Visto da Bancada
Tiago Fernandes (N.º 300)
Diogo Cardoso Oliveira
2018-10-01 12:30:00
Nem a aleatoriedade do futebol consegue superar a elevada sabedoria e a boa intuição de um pai.

Para a edição 300 do "Visto da Bancada" - que belo número -, falámos com o ator Tiago Fernandes. Temos uma história que prova que nem a aleatoriedade do futebol consegue superar a elevada sabedoria e a boa intuição de um pai. Um pai que deixou pasmado e admirado um jovem sportinguista. 

Tudo se passou num Sporting-Arouca, a 23 de agosto de 2014. Um jogo que o Sporting venceu, já nos últimos minutos, depois de Nani ter falhado um penálti. Já agora, ainda se lembra dos onzes desse jogo, escolhidos por Marco Silva e Pedro Emanuel? Nós ajudamos.

Sporting: Patrício; Esgaio, Maurício, Sarr, Jefferson; Rosell, André Martins, Adrien; Nani, Carrillo e Montero.
Arouca: Goicoechea; Balliu, Diego Galo, Miguel Oliveira, Nelsinho; Bruno Amaro, David Simão, Artur; Pintassilgo, Nildo Petrolina e André Claro.

Vamos lá à historinha.

"Foi o primeiro jogo a que levei o meu filho mais velho, o Vicente. Na altura, o Manuel, o mais novo, ainda não tinha nascido. Aliás, só esta época é que o poderemos levar ao estádio e já está prometido irmos os quatro (eu, a Joana e os nossos dois filhos, Vicente e Manuel). 

Nesse jogo, levámos o Vicente, na altura com três anos, ao seu primeiro jogo num estádio. Primeiro jogo da época em Alvalade contra um adversário teoricamente acessível, o Arouca. Apesar dos seus três anos, o Vicente ficou muito entusiasmado durante o tempo todo: vibrava com os cânticos, com o campo, a bola, os jogadores, os gelados e pipocas à venda. Tudo! Faltava, no entanto, uma coisa: o Sporting estava empatado. Não havia redes a bailar e era suposto irmos ver golos! Aos 80 minutos, com receio da multidão à saída, fomos andando para o carro. 

O nosso filho perguntava pelos golos. Do alto da minha “sabedoria e serenidade de pai”, respondia-lhe que era mesmo assim. Ainda não tinha havido golo do Sporting, mas que iam esperar que chegássemos ao carro e ligássemos o relato para marcar connosco a ouvir. Já no parque de estacionamento, o segurança (talvez adepto de outro clube) disse ao pequenote, sorrindo: “então vieste ver o Sporting com o pai e a mãe e o Sporting não ganha o jogo”? Ele olhou sem dizer nada e eu “expliquei” ao segurança que já tinha dito ao Vicente que era mesmo assim. Era questão de agora chegarmos ao carro e ligar o rádio, que ouviríamos o golo do Sporting no relato. 
Entrámos no carro, sintonizei o relato e, nem 30 segundos depois, o Sporting marca golo. O do triunfo. O Vicente olhou para mim de olhos brilhantes e disse: “Foi golo do sporting! Tu tinhas razão!!! Como é que sabias?”. E ainda hoje guardo aquele olhar de admiração!

Também ainda hoje devo esse agradecimento ao Sporting e ao Carlos Mané... é que não só ganharam o jogo no último minuto como contribuíram para aquele momento de cumplicidade e magia. Para aquele olhar brilhante. Os pais não sabem tudo. Mas há coisas que intuem! E, naquele dia, a vitória tinha de ser nossa. Ser do Sporting não é bem sofrer... é saber acreditar! E isto, digo eu, é a essência de muita coisa na vida.

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