidades de todos os jogadores virem a fazer parte da lista final. Mas neste momento os principais sinais são coletivos. São sinais de falta de segurança atrás – Pepe faz mesmo muita falta e resta saber se Rúben Dias não terá marcado pontos, mesmo lesionado em casa – e de falta de rotinas no meio e à frente. Esta última questão, ainda assim, é menos preocupante, porque William dá à equipa mais qualidade na construção, porque André Gomes e João Mário vão melhorar, quanto mais não seja no estágio final, e porque o jogo interior que faltou contra o Egito pode também ser fornecido pela inclusão de Bruno Fernandes, jogador cuja entrada na lista final pode ser favorecida por ele dar à equipa o que mais ninguém dá ao nível da finalização de meia-distância ou do último passe. Já aquilo que se viu atrás terá a ver com falta de trabalho de conjunto, mas também com caraterísticas individuais e com a perda de qualidades que a idade traz aos atletas de alta competição.