Grande Futebol
"Tive ataques de ansiedade, mas cá para fora diziam que era uma gastroentrite"
2018-05-20 11:00:00
Bojan Krkic revelou que quando recebeu a chamada de convocatória para o Euro'08 teve de dizer que não podia ir

"Quando fui convocado para me estrear pela seleção espanhola, frente à França, foi dito que não joguei porque tive uma gastroenterite quando, na verdade, sofria de ataques de ansiedade. Mas ninguém quis falar sobre isso. O mundo do futebol não está interessado." Palavras de Bojan Krkic, a antiga promessa do FC Barcelona que admitiu ter ficado doente devido às expectativas que foram criadas ao seu redor.

"Os ataques de ansiedade têm várias formas. Eu sentia tonturas e vontade de vomitar 24 horas por dia", explicou Bojan em entrevista ao jornal inglês "Guardian".

Bojan Krkic estreou-se pelo colossal FC Barcelona quando tinha apenas 17 anos, sendo o jogador mais novo de sempre da história do clube catalão a participar na liga espanhola. Foi por lá que conquistou duas ligas dos campeões, um campeonato do Mundo de clubes, uma supertaça europeia, três ligas espanholas, uma taça espanhola e duas supertaças de Espanha. Mais do que os troféus conquistados, Bojan era visto como sucessor de Messi, talvez pela sua baixa estatura física, mas sobretudo pela velocidade de execução e excelente relação com o golo.

Mas foi aqui que tudo descambou. "Tudo aconteceu de uma forma muita rápida", disse Bojan. "As coisas até me podiam estar a correr bem em termos do meu futebol, mas pessoalmente, nem por isso. Tive de viver com isso e  com o facto de as pessoas dizerem que a minha carreira não estava a corresponder às expectativas", desabafou o jogador que conta agora com 27 anos. "Claro, se me compararem com o Messi... mas que carreira estavam à espera? Para além de haver muitas coisas que as pessoas não fazem ideia", disse o atacante que esteve, esta temporada, ao serviço do Alavés, de Espanha, emprestado pelos ingleses do Stoke City.

E quais foram as coisas que as pessoas não faziam ideia?

"Eu não fui ao Campeonato da Europa [2008] devido a ataques de ansiedade, mas foi dito à comunicação social que eu ia de férias. Quando fui convocado para me estrear pela seleção espanhola, frente à França, foi dito que não joguei porque tive uma gastroenterite quando, na verdade, sofria de ataques de ansiedade. Mas ninguém quis falar sobre isso. O mundo do futebol não está interessado", lamentou o jogador, de origens sérvias.

A somar aos problemas médicos de que padecia Bojan surgiu o julgamento público. O miúdo estava doente, mas ninguém quis saber. Na rua criticavam-no por não querer representar a seleção espanhola. A mesma que viria a sagrar-se campeã da Europa nesse mesmo ano. O, então, capitão do FC Barcelona, Carles Puyol, apoiou Bojan, mas era tarde.

"Toda a gente na federação sabia do meu problema: Luis Aragonés [o treinador], Fernando Hierro [o diretor desportivo]. O Hierro enviava-me uma mensagem todas as semanas para saber como eu me sentia e um dia antes da convocatória, ligaram-me. 'Bojan nós vamos convocar-te.' Eu estava no carro a caminho do treino. Disse-lhes: 'Custa muito dizer isto, mas eu não posso ir.' Cheguei a Camp Nou e o Carles Puyol estava lá e disse-me: 'Bojan, eu vou estar do teu lado o tempo todo. Vou estar lá para ti.' Eu respondi: 'Não posso, ando a tomar medicação, estou no limite.' No outro dia vi o título na imprensa: "Espanha chama por Bojan e Bojan diz não."

Depois de mais de 12 anos ao serviço do FC Barcelona, quatro como profissional, Bojan decidiu partir para novas aventuras, talvez para poder desfrutar mais do futebol. "Teria sido fácil continuar no FC Barcelona e não jogar, mas eu precisava de sair", desabafou Bojan, que depois de sair da cidade condal jogou na AS Roma e no AC Milan, de Itália, no Ajax, da Holanda, no Stoke City de Inglaterra, no FSV Mainz, da Alemanha e no Alavés, de regresso a Espanha.

Bojan revela que os tempos mais complicados já fazem parte do passado, mas quando questionado sobre chegou a pensar em desistir de tudo, o jogador não rejeitou completamente que essa ideia lhe tenha ocorrido. "Eu adoro futebol e ninguém vai tirar isso de mim. Estou orgulhoso da minha carreira, orgulhoso de tudo o que vivi, e mesmo nos momentos mais complicados - como alguns que tive esta temporada - temos de ser fortes. Eu amo o futebol, ainda sou novo, desfruto e não tenho qualquer intenção de parar."

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