Grande Futebol
O "Bob Marley Derby": quando o futebol é muito mais do que um jogo
João Pedro Cordeiro
2018-10-10 18:00:00
Bob Marley, futebol, política, confronto social. O futebol é muito mais do que um jogo e o dérbi de Kingston comprova-o.

Quatro jogos, três vitórias e uma derrota. O início de temporada pela Jamaica não podia estar mais equilibrado depois de, este fim de semana, o Arnett Gardens ter derrotado em casa o grande rival Tivoli Gardens por 1-0, deixando ambos os rivais com registos semelhantes no topo da liga do país do Caribe. No futebol jamaicano só o Portmore United ganhou mais do que os dois rivais de Kingston, mais concretamente, dos arredores do ghetto de Trenchtown, famoso devido ao facto de ter servido de berço à figura maior do país: Bob Marley. O duelo entre Arnett Gardens e Tivoli Gardens ganhou por isso o título de “derby Bob Marley”, mas esta é uma história que envolve muito mais do que futebol.

Um pouco por todo o Mundo, seja na Arena de Amesterdão por parte dos adeptos do Ajax, ou no norte Lanarkshire, em Motherwell, no Fir Park, passando por vários dos estádios ingleses, ecoa o Three Little Birds de Bob Marley, música que se calhar um pouco contra a lógica se tornou um hino do futebol. Bob Marley certamente gostaria de o saber. Afinal, o cantor jamaicano nunca escondeu o seu amor e paixão pelo jogo. Disse mesmo, um dia, que se alguém alguma vez o quisesse conhecer teria de jogar futebol contra si e contra os seus Wailers. Do fascínio por Pelé ou da amizade com Skill Cole, antigo internacional jamaicano, com quem co escreveu a música War, as ligações de Bob Marley ao futebol são várias. O duelo entre Arnett e Tivoli Gardens é mais uma, porventura, a mais relevante.

Bob Marley é, ou foi, uma figura transcendental que ainda hoje está tão presente em vários quadrantes da sociedade, não só jamaicana, como internacional. Não só culturalmente, como política e até desportivamente. Futebol em particular. Desporto que amava. Fosse em parques de estacionamento, na rua, em ringues ou mesmo em estúdio, frequentemente se podia ver Bob Marley a jogar futebol. O futebol, para Marley, não era apenas um hobby. É parte integrante da sua vida e do seu legado. Durante a adolescência desenvolveu em Pelé um ídolo, seguindo ao pormenor todos os passos da carreira do “Rei”. Ao longo da carreira, Bob Marley rodeou-se mesmo de gente de futebol, como foi o caso de Alan Cole, conhecido como Skill, um dos melhores jogadores de sempre do país.

Skill não foi só um amigo para Marley. Foi braço direito com quem escreveu músicas. Foi, durante anos, o Tour Manager de Bob Marley e talvez o grande responsável pelo facto dos Wailers aproveitarem cada pausa para uma peladinha. Foi durante uma dessas peladinhas que Marley sofreu uma lesão que permitiu ser descoberto o melanoma que acabou por lhe tirar a vida em 1981, poucos meses depois dos acontecimentos sangrentos contra os quais lutou praticamente toda a vida. Marley pode não ter sido um grande futebolista e as opiniões relativas ao seu talento para o jogo dividirem-se, mas uma coisa nunca deixava de referir: “o futebol é liberdade”.

O “Derby Bob Marley” não é, nem nunca será, apenas um jogo de futebol. É um confronto social. Um duelo político. É muito mais do que apenas um jogo e não é só por ser o confronto mais relevante da capital jamaicana. Dois clubes que definem, igualmente, um duelo de ideologias políticas tendo estado também na génese das eleições de 1980, as mais sangrentas de sempre no país e cujos relatos históricos apontam a cerca de 800 mortes.

Se o Arnett Gardens é um dos braços sociais do Partido Nacional Popular, o Tivoli Gardens tem a sua base de apoio ligada ao Partido Trabalhista Jamaicano. Durante os anos 80, debaixo da orientação de Micheal Manley, o PNP foi um dos aliados de Fidel Castro em período áureo da “guerra” entre USA e Cuba. Algo que, sem surpresa, não agradava aos responsáveis norte americanos que, segundo reza a lenda, se aliaram ao PTJ. Com a CIA por trás, não só apoiando mas encorajando, os USA terão estado na base da violência desencadeada pelo PTJ e que levou à morte de 800 pessoas nas eleições de 1980. Tudo derivado do medo de nova vitória socialista/comunista na região tal a ligação do PNP a Castro e a influência de Cuba e CIA nas eleições jamaicanas de 1980 foram amplamente divulgadas ao longo das últimas décadas.

Grande parte do palco dos confrontos foi portanto Trenchtown e as comunidades associadas a Arnett e Tivoli Gardens, acontecimentos contra os quais Bob Marley muito lutou exigindo paz aos seus pares. Uma luta que ficou eternizada não só na música de Bob Marley, mas também na icónica fotografia registada durante o “One Love Peace Concert” de 1978 realizado no Estádio Nacional de Kingston em que Bob Marley juntou os líderes do PNP e do PTJ, Micheal Manley e Edward Seaga, respetivamente, em palco, de mãos dadas e ao alto enquanto os seus Wailers tocavam “Jammin”. Uma tentativa de pacificação que, infelizmente, não teve repercussão com a guerra civil e política jamaicana a desaguar num banho de sangue nas eleições que tomaram lugar dois anos mais tarde.

Se a rivalidade futebolística de definiu desde logo com a criação do Arnett Gardens em 1977, a ligação de Edward Seaga ao Tivoli Gardens definiu também uma rivalidade político-desportiva entre os dois clubes de Kingston com os não apoiantes do PTJ a procurarem uma afiliação desportiva longe do Tivoli Gardens tão ligado ao partido do antigo primeiro ministro jamaicano. Sem surpresa, o “derby Bob Marley” ganhou um picante especial devido a isso, com a rivalidade política e social a alastrar-se também ao relvado. Se o futebol é muito mais do que apenas um jogo, a rivalidade de Kingston explica-o na perfeição.

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