Opinião
A porta será sempre grande
Manuel Fernandes Silva
2018-05-30 14:00:00

Depois daquele Campeonato da Europa, da estátua construída em Leiria e de mais uma temporada de elevadíssimo nível no Sporting, a saída de Rui Patrício até poderia ser inevitável, mas não por estes motivos e neste contexto. Ainda assim, a tenebrosa semana que antecedeu a final do Jamor, os dois golos sofridos frente ao Desportivo das Aves e as lágrimas que o guarda-redes não conseguiu travar não chegam para chamuscar um percurso extraordinário em Alvalade. Pelo contrário, Rui Patrício sairá sempre por uma porta muito grande, ainda maior do que a baliza que defendeu com as mãos, mas também com o coração. Sempre.

Daqui a uns anos, com maior distanciamento, lembraremos todos estes tempos do Sporting com um misto de incredulidade e choque. Ficaremos a pensar se tudo isto aconteceu mesmo ou se terá havido uma certa efabulação.

Hoje, ainda tão perto das cinzas que o ataque a Alcochete deixou no ar, não nos é permitido levar este assunto para o campo da mitologia, mas o passar do tempo encarregar-se-á de colocar muitos dos atuais protagonistas no lugar devido na riquíssima história do Sporting Clube de Portugal. Alguns vão desaparecer, outros merecerão uma linha ou um parágrafo. Por fim, poucos terão direito a um capítulo inteiro. É a esta casta, tão rara quanto celebrada, que pertence Rui Patrício.

Os primeiros tempos na baliza do Sporting nem sequer foram fáceis, mas a “teimosia” de Paulo Bento acabou por ser o dínamo de um crescimento que tornou Rui Patrício no melhor guarda-redes do Sporting das últimas décadas. Patrício junta a elegância de Vítor Damas à espectacularidade de Peter Schmeichel, ao mesmo tempo que soube assumir-se de forma inequívoca como líder, numa fase em que o plantel sofreu inusitados ataques públicos de Bruno de Carvalho.

Rui Patrício sai sem ter sido campeão nacional, mas tem como inevitável destino a passagem ao estatuto de lenda do Sporting, de símbolo capaz de abraçar a eternidade no clube leonino. Pouco importa se o clima é de guerra entre órgãos sociais, de indefinição directiva ou de anúncios quase diários de candidaturas à presidência do clube de Alvalade. Daqui a algum tempo, quando o Sporting navegar em águas mais tranquilas, tudo isso ficará condenado a um plano inferior, quase irrelevante. Em sentido contrário, toda a dedicação de Rui Patrício ao Sporting (titular da baliza leonina há mais de onze anos) acabará por fazer do guarda-redes uma figura digna de elogios unânimes dos adeptos do clube do leão. E sem necessidade de qualquer sessão de esclarecimento prévia.

P.S. – Depois da saída de Ricardo Pereira para o Leicester, o FC Porto perde agora Diogo Dalot, o “lugar-tenente” do lateral-direito que foi chamado por Fernando Santos ao Campeonato do Mundo da Rússia. Sem armas para contra-argumentar, os portistas vão limitar-se a gerir o desconforto que provocará o pagamento da cláusula de rescisão de 20 milhões de euros e o consequente adeus do jovem reforço da equipa de José Mourinho.

Diogo Dalot tinha garantida a titularidade no próximo exercício, mas uma proposta do Manchester United acaba por ser quase uma “ordem” ou um chamamento irreprimível. Dalot terá preferido não renovar (tinha contrato por mais uma temporada com o FC Porto), dando um passo arriscado para agarrar um “comboio” que dificilmente poderia ser recusado, mesmo por um jovem talento de 19 anos.

Sem Ricardo Pereira, Diogo Dalot, Diego Reyes e Marcano, o FC Porto vai ter de compor uma defesa quase totalmente nova. Felipe e Alex Telles serão as âncoras, resta perceber se os portistas vão ter capacidade para dar ao treinador os “suplementos competitivos” que o setor vai exigir.

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