Visto da Bancada
Lula Pinto (nº 174)
Eduardo Botelho
2017-12-06 12:30:00
A partir do banco de suplentes do Atlético, Lula viu a sua equipa eliminar o FC Porto da Taça de Portugal

“Foi o jogo mais emocionante que presenciei na minha vida”, conta-nos Lula Pinto sobre o dia em que, sentado no banco de suplentes do Atlético, viu o seu colega e amigo David derrubar um Golias chamado FC Porto. Apesar de garantir, entre risos, que “até hoje ele não sabe como chutou a bola”, a verdade é que aquele dia de janeiro de 2007 foi o mais especial na carreira de Lula, avançado brasileiro que fez quase toda a carreira em Portugal, passando por clubes como Estoril-Praia, Amora FC, Santa Clara e Atlético, claro.

O sorteio da quarta eliminatória da Taça ditou que o Atlético, então na segunda divisão B, tivesse de visitar o Estádio do Dragão, onde morava o campeão em título e líder isolado da Primeira Liga. Lula lembra que a equipa saiu de Lisboa de autocarro no próprio dia. “Parámos a meio do caminho só para lanchar e chegámos lá e a maioria dos jogadores estava com fome. Lembro-me de tudo, foi tudo muito engraçado. Foi uma experiência única. O treinador, o Toni, deu uma palestra de 20 minutos só enaltecendo o FC Porto. ‘Estamos no Dragão, vamos jogar contra a melhor equipa de Portugal...’ até que houve uma hora em que eu falei ‘espere aí, Mister, eles podem ser isso tudo, mas nós temos uma hipótese. Se é meio por cento, vamos agarrar essa hipótese’. E os restantes jogadores disseram ‘é isso aí, Lula!’”, lembra o jogador. “O nosso próprio treinador não acreditava na gente. Naquela altura, o FC Porto estava papando todo o mundo e o nosso próprio treinador armou a equipa para a gente não tomar mais de três”, recorda.

Talvez Lula estivesse já a antever a vitória ou talvez estivesse apenas a tentar motivar-se a si e à sua equipa, mas o que nunca poderia prever era a forma como tudo aconteceria, a começar pelo golo do Atlético, marcado por David da Costa, num lance confuso e com o avançado já deitado no chão. “Até hoje ele não sabe como é que chutou a bola. Foi uma perda de bola do Ibson, o nosso jogador, o Gaio, tomou a bola e o David, numa confusão com o Vítor Baía e outros jogadores, arriscou, pôs o pé, bateu na bola, a bola entrou e até hoje ele não sabe como é que a bola entrou. Só viu a bola entrar pelas imagens na televisão”, conta Lula que foi capa de jornal no dia seguinte. “A primeira página do jornal ‘A Bola’ dizia ‘David tombou Golias’ e estou eu e o meu amigo no meio do campo abraçados, de joelhos.”

Com o golo de David, aos 59 minutos de jogo, o Atlético ainda tinha muito sofrimento pela frente. “O treinador do FC Porto acho que era o Jesualdo e colocou mais avançados, mais avançados, foi uma pressão...” recorda Lula, provavelmente lembrando-se da entrada de Lisandro López ao intervalo, ainda com 0-0, e depois de Alan e Adriano já com os dragões em desvantagem. O Atlético resistiu, resistiu, resistiu e o ponto mais alto do sofrimento chegou já em cima do minuto 90, quando o árbitro assinalou penálti para o FC Porto. “Foi o jogo mais emocionante que presenciei na minha vida, foi muito forte, porque estávamos a ganhar 1-0 e no finalzinho foi penálti contra o Atlético. O Quaresma perdeu o penálti, foi ao poste, e foi uma explosão de alegria. Foi interessante que quando foi o penálti eu falei ‘pode ficar tranquilo que há uma história na Bíblia em que David derrota Golias, gigante que David derruba não se levanta mais’. Foi na  hora em que ele perdeu o penálti”.

A vitória daquele dia marcou as carreiras de todos os jogadores do Atlético que até hoje têm um jantar anual em que se reúnem por causa do jogo, mas foi especialmente importante para David. “Ele praticamente ficou rico por causa daquele golo, porque depois foi para o Chipre. Um cara que eu praticamente dava comer para ele e ficou bem na vida só por causa daquele golo”, explica Lula, satisfeito pelo sucesso do colega.

O regresso a Lisboa, a seguir ao jogo, foi também feito de autocarro e com direito a paragem na Mealhada. “Foi o melhor leitão que comi na minha vida, nunca comi um leitão tão bom! O picante… aquela coisa crocante da pele do leitão… a batata!”, conta-nos Lula, degustando as memórias daquele dia. Há vitórias que, de facto, têm um sabor especial.

FC Porto-Atlético, 0-1

Golo: David da Costa

FC Porto: Vítor Baía, Fucile, Ricardo Costa, João Paulo, Marek Cech, Paulo Assunção, Raúl Meireles, Ibson, Quaresma, Vieirinha e Bruno Moraes

Treinador: Jesualdo Ferreira

Atlético: Marco Gomes, Nuno Rolão, Ricardo Aires, Rui Júnior, Pedro Pereira, Edmar Silva, Marco Bicho, Simões, Lapinha, Nuno Gaio, David da Costa

Treinador: António Pereira

Data: 7 de janeiro de 2007

Local: Estádio do Dragão

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