Grande Futebol
Sem água e sem luz, Talisca foi salvo pela música e pela capoeira
Mauro
2018-10-27 21:30:00
Na vida, Taslica acabou por escolher o caminho certo. Falta saber como será no futebol.

Talisca voltou a estar na berlinda. Foi vendido pelo Benfica e, agora, as opiniões dividem-se entre “eh pá, que bem vendido!” e “eh pá, o Benfica tinha de ter aproveitado este craque”. O certo é que Talisca já era. E ainda só tem 24 anos. A nova transferência, depois de 14 golos em 14 jogos, é mais um motivo de orgulho para Feira de Santana e para as gentes que viram o “Doda” crescer.

Anderson Taslica nasceu no Bairro do Aviário, no município de Feira de Santana, a cerca de 100 quilómetros de Salvador. Num bairro problemático, não tinha luz, água e passou fome, como o próprio chegou a assumir. “Era um garoto sem expectativa de vida e sem caminho traçado”, disse, à ESPN, uma das pessoas da Fundação de Apoio Menor da Feira de Santana (FAMS).

Foi lá que Talisca cresceu. E foi lá que se salvou das drogas. Um dia, para um torneio na Suíça, teria de ser escolhido um daqueles jovens rapazes. Teria de ter várias valências: ser bom de bola, ser bom na capoeira e saber trocar três instrumentos. Talisca tinha tudo isso e foi selecionado. Este foi um dos pontos altos de um rapaz que acabou por ir parar ao Astro, clube parceiro da FAMS e, mais tarde, ao Bahia. Foi lá que passou de “Doda” a “Talisca” [pedaço fino de madeira], pelas pernas longas e finas.

E a verdade é que Talisca salvou muitas crianças. Com a transferência de Talisca do Bahia para o Benfica, em 2014, o Astro amealhou 850 mil reais [cerca de 200 mil euros], o que permitiu voltarem a ter fundos para trabalhar pelas crianças desamparadas da Feira de Santana.

Com direito a música.

Veio o projeto “nascendo mil Taliscas” e, para o jogador, veio a seleção brasileira. Citamos a reportagem: “Feira de Santana parou. O Bairro do Aviário parou. Pararam pelo herói da vila, Anderson Talisca, que estava prestes a passear a camisola 11 da seleção do Brasil”.

Na vida, Taslica acabou por escolher o caminho certo, fintando as parcas probabilidades que o contexto tinha contra si. Resta saber se, no futebol, ficando na China, também escolheu o caminho certo.