Opinião
A guerra das palavras e o que se fala com a bola nos pés
Fernando Gamito
2018-01-11 14:00:00

Terminada a primeira volta do campeonato, é tempo de falar sobre o que mudou nos clubes do principal escalão desde o início da época. O evidente destaque da segunda metade de 2017 tem que ser atribuído ao efeito Sérgio Conceição no FC Porto, à estabilidade do terceiro ano de Jorge Jesus no Sporting e à incerteza que Rui Vitória tem vindo a deixar no comando do Benfica. As palavras fora do campo têm sido, curiosamente, o tema em foco desta temporada, com uma guerra comunicacional que não tem feito bem ao futebol português. O problema é que só tem tendência a piorar… mas, falemos do que acontece dentro das quatro linhas.

Primeiro, quem vai na frente. Sérgio Conceição tem mérito. E que mérito. Não é caso para dizer que a estadia no Dragão esteja a ser um conto de fadas, mas quem veja de forma abrangente o percurso dos azuis e brancos nesta época percebe o que digo. A primeira vitória de Conceição dá pelo nome de Aboubakar... sim, esse mesmo, o principal artilheiro do emblema da cidade Invicta. ‘Exilado’ para a Turquia na temporada passada, parecia uma certeza de que não mais se iriam cruzar os destinos do avançado camaronês e do FC Porto. Porém, alguém (vocês sabem de quem se fala…) interviu e recuperou o exímio finalizador. E que jeito tem dado ‘Abou’... com os 25 golos em 28 jogos que soma.

Mas, não vamos mudar já de assunto. Mantemo-nos no ataque do FC Porto. Aí há também que olhar para um tal de Marega. Há seis meses, quem diria que o maliano seria uma das principais figuras da equipa que lidera a Primeira Liga? De facto, já era sabido que existia qualidade em certas características futebolísticas de Marega, como a velocidade, a compostura e o poderio físico, mas são poucos aqueles que podem dizer que esperavam aquilo que ele tem estado a protagonizar. Aliado a um imprevisível Marega, tem estado um Brahimi que decidiu pôr de parte os 'meiinhos' com ele próprio, a rodopiar e fintar sem consequências, e tornou-se naquele que todos sabiam que era.

Na liderança do campeonato, o primeiro percalço (vêm aí mais desses, Sérgio?) de realce assinalável teve lugar no domingo, após o triunfo sobre o Vitória de Guimarães. O técnico do FC Porto decidiu incendiar ainda mais o futebol português, ao chamar “boneco” a Rui Vitória. Porém, o facto de na quarta-feira ter voltado um pouco atrás nas críticas ao treinador do Benfica ficou ainda pior para a imagem de Conceição. Já que colocou a boca a falar, o mais certo a fazer teria sido manter a postura e confiar nas palavras que disse, ainda que seja ou não verdade.

Em Alvalade, mora alguém que esta temporada tem sabido escolher, de forma acertada, as suas batalhas e a pouco e pouco tem trilhado caminho rumo ao objetivo do título… o que se não acontecer ao terceiro será sinal de ‘fracasso’ de projeto. Jesus tem estado mais contido do que em temporadas anteriores e a palavra exata para descrever isso é “inteligência”. Dentro de campo, o ‘achado’ de Bruno Fernandes tem sido ouro para os leões e a acutilância de Battaglia tem conseguido disfarçar a saída daquele que vinha a ser o jogador mais importante da equipa… Adrien Silva. A gestão física de Fábio Coentrão e Mathieu tem sido cuidada a pinça e tem resultado. Agradece o Sporting, agradece Jesus e agradecem os adeptos do clube, pois a estabilidade defensiva tem sido fulcral. Lá na frente, Bas Dost é aquilo que se sabe… golos, golos e golos. Gelson desequilibra, mas Jesus tem razão quando diz que necessita de um jogador para fazer par com Dost no ataque. Podence ainda não tem a capacidade para o fazer de forma regular e consistente e com a disputa do campeonato, de ambas as taças internas e da Liga Europa, essa é uma posição a reforçar.

Na Luz, a incerteza. Tudo isto porque o Benfica está fora das competições europeias (zero pontos, sim zero, na fase de grupos da Champions), das taças internas, mas, ainda assim, consegue sobreviver na luta pelo título e os cinco pontos de atraso para o FC Porto parecem ser um mal menor numa época que tem sido invulgar para os encarnados. Rui Vitória tem sido o principal recipiente das críticas do universo benfiquista e muito disso se deve ao facto de ter ‘esgotado’ a fórmula tática que tão bem serviu as águias nos últimos anos. O 4x4x2 não mais se conseguiu suster, principalmente pela quebra de rendimento de Pizzi, e o meio-campo teve que ser povoado. Para isso, um jogador tem tido papel fundamental. Krovinovic entrou no onze encarnado e não mais saiu, deu maior consistência, mas também maior capacidade de chegada à área ao Benfica. Um pormenor salta à vista no croata… o facto de não ter ‘medo’ de se mostrar ao jogo, de se dar a conhecer à bola e fazer a devida circulação. Tudo (ou melhor, todos…) apontavam que Jonas não conseguiria sobreviver sozinho no ataque encarnado, sem alguém para ‘combater’ com os centrais contrários, mas o que perde em capacidade de presença na área tem dado em golos e esses parecem não parar de chegar.

Há ainda lugar para umas notas soltas. O Rio Ave, de Miguel Cardoso, merece claro destaque pela campanha realizada na primeira metade da temporada, ainda que a eliminação da Taça de Portugal seja um percalço. A saída de Rúben Ribeiro e a eventual ida de Marcelo poderão abanar a equipa, mas os vilacondenses têm soluções para tal. Na frente, existe Barreto e, agora, Gelson Dala, enquanto que Nélson Monte será, sem dúvida, o futuro patrão da defesa. O trabalho de Abel Ferreira em Braga também não pode passar em claro. E quando falamos nos bracarenses, é necessário olhar para a qualidade que aquele plantel tem… valores de presente e de futuro, prova disso mesmo é o facto de estarem somente a três pontos do pódio do campeonato. O percurso do GD Chaves é algo que não seria difícil de adivinhar para quem conhece o trabalho de Luís Castro, ao passo que Portimonense, Boavista e CD Tondela têm sido agradáveis surpresas.

Uns furos abaixo do esperado têm estado o Vitória de Guimarães (depois da campanha da época passada, esta deveria ser o cimentar de presença nas competições europeias) e o Aves (este caso é percetível se olharmos para o investimento levado a cabo pelo clube primodivisionário). Terminadas as primeiras 17 jornadas, faltam as restantes 17 para chegar ao fim mais um campeonato, que está imprevisível no que diz respeito ao vencedor. As comunicações dos clubes podem falar, as estatísticas e dados podem falar, mas as palavras com a bola nos pés são aquelas que mais contam.

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