Quantas vezes ouvimos, seja porque razão for, falta de noção, estudo ou simples desconhecimento, que no futebol inglês há uma grande predominância das bolas longas? Muitas vezes não é verdade? Demasiadas vezes, na verdade. Se durante muito tempo o Kick and Rush foi uma evidência e até característica especial do futebol britânico e inglês em particular, hoje em dia, tal identidade não podia estar mais longe da verdade. Certo, é que o mito continua a perdurar e continua a ser frequente ouvir-se nas transmissões falar-se em “dimensão física do futebol inglês”, muito marcado pelo facto de várias equipas usarem a “bola longa” como estratégia.
A verdade, é que de entre as onze primeiras equipas das principais ligas europeias, nem uma equipa inglesa figura no topo das equipas que mais bolas longas concretizaram ou tentaram concretizar. É preciso descer até ao número 12 e 13 para surgirem as primeiras equipas inglesas que mais usam a bola longa como estratégia entre as equipas das principais ligas europeias. Curiosidade? Em nenhuma delas o treinador é britânico. Outra curiosidade? Um deles é bem conhecido, afinal, o Wolverhampton Wanderers de Nuno Espírito Santo é precisamente a segunda equipa inglesa que mais vezes utiliza a bola longa como estratégia, somente atrás do Huddersfield Town.
O mito perdura, mas a verdade é de entre as grandes ligas europeias, são várias as equipas que mais vezes recorrem à bola longa que não uma equipa inglesa. O Real Madrid é mesmo a equipa das grandes ligas que mais vezes recorre à bola longa, tendo já tentado 681 passes longos esta temporada. Seguem-se depois, por ordem, Wolfsburgo, Estrasburgo, Bayern Munique, Eibar, Juventus, Mainz, Werder Bremen, Nápoles, Saint-Etienne e Caen, ainda antes de finalmente surgirem as primeiras equipas inglesas: Huddersfield Town e Wolverhampton Wanderers, com 549 e 537 passes longos efetuados e, por isso, bem longe de tubarões como o Real Madrid, o Bayern Munique ou a Juventus a quem seguramente quase todos atribuiriam um estilo de jogo mais curto.
Na verdade, de entre as cinquenta equipas das grandes ligas europeias que mais passes longos tentaram/concretizaram, contam-se dez equipas inglesas e esmagadora maioria destas surge já na segunda metade desta tabela. O mesmo é dizer que as equipas inglesas estão longe de serem aquelas que mais vezes exploram situações de bola longa, apesar do mito em relação ao futebol inglês teimar em perdurar. Nem mesmo se formos por questões de média por cada 90 minutos, diluindo a diferença entre o número de jogos disputados nos vários campeonatos europeus a coisa diverge, com o Wolves e o Huddersfield Town a manterem-se fora do Top-10 de equipas que, em média, por jogo, mais bolas longas tentam ou concretizam.
E, depois, ainda há os que dizem que em Inglaterra ainda perdura o ir à linha e cruzar, com várias equipas a explorar de forma insistente o cruzamento, também um mito que teima em perdurar. De entre as vinte equipas que mais cruzamentos efetuaram esta temporada, apenas duas delas são inglesas e nenhuma delas perto do topo. O Everton de Marco Silva é aquela que surge mais bem posicionada, em sétimo lugar, com 99 cruzamentos efetuados, com o Huddersfield Town a surgir na lista dez posições abaixo com 89 cruzamento. Neste aspeto, o Eibar é a equipa que mais vezes cruza para a área, com 126 cruzamentos efetuados, seguido de Inter Milão, Juventus, Marselha, Lazio e Roma, todas elas, com mais de cem cruzamentos tirados esta temporada.
Apesar das bolas longas e dos cruzamentos, durante anos, ter feito parte da identidade futebolística do futebol inglês, estes são dois indicadores cada vez menos presentes no futebol de terras de sua majestade. O enraizamento dessa cultura, porém, aliado à falta de informação e conhecimento veiculados pelas transmissões da Premier League, têm feito perdurar um mito que não corresponde à realidade. Em Inglaterra já não se joga o kick and rush.