Opinião
A NBA do futebol
João Almeida Moreira
2018-04-14 14:00:00

Quais os segredos do entusiasmo planetário que a Liga dos Campeões gera? Em primeiro lugar, claro, a qualidade, com nove em cada dez dos melhores jogadores do mundo presentes na competição e equipas treinadas à exaustão e por isso necessariamente mais fortes e preparadas até do que as seleções nacionais que em Junho se vão encontrar no Mundial.

Em segundo lugar, a organização impecável que se traduz numa distribuição milionária de lucros.

E em terceiro a imprevisibilidade. Apesar da presença do papa-Champions Real Madrid, ninguém arriscará o seu salário a cada início da competicão na vitória dos merengues. Porque há o Barcelona, porque há o Bayern, porque há o Paris Saint-Germain, porque há a Juventus, porque há o contingente inglês e porque pode haver um outsider.

A Premier League supera as outras ligas de topo, entre outros motivos, também por causa da relativa imprevisibilidade – tem meia dúzia de equipas com ambições de título - quanto ao vencedor. A concorrente espanhola é assunto de Barça e Madrid, eventualmente de um Atlético Madrid excecional; e as ligas italiana, alemã e francesa são cada vez mais monólogos de Juventus, Bayern e Paris Saint-Germain.

Pois hoje, caro leitor, começa uma liga onde tudo pode acontecer: a humanidade já consegue prever o sexo dos bebés, o horóscopo de cada signo, a próxima tempestade tropical mas ninguém tem a mínima pista sobre quem será o campeão brasileiro de 2018. Assim como não tinha em 2017, 2016, 2015 e por aí vai.

O Brasileirão tem, portanto, mais até do que a Premier League, essa condição essencial das grandes competições: a imprevisibilidade. Porque há 12 clubes grandes – grandes mesmo, com número de adeptos de fazer corar de vergonha os gigantes europeus – e ainda mais uns quantos remediados que são, no entanto, grandes nos seus estados, estados esses tantas vezes maiores do que países do Velho Continente.

Porque é que o Brasileirão, disputado no único país pentacampeão mundial, não é então uma das maiores competições de futebol do mundo? Porque o que lhe sobra em imprevisibilidade, o terceiro dos segredos do sucesso da Liga dos Campeões, falta-lhe em qualidade e organização, os dois primeiros.

Atores do passado, como Carlos Alberto Parreira, chegaram a chamar ao Brasileirão a NBA do futebol. Atores do presente, menos ufanistas, como Leonardo, jogador, treinador e dirigente de elite, corrigiram a trajetória da comparação: o Brasileirão poderia – no condicional - ser a NBA do futebol.

Eis o trauma psicológico eterno do Brasil: não aquilo que ele é mas aquilo que ele podia ser e não é.

No Brasileirão, só de há uns dois anos para cá a maioria das equipas joga em 30 metros – nos anos anteriores à derrocada brasileira no Mundial-2014 jogava-se em 70, com espaço entre as linhas para plantar coqueiros ou para um ensaio de uma escola de samba.

Sem liga para o gerir profissionalmente com base no interesse comum dos clubes, afinal a sua alma, o Brasileirão entrega-se à corrupta CBF, organismo que vive há 100 anos da mesma receita clientelista em torno das obsoletas federações estaduais, e que não tem vergonha de marcar jornadas da prova para datas FIFA ou interromper a liga por interminável mês e meio para ver a Copa passar.

Passando por cima de detalhes – como a anunciada e depois retirada presença do VAR por falta ridícula de planeamento ou a possibilidade de clubes pequenos venderem o fator casa e jogar assim em locais onde o rival tem muito mais adeptos – repare-se que só no mês passado, o Brasil foi surpreendido por uma notícia muito “anos 90” portugueses: um clube, o Figueirense, da Série B, tornou-se a primeira sociedade anónima do futebol local.

Como diz Leonardo, o Bayern é da Mercedes, a Juventus é da FIAT, o Manchester United de um americano, o Paris Saint-Germain de um qatari, o Chelsea de um russo mas no Brasil se algum estrangeiro quiser investir no Flamengo e nos seus 40 milhões de torcedores, não pode.

Ninguém vê a prova em nenhuma televisão importante no mundo, nem na internet é fácil de encontrá-lo, os horários dos jogos são proibitivos para a Europa e para a Ásia e até o nome – Brasileirão – é impossível de pronunciar por quem não for luso-falante. 

E, no entanto, hoje há um Cruzeiro-Grêmio, uma partida absolutamente de tripla no totobola com talentos em ação como Thiago Neves ou De Arrascaeta, de um lado, e Arthur ou Luan, do outro, a abrir as 38 jornadas do campeonato. É um jogo entre dois dos seis, oito ou 10 favoritos a ganhar a prova. Definitivamente, o drama não é aquilo que o Brasileirão é; mas aquilo que podia ser e não é.

Sê o primeiro a comentar: