Visto da Bancada
Rui Duarte (Nº243)
João Pedro Cordeiro
2018-03-08 14:40:00
Rui Duarte, treinador do Farense, recorda o dia em que um rapaz do seu bairro se sagrou campeão do Mundo.

Quando Eder, em Paris, em julho de 2016, rematou para o fundo da baliza de Lloris e ofereceu a Portugal um inédito título europeu, o avançado escreveu mais uma das páginas gloriosas do futebol de seleções em Portugal. Uma história que começou a ser escrita em 1966 por Eusébio e companhia por Inglaterra, e que até 2016 teve o seu expoente máximo nas conquistas dos títulos mundiais sub-20 em Riade e Lisboa. No Estádio da Luz, em 1991, ano em que Portugal se sagrou bi campeão mundial de sub-20, estava Rui Duarte. Já foi há algum tempo e Rui tinha 12 anos. Há coisas, porém, que nunca se esquecem. Mesmo que Rui, como nos diz, não seja um grande contador de histórias e os jogos mais memoráveis que enfrentou na vida, fê-lo como jogador. 

Esta história não tem algo de caricato ou fora do normal. Não. Esta é a história de um momento que nunca será apagado do futebol português. A história do dia em que Rui Costa colocou a bola ao ângulo da baliza Sul do repleto Estádio da Luz para derrotar o Brasil, o poderoso Brasil, e dar à seleção portuguesa o segundo titulo mundial Sub-20. Rui Duarte, hoje treinador do Farense, esteve lá, com o pai, e apesar da tenra idade há coisas que nunca se esquecem. “O antigo Estádio da Luz estava completamente a abarrotar. Estavam cento e quarenta mil pessoas e aquilo até “só” tinha capacidade para cento e vinte mil. Não havia espaço, sequer, para as pessoas se sentarem. Lembro-me que o Rui Costa meteu a bola no ângulo. Estava com o meu pai. Estávamos os dois. Nós nem tínhamos lugar, estávamos sentados numa das escadas de acesso à bancada. Não havia espaço para alguém estar sentado. No próprio estádio para alguém transitar e andar de um lado para o outro, ninguém conseguia circular”, recorda-nos o antigo médio ofensivo de Belenenses, Naval, Leixões, Estrela da Amadora e, claro, Olhanense e Farense onde acabou por terminar a carreira e assumir as funções de treinador dos algarvios de Faro depois de uma passagem pelo banco como treinador adjunto. 

“Quando chegámos ao estádio já não nos conseguimos sentar na bancada, teve de ser nas escadas. Estava sentado atrás da baliza Norte e o Rui Costa bateu o penálti lá ao fundo na outra baliza, na baliza Sul. Não cabia mais ninguém. Lembro-me também que vinha um barulho ensurdecedor das bancadas com o pessoal a bater com os pés”, algo que, como nos recorda Rui Duarte, era hábito nos encontros disputados no Estádio da Luz. 

Apesar de não ter sido utilizado na final do Campeonato do Mundo Sub-20 perante o Brasil, na ficha de jogo de Portugal e da equipa de Carlos Queiróz estava João Oliveira Pinto e, só isso, foi um motivo de orgulho para Rui Duarte e para que sentisse o título mundial de Portugal de uma forma muito especial. Ou não fosse o antigo júnior do Sporting um conterrâneo de Rui Duarte. Natural de São Jorge de Arroios, bem perto do Castelo de São Jorge. “Foi um jogo que tinha uma pessoa do meu bairro, o João Oliveira Pinto. Tive um certo orgulho nisso. Não só pela nação, que no caso até era a segunda vez já que tínhamos sido campeões na edição anterior, mas também por ele por ter sido um dos campeões do Mundo. Lembro-me perfeitamente que era uma das referências da formação do Sporting, e em Portugal, um dos expoentes máximos. Era um dos poucos jogadores que tinha contrato profissional no Sporting, lembro-me perfeitamente disso. Para mim, por eu ser do Castelo, e ele também, foi algo que me marcou. É uma pessoa que conheço bastante bem”. 

No final, Portugal acabou por levantar a Taça num jogo que acabou decidido nas grandes penalidades depois do nulo inicial se ter alongado até ao apito final, prolongamento incluído. Portugal fazia história mais uma vez. Sentado na bancada de uma Luz a abarrotar, Rui Duarte, foi um dos cento e muitos mil que o festejaram.

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