Opinião
A revolução desnecessária
2018-03-15 14:00:00
Contra a tendência e filosofia do futebol, procura-se incutir em Portugal um modelo que nem os seus criadores convenceu.

Dei por mim, há uns dias, a dar com uma partilha de um colega jornalista no Twitter acerca do Légia de Varsóvia. Não. Isto não é um artigo sobre o futebol polaco, ou o campeonato polaco, por muito que a competição seja uma das menos valorizadas da Europa e mereça mais amor. O post era acerca do facto do Légia se ter tornado no primeiro clube do Mundo a agrupar as suas camadas jovens por idade biológica e não idade cronológica como sempre foi habitual e regra no futebol. A discussão é cada vez mais forte, mas foi o Légia a equipa que deu o primeiro passo. Nem todo o ser humano se desenvolve da mesma forma e com a mesma velocidade e, no caso do futebol, nem todos os jogadores beneficiam desportiva e fisicamente de competir contra atletas exclusivamente das suas idades.

Esta linha de pensamento começou a ser cada vez mais presente no novo milénio e foi algo que permitiu que países como a Alemanha, a Espanha, a Bélgica e a França dessem um salto significativo na qualidade das suas academias jovens e se reconstruissem futebolisticamente ao ponto de se terem tornado quatro das principais potências do futebol Mundial. Com um ajuste muito simples e que países como a Inglaterra passaram a emular de há uns anos a esta parte: desligar o chip da idade cronológica e oferecer estímulos diferentes a jogadores em fases de maturação diferentes. De uma forma prática, estas federações reorganizaram-se e começaram a disputar torneios sub qualquer coisa com jogadores do escalão sub anterior. Os Sub-16 jogavam nos Sub-17, os Sub-17 nos Sub-18, os Sub-18 nos Sub-19 e por aí fora. Ou seja, jogadores mais novos passaram a jogar contra atletas mais velhos, mais cedo. Maturando mais rapidamente, crescendo desportiva, pessoal e fisicamente.

Nada disto deve ser dogmático e daí a ideia do Légia em agrupar atletas pela sua idade biológica. O Légia tornou-se a primeira equipa a fazê-lo como filosofia, mesmo que alguns clubes já o fizessem internamente em casos pontuais. Num artigo publicado pela Vice em 2016, o antigo responsável pela formação do Southampton FC explicava porque razão o clube colocou Alex Oxlade-Chamberlain a treinar fora do seu escalão, não com jogadores mais velhos, mas com jogadores mais novos. “Chamberlain atingiu um ponto em que não estava propriamente em risco de ser dispensado, mas havia uma decisão a tomar pois era demasiado pequeno e frágil para jogar contra atletas do seu escalão etário. Decidimos que ao invés de o colocar a jogar num escalão acima, ele iria treinar com atletas mais novos um ano”, explicou James Bunce. O técnico assegurou que a decisão fez maravilhas à confiança de Oxlade-Chamberlain que assim passou a jogar contra atletas com uma fisionomia semelhante e podia finalmente desenvolver-se tecnicamente sem ser “smashed off the ball”.

Oxlade-Chamberlain é um exemplo em muitos de jogadores que demoraram o seu tempo a crescer porque a própria natureza o decidiu. Um exemplo de que nem sempre é justo jogar contra atletas de idade cronológica semelhante, não porque maturaram cedo demais, mas porque demoraram a maturar. Quando Chamberlain cresceu e ganhou corpo, estreou-se pela equipa do Southampton. Tinha 16 anos. O resto é história. É hoje internacional inglês e joga numa das melhores equipas do país.

Vem tudo isto a propósito de mais uma revolução desnecessária no futebol português e que acima de tudo parece contrariar a lógica e a tendência das metodologias de treino atuais. Quer, a FPF, incutir um modelo semelhante ao inglês de um campeonato sub-23, competição que já recebeu sinal positivo de clubes como o Sporting, o SC Braga ou o Rio Ave. É certo que tal competição não implica a desistência das equipas B, mas será um contrassenso se esses mesmos clubes terminarem com as suas equipas B, que competem em escalões profissionais, para obrigar os seus jovens jogadores a disputar uma competição restritiva.

Desde que as equipas B regressaram ao futebol português em 2012/13, Portugal foi vice campeão europeu sub-21 em 2015, vice-campeão europeu sub-19 em 2014 e 2017 e, claro, campeão da Europa sénior em 2016. Em poucos anos Portugal venceu ou esteve nas decisões das grandes competições de seleções como nunca conseguira estar em tão curtos espaços temporais. Pelas equipas B passaram internacionais seniores recentes como Paciência, Bruma, Gelson Martins, João Cancelo, André Silva, Renato Sanches, Ricardo Pereira, Gonçalo Guedes, Bernardo Silva, Nélson Semedo ou André Gomes. Outros estarão na calha, com vários internacionais jovens por Portugal a contarem já preciosos minutos em ambiente profissional porque essas mesmas equipas B disputam competições profissionais como a segunda liga. Nem todos os jogadores beneficiam de jogar um escalão acima, é certo, mas a experiência diz que são muitos aqueles que disso tiram partido. Desistir das equipas B para disputar um campeonato etário é, por isso, um retrocesso no bom que tem sido feito no futebol português nos últimos anos.

Depois... há a questão do modelo. Que a segunda liga precisa de uma reformulação profunda, poucos devem duvidar. Comercialmente não é de todo apelativa e em termos organizacionais, com várias jornadas a meio da semana com horários a meio da tarde, roça o aberrante. Num país com dificuldade em ter assistências em estádio ao fim de semana, pouco ou nenhum sentido faz jogar-se a meio da semana e a meio da tarde. Promovido pela FPF como um modelo vencedor, emulando a Premier League 2, ou Premier League Sub-23, a verdade, é que tal modelo continua a ser debatido como profundamente defeituoso por Inglaterra. Com um impacto mediático e desportivo nulo, a Premier League 2 foi apenas um modelo de recurso encontrado pelo organismo britânico face à recusa dos clubes da Football League em aceder à colocação de equipas B, ou Sub-23, nos campeonatos profissionais. No máximo, a Premier League conseguiu encaixar equipas Sub-23 no Football League Trophy, competição que era disputada apenas pelas equipas da League One e Two (não confundir com a League Cup), medida que destruiu por completo a competição e afastou os adeptos dos estádios nos encontros da mesma ao ponto da discussão atual estar muito próxima da sugestão de extinção da competição.

Aquele é visto como um modelo a seguir pelos dirigentes portugueses, não é mais do que um campeonato de reservas das reservas em Inglaterra. Os melhores jogadores sub-23 são emprestados para equipas da Football League e na PL2 competem jogadores que procuram recuperar de lesões, bem como os miúdos que não encontram espaço em ambiente profissional. Serve o Manchester United de exemplo. Último classificado da 1ª divisão da PL2, tem neste momento emprestados em equipas profissionais os melhores jogadores jovens do clube. Fosuh-Mensah está no Palace, Tuanzebe e Sam Johnstone no Aston Villa, Andreas Pereira em Valência, James Wilson no Sheffield United, Dean Henderson no Shrewsbury Town, Regan Poole no Northampton Town, Demetri Mitchell no Hearts, Charlie Scott no Hamilton Academical e Matt Willock no St. Johnstone. Para um clube que tira verdadeiramente proveito da competição, como o fez o Everton na temporada passada, muitos mais são aqueles que dela pouco proveito tiram.

O modelo inglês tem muito que deve ser apreciado, mas a nova revolução que parece querer incutir-se no futebol português parece ser uma revolução desnecessária. O que não funciona em Inglaterra, dificilmente funcionará em Portugal. Olhar para a capacidade de organização, competitividade e comerciabilidade? Façam o favor. Dificilmente uma competição secundária é tão rica e bem estruturada quanto a Inglesa. Mas não a nível de competições jovens nacionais e internas. Não, aí, ainda andam às apalpadelas. O futebol português e principalmente as divisões secundárias precisam de uma arrumação, mas este dificilmente será o caminho.