Grande Futebol
Para Alfaro, o comboio não passou duas vezes. Passou três
2018-12-22 23:00:00
Depois da derrota na final da Libertadores perante o grande rival, o Boca Juniors tem um novo treinador.

Poucos homens ao longo da história do futebol viram as portas de um clube grande abrir-se depois de falhar num outro. Muitos deles, precisaram dar um passo atrás para voltar a dar dois à frente e mais tarde na carreira, após o insucesso, voltar ao patamar de onde caíram. Veja-se o caso de Paulo Fonseca, por exemplo, que apesar de ter falhado no FC Porto, um regresso a Paços de Ferreira foi o passo chave para hoje ser um dos treinadores mais badalados do futebol europeu. Para Gustavo Alfaro, argentino de 56 anos, a partir de agora, é também este o cenário. Depois de uma passagem falhada pelo San Lorenzo - e até pelo Rosario Central -, foram precisos vários anos a reabilitar a carreira para, hoje, ser apresentado como o novo treinador do Boca Juniors.

Depois da derrota frente ao River Plate na final da Copa Libertadores, pouco restou ao Boca Juniors e a Guillermo Barros Schelotto do que anunciar o fim da ligação entre clube e treinador. A nega de José Pekerman ao clube de Buenos Aires abriu a porta à chegada de Gustavo Alfaro e depois da aposta na inexperiência e irreverência de Barros Schelotto, desta vez, a aposta é totalmente antagónica com o gigante de Buenos Aires a apostar na experiência e pragmatismo de Gustavo Alfaro, aos 56 anos, já uma velha raposa do futebol argentino e nem sempre reconhecido pelo futebol vistoso. Nada de anormal nisto. Afinal, o Boca, ao contrário do River Plate, tem na sua ideologia e filosofia o vencer, seja de que forma for. No sentido positivo da coisa, entenda-se. Vencer, mesmo que para isso seja preciso jogar feio.

“As razões e a necessidade de sair não são fáceis de explicar, ou talvez de aceitar. Todas as coisas na minha vida me custaram muito a alcançar, desde os meus inícios como jogador, como mais tarde na minha aventura enquanto treinador. Sempre foram encostas difíceis de trepar e longe de serem simples, nunca fugi dos grandes desafios. Nesta altura da minha carreira, cada vez mais perto do final, fui finalmente convidado para um projecto desportivo com o qual sempre sonhei”, explicou Alfaro na sua carta de despedida aos adeptos do Huracán, clube que deixa para assumir o Boca Juniors para desespero dos adeptos do Globo que já o apelidam de traidor.

“Sei que não é algo fácil de aceitar ou entender quando se analisa a questão do ponto de vista sentimental e da paixão e não da razão. Sei que muitos ficarão sentidos, defraudados ou dececionados. Sei que da próxima vez que nos cruzarmos as vozes sejam insultuosas. Será como um punhal no meu coração, mas sei que é o preço a pagar pela minha decisão. É com dor que sinto que tenho de partir”, acrescentou ainda, poeticamente, o novo treinador do Boca Juniors.

A decisão de Alfaro é fácil de entender. Dificilmente o experiente técnico argentino esperava que, nesta fase da carreira, lhe voltasse a surgir o convite de um grande clube argentino depois do falhanço que atravessou ao comando do San Lorenzo, outro dos grandes clubes argentinos, e que Alfaro treinou na temporada 2005/06 sem ponta de sucesso e após um investimento avultado do clube que fez chegar ao Ciclón nomes como José Saturnino Cardozo, Paolo Montero ou Ezequiel Lavezzi. Uma temporada marcada por goleadas históricas sofridas pela equipa do San Lorenzo, incluindo uma aos pés do Colón que vencera pela primeira vez na casa do San Lorenzo em mais de duas décadas. Nunca o San Lorenzo perdeu tantas vezes e sofreu tantos golos fora de casa na história dos torneios curtos argentinos como na temporada com Gustavo Alfaro. 22 jogos foi quanto durou a aventura.

Alfaro viu-se obrigado a dar um passo atrás na carreira para dar dois à frente. Conseguindo-o reabilitando a carreira ao comando do Arsenal de Sarandí onde fez história, liderando o clube à melhor campanha do mesmo na primeira divisão argentina, levando-o à Copa Sudamericana, que venceu, feito inédito, e também pela primeira vez na história do mesmo, qualificou o Arsenal de Sarandí para a Libertadores. Tudo isto, numa equipa de nível médio baixo do futebol argentino e, por isso, contra toda as expetativas possíveis.

Ao fim de dois anos históricos ao comando do Arsenal de Sarandí, Alfaro rumou ao Rosario Central após terminar contrato com o clube onde voltou a deixar o seu nome entre a elite do futebol argentino, onde a queda foi ainda maior do que havia sido no San Lorenzo. Alfaro, apresentado como o treinador que iria devolver o Rosario Central aos títulos na Argentina, durou apenas catorze jogos na liderança do clube, demitindo-se depois de apenas vencer dois deles e empatar outros dois.

Alfaro só tinha uma hipótese e a verdade é que Sarandi e o agora técnico do Boca parecem ter uma relação como nenhuma outra. O regresso ao Arsenal permitiu a Alfaro levar a equipa ao segundo lugar no Apertura 2010 e ao título argentino, mais uma vez surpreendente, durante o Clausura 2012. O sucesso de Alfaro no clube de Sarandí não ficou por ali. Logo de seguida, venceu a Supercopa Argentina ao... Boca Juniors nas grandes penalidades, vencendo no final dessa temporada a Taça da Argentina com um esclarecedor 3-0 perante o... San Lorenzo. Foi o quinto título da história do Arsenal de Sarandí, todos eles, pelas mãos de Gustavo Alfaro.

Seguiram-se passagens quase anónimas por Tigre e Gimnasia La Plata e foi o seu sucesso no Huracán, depois de ter sido apontado como sucessor de Pekerman na seleção colombiana, que chega agora ao Boca Juniors. No primeiro torneio à frente do Huracán, Alfaro liderou o Globito ao quarto lugar na Liga Argentina, qualificando o clube para a Copa Libertadores do próximo ano, algo que acaba por explicar a ira dos adeptos do clube: se tudo estava a correr bem, porquê abandonar o barco?

Gustavo Alfaro chega agora ao Boca e segundo rumores na imprensa argentina, o técnico de 56 anos está longe de ser uma decisão unânime e muito menos a primeira escolha do Boca para a sucessão a Barros Schelotto, esse, era José Pekerman. Alfaro não terá sequer convencido Angelici, presidente do Boca, que acabou por ceder mediante a insistência do diretor desportivo do clube Xeneize, Guillermo Burdisso. À 25ª temporada da carreira de treinador, Alfaro tem agora a oportunidade de uma vida, tendo falhado nos dois maiores clubes que treinou, pese embora a história de sucesso inesperado conseguido em Sarandí. Para Alfaro, o comboio não passou duas vezes. Passou três. O Boca Juniors é o 15º clube da carreira.

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