Grande Futebol
Vecino: tramar Portugal com escolinha e tragédia
Mauro
2018-06-29 16:00:00
Se tivesse aceitado o convite de Conte, não jogaria contra Portugal.

Ontem, contámos-lhe a história de Lucas Torreira e, hoje, cá vai Matías Vecino. Serão, em princípio, os dois resposáveis por destruir tudo aquilo que Portugal criar e, por extensão, serão duas das peças-chave para derrotar a seleção portuguesa. Vecino é um craque que, antes de o ser, viveu uma tragédia. E soube o que fazer com a escola, apesar de não saber festejar golos. Coisas a ler mais à frente, tal como uma história com italianos.

Matías Vecino joga no Inter – apesar de ser mais defensivo, “roubou” alguns minutos a João Mário – e é uma das peças-chave da equipa italiana, já depois de duas temporadas como titularíssimo na Fiorentina. Por lá, no país da bota, gostam mesmo deste rapaz. A talhe de foice, podemos dizer que gostam tanto dele que até tentaram que ele fosse italiano. Antonio Conte, como selecionador de Itália, tentou convencer Vecino a jogar pela squadra azzurra, mas Vecino, uruguaio de gema, recusou, dizendo que preferia esperar para poder jogar pelo seu país. E fez bem. Se estivesse com os italianos, estaria a ver este Mundial... no sofá.

É que Vecino nasceu em San Jacinto, no sul do Uruguai – não muito longe de Montevideu –, há 26 anos. Por lá, a vida não foi fácil. Todos os dias fazia 100 quilómetros para ir treinar. Até aqui, tudo bem. Afinal, quem corre por gosto… “Havia dias em que eu lhe perguntava se, com aquela chuva, ele queria ir treinar. Ele ia, voltava e dava-me as botas brancas para eu lavar para o dia seguinte. Foram as únicas botas que ele teve durante muitos anos, porque lhe relembravam o quão longe ele tinha andado para chegar até ali”, recorda a mãe do jogador, ao “Guardian”.

Nada de deixar a escolinha

Vecino tem sido, até agora, um jogador exemplar. Discreto, humilde e… estudioso. Já como jogador profissional, o uruguaio continuou os estudos e quer acabá-los, tal como garante a mãe do jogador, ao “Canal 10”. Aliás, isto já vem da juventude, dado que a mãe garante que nunca o deixava ir treinar sem fazer os trabalhos de casa.

Depois destes primeiros anos de futebol, vieram as trevas. Na mão direita, Vecino tem tatuada a assinatura do pai, que faleceu num violento acidente de automóvel. Mario Vecino, também ele um ex-futebolista (jogou no Liverpool de Montevideo), foi homenageado dando nome ao estádio de San Jacinto. Deixou cá a mulher – que se desdobrava em três empregos para sustentar a família – e três filhos. Um deles, o ainda jovem Matías, tinha jeito para a bola e, segundo recorda a mãe do jogador, Mario Vecino, quando levava Matías para jogar, dizia-lhe “não quero que ganhes, só quero que aprendas”. Pelo visto, aprendeu mesmo.

Vecino é, hoje, um dos médios mais inteligentes do futebol mundial, conjugando cultura tática e posicional - e um tamanho considerável - com uns pezinhos extraordinários, que lhe permitem acrescentar qualidade na construção, na circulação e até na definição de jogadas, com assistências, no último terço. É ainda, um jogador com muita capacidade de romper em condução, surgindo em zonas de definição. Golos é que não é com ele. Nem sequer é essa a função de Vecino, mas reza a história que, um dia, este rapaz fez um golo e não sabia como festejar, por ser algo tão raro. Marcou um golo que deu a vitória da seleção sub-20 uruguaia frente à Argentina, algo que deu os Jogos Olímpicos aos uruguaios, depois de 84 anos. “Quando fiz o golo, nem sabia como festejar”.

Curiosamente, no Central Español, Vecino até começou por jogar mais à frente do que joga agora. “Nos primeiros jogos, pu-lo numa função mais ofensiva, para o libertar de responsabilidades”, explicou um ex-treinador, acrescentando: “Com o avançar dos jogos, ele começou a integrar-se nas táticas e ganhou o lugar na equipa”.

Depois de se destacar num sudamericano sub-20, Vecino saltou para o Nacional e, poucos meses depois, para Itália. A Fiorentina “pescou-o” e colocou-o a rodar no Cagliari e no Empoli. Foi neste último, com Maurizio Sarri no comando, que Vecino deu nas vistas, jogando como segundo médio. A Fiorentina, que não andava a dormir na formatura, foi buscá-lo de novo. A partir daqui, já conhecemos a história.

Lembra-se daquela parte de ele ter recusado a seleção italiana? Em 2016, lá chegou a oportunidade de jogar pelo Uruguai. Defrontou o Brasil e, desde aí, é um dos meninos de Tabárez.

A terminar, convém lembrar que, no final da última temporada, Vecino esteve na berlinda. O homem está talhado para estes momentos. Inter e Lazio jogaram um “winner takes it all” pelo apuramento para a Liga dos Campeões. Vecino, que nunca foi um goleador, foi, novamente, o herói. Um cabeceamento, aos 81 minutos, deu aos milaneses a possibilidade de jogarem a qualificação para a Champions. “Não marquei muitos golos na minha carreira, mas este foi o mais importante de todos”, disse o jogador.

Para o futuro, Vecino quer o céu nublado das ilhas britânicas. “O meu sonho sempre foi jogar em Inglaterra, mas não sei se vou estar aqui (Florença) até aos 30 ou 35 anos. Sempre gostei do Liverpool, mas isto não significa que vou para Inglaterra amanhã”, assumiu, ao “Corriere dello Sport”.