Opinião
A melhor defesa volta a ser o ataque?
2018-06-13 21:30:00

Aproveitemos que está aí o último Mundial normal, jogado na época certa e com um número razoável de seleções. O próximo há–de ser no nosso Inverno, algures entre Novembro e Dezembro de 2022, para que se aguente o calor do Qatar, e o seguinte organizado por três países – Estados Unidos, Canadá e México – para umas absurdas 48 seleções. Este que agora começa, na Rússia, é pois o último no género a que nos habituámos, do mês dos Santos ao número de jogos, das mascotes à coleção de cromos. (Que tamanho terá, já agora, a caderneta de 2026?)

É hora de aproveitar e também de assumir previsões. Tinha a Espanha como principal candidata, tenho-a agora como candidata apenas. Não que Lopetegui seja um génio irrepetível mas a mudança de comando em cima da hora fará sempre mossa e Hierro não tem experiência como treinador. Dir-me-ão que num Mundial é mais determinante liderar que treinar, o que é parcialmente verdade, mas na hora da verdade é sempre a táctica – em sentido lato, que agrupa modelo, estratégia, até astúcia – que faz a diferença. Por isso, Espanha favorita, sim, mas não mais que Alemanha, Brasil e Argentina, com jogadores de qualidade e técnicos de competência provada, o que entre brasileiros e argentinos até é novidade na comparação com as mais recentes provas do género. Sampaoli e Tite garantem uma competência de comando técnico que nenhum dos países apresentou na última década, enquanto se Low mantém a longevidade numa liderança eficaz da Alemanha, mesmo com esse crime de lesa-adepto que foi a exclusão de Leroy Sané. Além dessas quatro, só a França, muito pela força disponível no ataque, merece o rótulo de candidata efetiva.

Portugal – já lá vamos – surge no grupo seguinte, o que não é mau, acompanhado de Inglaterra, Bélgica, Croácia e Uruguai. São os que correm por fora, num lote de dez equipas melhores que as demais, no pleno teórico. Nenhuma tem a fiabilidade coletiva das colocadas na primeira linha mas qualquer delas pode crescer com a prova sem que se lhes possa colocar limite, até por terem desses craques indiscutíveis, dos que podem mudar a história de um jogo, quiçá de vários: Cristiano Ronaldo e Bernardo Silva como Sterling e Harry Kane, De Bruyne e Hazard, Modric e Rakitic, Suarez e Cavani. Há outras seleções de qualidade mas em relação às quais parece mais fácil antever um tecto, algures entre os oitavos e os quartos de final, sejam a Dinamarca ou a Suiça, o México ou a Suécia, a Polónia ou a Colômbia. E a Rússia também, essencialmente por jogar em casa. Nas demais, tenho expectativa para ver se é desta que a Sérvia apresenta finalmente um coletivo que lhes agrupe os inúmeros talentos disponíveis (das excelentes gerações jovens que tem produzido), se o Senegal e Marrocos se confirmam como as melhores equipas de África no momento (e não apenas as que têm melhores jogadores), se a Nigéria se supera agora que lhe falta uma verdadeira vedeta, se Carlos Queiroz faz do Irão renovado um conjunto capaz de surpreender, se o Peru pode ser mais que o regresso nostálgico das suas camisolas listadas.

Quanto a Portugal, tem para resolver uma espécie de dilema tático, seja pelo perfil dos adversários ou por características próprias. Ao contrário do Europeu, em que os opositores da primeira fase surgiam com ordem de grandeza idêntica (Islândia, Áustria, Hungria), aparece agora um colosso a abrir (a Espanha, como a Alemanha em 2014) seguido de rivais tidos (perigosamente) como acessíveis. Ou seja, se o primeiro jogo tende a forçar um jogo em que o processo defensivo será particularmente testado – sublinho processo defensivo, não defesa, que defender compete a todos – nos outros dois que o calendário já garante é forçoso que haja mais iniciativa, mais risco (mesmo admitindo um resultado positivo ante a Espanha). Em resumo, é preciso respeitar o modelo de jogo mas encontrar estratégias bem diversas. Depois, o perfil dos convocados de Fernando Santos reforça outra dúvida: sabendo-se que treinador de Portugal pretende, sobretudo em provas curtas como estas, começar por garantir segurança defensiva, é ineludível que a força aumentada desta equipa (mesmo em relação ao Europeu) está na multiplicação de soluções de ataque. Isto é, uma equipa que agora tem tanta gente capaz de criar, improvisar, alterar ritmos, inventar soluções - Ronaldo e Guedes, Bernardo e Bruno Fernandes, mais André Silva, João Mário, Gelson e Quaresma – só poderá pensar em jogar mais tempo no meio campo contrário, em assumir o controlo. No Euro, o melhor ataque foi a defesa, agora os jogadores quase reclamam uma inversão dessa lógica e dar corda à velha máxima de a melhor defesa é o ataque. Num compromisso entre ambos estará porventura o caminho certo. Cabe a Fernando Santos e aos que o acompanham juntar o melhor de dois mundos. E é do mundo que se trata agora, conquistada que foi a Europa.

Carlos Daniel é jornalista na RTP e escreve no Bancada.

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