Opinião
A liderança de Sérgio Conceição
Manuel Fernandes Silva
2018-01-10 14:00:00

Raramente o meio da viagem permite perceber como será o final, mas no início era difícil imaginar que o FC Porto pudesse fazer uma primeira volta quase sem mácula, com apenas três empates e nove golos sofridos. É verdade que a diferença para o Sporting é de apenas dois pontos, mas nesta altura Sérgio Conceição já demonstrou que no FC Porto, nas últimas épocas, ninguém soube gerir melhor os recursos.

Foi quase como se o técnico portista tivesse começado a temporada a montar um puzzle sem ter as peças todas e tentando acomodar algumas que pareciam nem sequer encaixar umas nas outras. Só que as peças foram mudando de forma e várias tornaram-se fundamentais, quando pareciam ser perfeitamente dispensáveis.

Não é esse o caso de Brahimi, mas é bom lembrar que há pouco mais de um ano o argelino estava a dar os primeiros passos como titular na equipa portista, depois de alguns meses em que foi praticamente ignorado por Nuno Espírito Santo (até dezembro de 2016, Brahimi apenas tinha sido titular num jogo do campeonato e num encontro da Taça da Liga).

Sérgio Conceição percebeu cedo que a pegada portista no mercado iria ser demasiado leve para fazer a diferença, por isso colocou Brahimi no âmago do futebol que pensou para a equipa, fazendo dele o principal combustível para os dois motores do ataque azul e branco: Marega e Aboubakar, dois “proscritos” do exercício anterior.

Brahimi assume a condução do jogo ofensivo de uma forma quase épica, desenhando caminhos para a baliza das alas para o meio e de trás para a frente, como se fosse um limpa pára brisas atacante, cada vez mais comprometido com a ação colectiva, mas sem perder o virtuosismo e a genialidade que o tornaram no jogador mais valioso da primeira volta do campeonato (com Jonas e Bas Dost a surgirem logo a seguir).

Aboubakar só precisou de perceber que era o “9” do novo treinador para sacudir os desejos de saída e responder com golos e os melhores desempenhos de sempre no Dragão. O “ponta de lança” camaronês tem hoje uma influência no jogar do FC Porto que ultrapassa a “simples” finalização. Ao contrário da primeira passagem pelo futebol português, Aboubakar consegue agora pisar outras zonas do ataque, demonstrando capacidades ao nível da construção ofensiva e do passe.

Ao contrário do parceiro de ataque, Marega nunca disse que queria sair, mas talvez nem sequer acreditasse que iria ficar. O avançado do Mali passou rapidamente da sombra de Tiquinho Soares para o topo da pirâmide portista. É mais ou menos seguro dizer que Marega nunca será um avançado de topo mundial, mas também é legítimo afirmar que poucos se entregam tanto ao jogo. E nem sequer alguma falta de fiabilidade na hora de atirar à baliza fez abanar a confiança do técnico e dos adeptos.

A análise mais simplista pode levar-nos à conclusão de que Sérgio Conceição está a ter a felicidade de encontrar o trio africano na melhor fase das carreiras, mas o exercício a fazer é quase o inverso: o treinador do FC Porto teve antes o mérito de conseguir potenciar todas as qualidades destes jogadores (até as mais escondidas), começando por uma atribuição de confiança que se tornou na pedra angular de tudo o resto.

Para além da recuperação do trio africano, vale a pena destacar que Sérgio Conceição não tem olhado para a data do final dos vínculos na hora de escolher os centrais, mantendo uma gestão baseada apenas no mérito desportivo. Mesmo assim, um dos dois jogadores do setor em fim de contrato (Marcano e Reyes) teria sempre de jogar, por falta de outras opções no plantel. Em sentido contrário está a saída de Casillas das primeiras opções nos jogos do campeonato e da Liga dos Campeões. Apesar do bom desempenho de José Sá na maior parte dos encontros, faltou uma explicação desportiva convincente para a passagem a suplente do guarda-redes espanhol, num momento em que as exibições indicavam que continuava a justificar a titularidade.

No discurso, Sérgio Conceição já demonstrou ser um espírito independente, mas o facto de não estar comprometido com a política de comunicação do clube não o libertou totalmente de excessos. O mais evidente foi a recente (e exagerada) comparação de Rui Vitória a um boneco que se deixa comandar.

Por agora, Jorge Jesus e Sérgio Conceição têm estado em quase total sintonia nas opiniões, mas é provável que os vários duelos que se avizinham levem a mudanças profundas a este nível. Afinal de contas, aquilo que os une (a vontade de conquistar títulos) é também aquilo que os vai separar. Inevitavelmente.

Manuel Fernandes Silva é jornalista na RTP e escreve no Bancada às quartas-feiras

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