Grande Futebol
O jogo mais tenso de sempre. O jogo de dois vencedores. O jogo do futebol
Diogo Cardoso Oliveira
2018-06-13 11:00:00
Era uma equipa profissional e campeã da Europa, frente a uma equipa amadora e campeã de nada.

Foi na Alemanha que se jogou a partida politicamente mais tensa da história do futebol. O Mundo nunca tinha visto e nunca mais viu um jogo com tamanha carga política e social. Foi jogada na Alemanha e entre… as Alemanhas. Em plena Guerra Fria. Irmãos comunistas frente aos irmãos democratas, anos depois de terem sido separados pela Guerra.

Muitos previam que este jogo poderia espoletar conflitos no “Mundo real”, mas, felizmente, não foi o caso. Tudo aconteceu com tremendo desportivismo e os jogadores trocaram camisolas e apertos de mão. Apertos de mão com um simbolismo único, mostrando que é possível resolver diferenças profundas entre dois lados em total oposição. Esse poder chama-se futebol.

O século XX foi, para os alemães, recheado de episódios. Duas derrotas nas duas grandes Guerras e, depois disso, as decisões saídas das Conferências de Ialta, primeiro, e Potsdam, depois: Roosevelt (substituído por Truman), Churchill (substituído por Atlee) e Estaline não fizeram a coisa por menos e a nação germânica foi dividida entre Alemanha Ocidental e a Alemanha Oriental. Pergunta o leitor: então e quanto à bola?

Quanto à bola, foram divididos, também. Dois países que não podiam olhar-se olhos nos olhos em termos políticos e sociais, mas que, apesar de separados, puderam olhar-se num relvado. 1974 trouxe a única vez em que os dois lados da Alemanha se defrontaram num Mundial. A Alemanha Ocidental era largamente favorita, liderada por nomes como Beckenbauer, Berti Vogts, Sepp Maier ou Gerd Müller. Era uma equipa profissional e campeã da Europa, frente a uma equipa amadora e campeã de nada. Tratava-se de mais do que um jogo de futebol. Num jogo assistido por 60 mil pessoas, em Hamburgo, apenas 1500 (sim, apenas 2,5% do estádio) eram da Alemanha Oriental, que não permitiu que mais adeptos atravessassem a “cortina de ferro”.

Nesse dia 22 de junho de 1974, houve uma vitória surpreendente da Alemanha Oriental, com um golo de Sparwasser, num jogo que acabou por ser tranquilo. E que teve dois vencedores. A Alemanha Oriental venceu a partida – algo humilhante para os ocidentais – e, dessa forma, venceu o grupo. Paradoxalmente, “levou” com o Brasil, a Argentina e a Holanda na ronda seguinte, algo que foi um presente envenenado, culminado com a eliminação. Por outro lado, a derrota frente aos “irmãos” comunistas permitiu à Alemanha Ocidental apanhar uma fase seguinte mais suave e chegaram à final. E venceram o Mundial.

Acabamos como começámos: Muitos previam que este jogo poderia espoletar conflitos no “Mundo real”, mas, felizmente, não foi o caso. Tudo aconteceu com tremendo desportivismo e os jogadores trocaram camisolas e apertos de mão. Apertos de mão com um simbolismo único, mostrando que é possível resolver diferenças profundas entre dois lados em total oposição. Esse poder chama-se futebol.

O PERCURSO RUMO AO RÚSSIA 2018

Sabe o que significam 30 pontos em dez jogos? Significam 100% de vitórias. Para a Alemanha, significaram ainda 43 golos marcados e apenas quatro sofridos. Não houve pai para os alemães, que ultrapassaram a zona europeia de qualificação com uma facilidade tremenda. Ainda assim, é justo que acrescentemos que os adversários foram Irlanda do Norte, República Checa, Noruega, Azerbaijão e São Marino.

Um dado muito interessante no percurso da Alemanha é a distribuição dos golos. Não tiveram ninguém com mais de cinco, mas tiveram onze jogadores com, pelo menos, dois golos marcados. Sandro Wagner (que nem vai à Rússia) e Müller foram os melhores marcadores, com cinco golos.

JOGADOR A SEGUIR: Timo Werner

Leia bem: este rapazola está na calha para ser o melhor marcador do Mundial. Se o percurso dos atuais campeões fizer jus ao poderio da equipa e se este avançado fizer jus à qualidade que tem, então Timo Werner pode ser uma das figuras deste Mundial. Apesar de ter 1,80m, é um avançado rápido e que sabe usar o corpo. Joga bem em apoio frontal, mas também explora bem a profundidade. Acima de tudo isto: é um finalizador tremendo. Com artistas como Kroos, Reus, Ozil, Draxler ou Müller a servi-lo, resta-nos desfrutar do que dali pode sair.

OS CONVOCADOS

Guarda-redes: Manuel Neuer (Bayern Munique), Ter Stegen (FC Barcelona) e Kevin Trapp (Paris Saint-Germain).
Defesas: Jérôme Boateng (Bayern Munique), Mats Hummels (Bayern Munique), Joshua Kimmich (Bayern Munique), Niklas Sule (Bayern Munique), Mathias Ginter (Borussia Monchengladbach), Jonas Hector (FC Colónia), Marvin Plattenhardt (Hertha Berlim) e Antonio Rudiger (Chelsea).
Médios: Julian Brandt (Bayer Leverkusen), Julian Draxler (Paris Saint-Germain), Leon Goretzka (Schalke), Ilkay Gundogan (Manchester City), Sami Khedira (Juventus), Toni Kroos (Real Madrid), Thomas Muller (Bayern Munique), Sebastian Rudy (Bayern Munique), Mesut Özil (Arsenal) e Marco Reus (Borussia Dortmund).
Avançados: Mario Gómez (Estugarda) e Timo Werner (RB Leipzig).

ONZE PROVÁVEL

 

TREINADOR: Joachim Löw

GUIA BANCADA: O MUNDIAL EM HISTÓRIAS

Grupo A

Rússia: O dia em que Rússia boicotou e "roubou" a Ucrânia para jogar o Mundial
Arábia Saudita: A lenda do "Pelé do Deserto", o terror de Setúbal
Egito: O futebol nascido de uma tragédia
Uruguai: Uruguai quer fazer um Maracanazo. Ou um Maracanazov

Grupo B

Portugal: Portugal, toca a jogar pelo chão que, de “Saltillos”, já foi suficiente
Espanha: O dia em que o General Franco teve medo dos russos e tirou um título à Espanha
Marrocos: "África minha" de Hervé Renard tem novo capítulo em Marrocos
Irão: Carlos Queiroz e o Irão: uma relação de amor e ódio

Grupo C

França: Didier Deschamps, o capitão da saga de 1998 em busca da redenção como treinador
Austrália: Um continente pequeno demais para uma seleção
Perú: O amor que os brasileiros ganharam ao Peru e a Cubillas, com a Argentina no meio
Dinamarca: Elkjaer fumava e bebia, mas corria que se fartava

Grupo D

Argentina: O dia em que Deus deu a mão para Maradona ficar na história do futebol
Islândia: Islândia e a aritmética que permite escolher os 23 convocados
Croácia: Quando Boban e Suker viraram heróis de uma nação
Nigéria: Yekini, um lugar na história da Nigéria e no coração dos portugueses

Grupo E

Brasil: Marinho Peres: capitão, desertor e um sonho que virou pesadelo em Barcelona
Suíça: Uma reunião de lendas, duas batalhas épicas e um capitão a jogar com um tumor
Costa Rica: No país mais feliz do Mundo, há um Oásis onde só entram grandes guarda redes
Sérvia: Um goleador esquecido pelo tempo, ídolo de Puskas e um jogo que tudo mudou

Grupo F
Alemanha
México
Suécia
Coreia do Sul

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