Grande Futebol
Quem tem medo do lobo mau? Radrizzani não, seguramente
João Pedro Cordeiro
2018-03-13 15:55:00
Com Andrea Radrizzani à cabeça, o Championship uniu-se para derrotar o Wolves fora de campo e travar Jorge Mendes.

Quem tem medo do lobo mau? Andrea Radrizzani, dono do Leeds United, pode até nem ter medo do Wolves, mas que não gosta nada do que se está a passar no Championship, isso, não gosta. Nem Radrizzani nem vários outros responsáveis de clubes participantes na segunda liga inglesa. Tudo por culpa de Jorge Mendes e da ligação do super agente português ao Wolverhampton Wanderers que certos clubes do Championship acusam de concorrência desleal. Tanto, que foram vários os que se uniram e escreveram uma carta à Football League para entender a legalidade da ligação de Jorge Mendes com o clube de Wolverhampton.

Andrea Radrizzani já o tinha feito no Twitter e agora formalizou a questão. Através de uma carta escrita à Football League, o dono do Leeds United decidiu exigir uma investigação por parte da instituição que organiza todo o futebol secundário em Inglaterra ao Wolverhampton Wanderers de forma a entender a legalidade da ligação de Jorge Mendes ao clube inglês. Tudo porque o dono do Leeds, entre outros responsáveis de clubes do Championship, entende que a ligação do clube à agência de Jorge Mendes é ilegal e motivo de concorrência desleal. Acusam, os clubes do Championship, o Wolverhampton Wanderers, de terem acesso a jogadores de qualidade especial e pagarem pouco, abaixo dos valores de mercado, para os terem. Afinal, também uma subsidiária da Fosun, empresa chinesa que detém o Wolves, é acionista da Gestifute.

“Apenas quero entender as regras de forma a poder funcionar em função delas. Se é possível, quero poder fazer o mesmo já que se está a provar que é uma fórmula bem-sucedida. Se não for, farei como sempre até agora, o que também me deixa feliz”, explicou Andrea Radrizzani que já na sua conta Twitter, há alguns dias, havia desabafado. “Temos os nossos próprios problemas, mas devíamos jogar numa competição justa e leal. Não é legal, nem leal, permitir que uma equipa seja detida por um fundo que tem grande participação numa grande agência de jogadores e tem por isso benefícios na contratação de jogadores. Porque é que as restantes 23 equipas não podem ter o mesmo tipo de tratamento?”, questionou-se o italiano.

Radrizzani rejeita que tenha tornado público o seu descontentamento devido a questões de frustração e mau perder (o Wolves foi ao terreno do Leeds vencer por 3-0 há poucos dias) e, esta segunda feira, formalizou o mesmo através de uma carta enviada tanto à Football League, como a Federação Inglesa e à própria Premier League. “Não estou a travar uma guerra individual com quem quer que seja”, assegurou Radrizzani. “O Wolves está a jogar um grande futebol e são comandados por um grande treinador. Merecem estar na frente do campeonato independentemente do dinheiro ou investimento que tenham feito”, assumiu. “Esta é apenas uma oportunidade para que possa clarificar as regras e possa construir uma equipa tão bem-sucedida dentro de campo quanto o Wolverhampton”.

“Para o conseguir, talvez necessite cinco ou seis jogadores por empréstimo de grandes clubes europeus ou empresários. Preciso saber se isso é legal, pois gostava de fazer o mesmo”, afirmou Radrizzani à BBC, justificando ter escrito também à Premier League para que a questão esteja em concordância em ambas as competições e com ambas as organizações. “Se fizer algo que não está em sintonia com a Premier League vou estar a perder o meu tempo a construir algo bem-sucedido que depois tem de parar quando chegarmos à Premier League”, acrescentou ainda o italiano.

Radrizzani assegura que apenas quer jogar dentro das regras já que conhece vários agentes, inclusivamente, o próprio Jorge Mendes. Certo, é que as pretensões do italiano já foram apelidadas de “risíveis” por parte de Jeff Shi, presidente do Wolves, com o dirigente a dizer não entender o problema de Radrizzani já que chegou a almoçar várias vezes com o italiano e o próprio Jorge Mendes há uns tempos. “Talvez nem sequer necessite ter uma ligação especial com algum agente já que tenho excelentes relações com vários grandes clubes europeus. Apenas quero entender as regras, jogar com elas e qual a legalidade dos agentes em circunstâncias semelhantes”, acrescentou ainda Radrizzani à BBC que assegurou ter vendido a participação que detinha numa agência de jogadores italiana na altura em que comprou o Leeds por considerar que tal encetava um claro conflito de interesses. Dizem, as regras da Federação Inglesa, que “nenhum clube pode entrar em qualquer acordo que permita que uma outra parte, que não apenas esse clube, tenha influência nas políticas e desempenhos de qualquer equipa e jogador em qualquer competição que dispute”. Acreditam, porém, os clubes do Championship, que desde que a Fosun comprou o Wolves em 2016 que Jorge Mendes (amigo pessoal dos responsáveis pelo clube inglês) tem funcionado como conselheiro do clube e facilitado o ingresso de vários jogadores no mesmo. Algo que o Wolves desmente categoricamente.

Radrizzani diz não ter medo do Wolves, e apenas quer poder emular o sucesso da equipa de Wolverhampton, jogando dentro das regras. Não se arrepende dos tweets que fez, apesar de reconhecer tê-los feito, porventura, num timing errado que pode ter sido entendido como frustração ou mau perder. O dono do Leeds admitiu que mais do que o jogo com o Wolves, foi o encontro frente ao Middlesbrough que também terminou com a derrota do Leeds por 3-0 que o deixou verdadeiramente frustrado com a qualidade, ou falta dela, da equipa do Leeds. “Aproveitei a ocasião para recolher atenção para um assunto sobre o qual ninguém tinha prestado atenção até então. Infelizmente, desta vez consegui recolhê-la. Foi o timing errado pois pareceu que estava a tentar justificar uma derrota pesada com isso”, reconheceu o italiano.

A intervenção de Andrea Radrizzani surge dias depois do Mirror ter avançado que vários clubes do Championship exigiram à Football League que investigasse o histórico financeiro do clube de Wolverhampton. Tudo por considerarem que o dinheiro gasto pelo clube em determinados jogadores e ordenados não corresponde ao valor de mercado desses mesmos jogadores. Ou seja, o Wolves é beneficiado pela ligação que tem com Jorge Mendes, tendo acesso a jogadores de um nível médio acima do da competição, mas pagando pouco por esses mesmos jogadores. Sinais de influência de Jorge Mendes na equipa do Wolves e, acima de tudo, sinais de concorrência desleal. “Se o Wolves contratou jogadores como o Rúben Neves por quase vinte milhões de euros, deve ser pago como um jogador de quase vinte milhões de euros. É o mesmo para os jogadores que o Wolves contratou ao Atlético Madrid, Valência CF ou AS Mónaco. Nenhum desses jogadores chegaria barato ao clube. Alguma coisa não bate certo”, revelou uma fonte de clube do Championship ao Mirror.

Apesar de ir a caminho do título na segunda liga inglesa e ser considerada por muitos como a melhor equipa de sempre a ter participado no Championship, nem toda a gente parece encantada com o sucesso da equipa de Nuno Espírito Santo esta temporada. Se Rui Veloso cantou que o Mundo se uniu, no caso do Wolves, foi apenas o Championship que se uniu para os tramar. Quem tem medo do lobo mau? Radrizzani não é de certeza.

Sê o primeiro a comentar: