Visto da Bancada
Paulo Almeida (nº 287)
Redação Bancada
2018-06-02 12:30:00
Os colegas chamam-lhe o "psicopata fofinho" do humor nacional, mas hoje falou muito a sério sobre um das suas paixões

Eu sou do Benfica desde que nasci.

E o culpado disso é o meu pai. Ele começou a transmitir-me esta paixão quando me sentava ao seu colo para assistir aos jogos pela televisão e depois mais tarde, quando me começou a levar ao Estádio.

Há uns anos atrás, o meu pai contou-me que eu devia ter uns 6 anos da primeira vez que ele me levou ao antigo Estádio da Luz, e nesse dia os meus olhos brilharam como ele nunca tinha visto antes. Um estádio grandioso, uma multidão vestida de vermelho. Milhares de pessoas a gritarem o nome do Benfica a uma só voz. Eu estava maravilhado com aquele espetáculo. Quando estávamos prestes a entrar, o meu pai puxou-me pelo braço e disse-me, “estás a ver aquele senhor que ali vai? É o Eusébio. O melhor jogador que eu alguma vez vi jogar. É o maior símbolo do Benfica. Um dia vão-lhe fazer uma estátua!” Ele diz que eu me comecei a rir e que lhe puxei o braço para entrar para dentro do Estádio.

Essa foi a primeira vez que eu ouvi falar do Eusébio.

Desse dia em diante, ouvi o seu nome milhares de vezes. Na sua maioria, quando o assunto era o Benfica. Outras vezes quando se falava de Portugal. De todas essas vezes, não me lembro de ter ouvido uma única palavra negativa a seu respeito. Sempre que o seu nome era mencionado, era sinal de admiração, de orgulho, de raça, de paixão. E se não fosse por mais nada, isso por si só, já seria de louvar. Mas havia mais, muito mais. Havia um talento raro para o futebol. Um dos maiores talentos de todos os tempos. E eu infelizmente não tive a sorte de o ver jogar.

O Eusébio levou o nome do Benfica além-fronteiras. Fez-nos crescer no mundo. O mesmo mundo que torceu pela nossa seleção em 1966 por causa daquilo que ele fez por nós.

Há quem lhe chame “King”, há quem lhe chame “Pantera Negra”. Para mim irá ser sempre aquele senhor que o meu pai um dia disse que era o melhor do mundo e que um dia iria ter uma estátua. A mesma estátua que ficou coberta de cachecóis de todos os clubes numa última e sentida homenagem aquele grande jogador.

Por isso, quando entrei no Estádio da Luz no dia 12 de Janeiro de 2014, naquele Benfica-Porto em que todos os jogadores do Benfica entraram em campo com o nome do Eusébio nas suas camisolas, fi-lo de mão dada com o meu pai, tal como o havia feito quando eu tinha 6 anos. E já na bancada, quando se fez o minuto de silêncio antes do jogo começar, abraçámo-nos e chorámos em conjunto com os milhares de adeptos que o estavam a fazer naquele momento.

Ganhámos o jogo mas isso nem sequer foi o mais importante desse dia.

O mais importante foi aquele abraço que o meu pai me deu na bancada enquanto me dizia que o Eusébio nunca iria morrer, porque é isso que acontece aos génios: tornam-se imortais.

Paulo Almeida é stand-up comedian, humorista, guionista e tem uma das páginas de facebook com mais haters da internet.

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