Grande Futebol
O laço amarelo de Guardiola: quando o futebol é mais que apenas um jogo
Mauro
2018-02-24 17:05:00
Desde dezembro que Guardiola leva ao peito um símbolo que é também uma mensagem política.

Se o povo e, bom, os próprios regulamentos, dizem que futebol e política não se misturam, alguém se esqueceu de avisar Pep Guardiola. Ao longo da história do futebol não faltaram episódios em que política e desporto se misturaram, mesmo que tais episódios nem sempre tenham sido aceites pacificamente. Tal como não o foi, o laço amarelo que Pep Guardiola decidiu passar a envergar desde há uns jogos a esta parte. Em causa está a prisão de responsáveis pela declaração da independência da Catalunha, algo contra o qual Guardiola não desiste de lutar. Tem, agora, o catalão, até cinco de março para se justificar perante a Federação Inglesa, o mesmo que já admitiu que não está preocupado com qualquer possível suspensão. Afinal, há coisas mais importantes que o futebol.

Outubro de 2017. Jordi Cuixart e Jordi Sànchez são presos preventivamente sob acusações de apelo à rebelião, crime punido até quinze anos de prisão efetiva segundo o código penal espanhol. Um crime que terá sido cometido ainda em setembro altura em que terão organizado protestos massivos contra a atuação da Guarda Civil espanhola relativa ao referendo relativo à independência da Catalunha. Puidgemont apelidou ambas as prisões de “presos políticos” e até a Amnistia Internacional se insurgiu contra o aprisionamento de Cuixart e Sànchez. Desde então, as manifestações civis, protagonizadas por centenas de milhares de pessoas se vêm repetindo, porém, Cuixart e Sànchez, continuam a aguardar julgamento em prisão preventiva. Algo que não passou ao lado de Pep Guardiola que, nas últimas semanas, tem manifestado o seu apoio aos políticos catalães envergando um laço amarelo ao peito.

“Fi-lo porque em Espanha duas pessoas específicas estão presas por defenderem algo muito corajoso. É injusto. Até estarem em liberdade, estarão sempre comigo. Jordi Cuixart e Jordi Sànchez estão presos há mais de 60 dias e longe das suas famílias. Se me quiserem suspender, UEFA, Premier League, FIFA… tudo bem. Serei suspenso”, afirmou Pep Guardiola após questionado acerca do porquê da utilização do laço amarelo.

Quem não gostou do assunto foram mesmo a Premier League e a Federação Inglesa que abriu um processo disciplinar ao técnico catalão do Manchester City e definiu cinco de março como a data limite para recurso da defesa de Guardiola. As audições começaram já em dezembro, porém, só agora, a Premier League efetivou o processo. Algo que, segundo a organização, colide com os regulamentos da competição relativas a regras de vestuário e publicidade. Dois avisos já tinham sido feitos a Guardiola, porém, face ao constante ignorar dos mesmos, surgiu agora a abertura de um processo disciplinar ao treinador do Manchester City logo após o embate entre os citizens e o Wigan a contar para a Taça de Inglaterra.

Em causa está o artigo A4 relativo ao capítulo vestuário e publicidade onde se pode ler que “a existência, ou incorporação, de qualquer item de vestuário (botas incluídas) que contenham qualquer manifestação imprópria, ameaçadora, abusiva, indecente, insultuosa, discriminatória, ou qualquer injuria ética ou moral de qualquer tipo, bem como manifestações políticas, são proibidos”. “A publicidade a produtos tabágicos é também proibida”, pode ainda ler-se.

Dada a solidez das crenças de Pep Guardiola relativas às questões políticas da catalunha e que há muito são conhecidas, dificilmente o técnico catalão irá ser demovido pelas ameaças de suspensão da Premier League. Curiosamente, na Liga dos Campeões, todas estas questões não se colocam já que os regulamentos dizem que, para ser aberto um processo disciplinar devido à utilização de símbolos políticos, os mesmos têm de ser considerados ofensivos.

O apoio de Guardiola à causa catalã tem estado na ordem do dia e nas últimas horas surgiram também notícias das buscas feitas ao avião privado de Guardiola por parte das autoridades espanholas de modo a procurar pistas sobre um possível transporte de Carles Puidgemont de regresso a Espanha. Buscas confirmadas pelo próprio Guardiola. “A minha mulher contou-me o que aconteceu. Basicamente, foi o que surgiu na imprensa. Foi a Polícia ou a Guarda Civil, não tenho conhecimento das leis aeroportuárias. Não sei. Imagino que tenham autoridade para fazer as buscas que fizeram. Intercetaram o avião, fizeram as buscar, avisaram os superiores e foram-se embora”, adiantou o técnico catalão à imprensa britânica.

O City entra em campo amanhã no Wembley no jogo que poderá marcar o primeiro triunfo de Guardiola por Inglaterra caso o Manchester City derrote o Arsenal na final da Taça da Liga inglesa. Ao peito, dificilmente Guardiola não envergará um laço amarelo, mesmo contra os regulamentos disciplinares das competições inglesas. É que, para o catalão, há coisas mais importantes que o futebol e tanto Cuixart como Sànchez continuam presos.