Grande Futebol
Mabil: O antigo refugiado que quer mudar o Mundo através do futebol
2018-11-30 20:00:00
Mabil passou por Paços de Ferreira na temporada passada e agora foi distinguido pelo seu trabalho humanitário.

Paços de Ferreira, maio de 2018. Mabil despede-se de forma inglória dos adeptos do pacenses. O clube da capital do móvel não vai além de uma derrota por 3-1 sobre o Portimonense, em casa, e cai à segunda liga portuguesa onde não jogava desde a temporada 2004/05. Frente ao Portimonense, Awer Mabil cumpriu o último jogo pelos castores, naquele que foi o 30º encontro do australiano, nascido em Kakuma, no Quénia, em Portugal. Emprestado pelos dinamarqueses do Midtjylland ao Paços, em Portugal, Mabil conheceu o terceiro país da sua carreira enquanto futebolista. A aventura, porém, começou muito antes e não foi sempre bonita.

Mabil tinha 11 anos quando em 2006 chegou com a família à Austrália, a Adelaide, depois de fugir do país natal, o Quénia, onde nasceu entre a lama de um campo de refugiados. Mabil, e a família, nunca conheceram algo diferente do que... fugir. Diferente de lutar por uma vida diferente. Por uma vida melhor. Afinal, já antes de rumar à Austrália em busca de uma vida melhor, já a família de Mabil tinha fugido da guerra civil do Sudão e encontrado no Quénia a paragem intermédia que lhes permitiu, pelo menos, sobreviver e dar ao Mundo Mabil Awer.

Para Mabil muito mudou nos últimos anos, em particular, na última década. Em outubro, o antigo extremo do Paços de Ferreira estreou-se mesmo pela seleção principal da Austrália, feito que coroou com um golo. A Austrália venceu o Kuwait por 4-0, Mabil até só jogou pouco mais de 15 minutos, mas o sonho de jogar pelo país que o acolheu e ao qual pode hoje chamar seu estava cumprido. Desde então jogou mais duas vezes pelos Socceroos, e longe vão os tempos em que o racismo foi parte integrante da sua vida.

“Enfrentei muitas situações de racismo. Uma vez, quando tinha 16 anos, fui atacado por vizinhos quando estava a chegar a casa. A primeira coisa que fiz foi fechar a porta da frente e esconder os meus irmãos. Enfrentei-os de porta fechada, pedi-lhes que se fossem embora e só me diziam para voltar para o meu país. Fora isso, no dia a dia, situações como ir na rua, no passeio, e pessoas em carros apitarem-te e insultarem-te era uma constante”, recorda Mabil em entrevista recente ao Guardian.

Mas Mabil não guarda rancor. Não o faz quando talvez tivesse todas as razões para o fazer. “É normal ser alvo de insultos racistas na Austrália, mas como um todo, não é um país racista. Há certamente algumas pessoas racistas, mas é um país que a todos pertence”, afirma. Tanto, que hoje afirma-se mesmo um australiano orgulhoso. País onde iniciou a carreira como futebolista ao serviço do Adelaide United e de onde acabou por sair, em 2015, rumo à Dinamarca e ao Midtjylland onde é hoje uma das figuras da equipa. Depois de empréstimos sucessivos a Esbjerg e Paços de Ferreira, em 2018/19, Mabil leva já 19 jogos ao serviço do emblema dinamarquês e quatro golos marcados, registo que o coloca a apenas dois tentos de encetar a temporada mais prolífica da carreira.

“Represento a Austrália porque me deu a mim e à minha família uma oportunidade na vida e uma segunda oportunidade a todos. É parte de mim pois vivi aqui metade da minha vida. É a minha casa e sinto-me orgulhoso de representar a Austrália”, assegura Mabil que recorda ainda as condições difíceis em que viveu antes de chegar ao país. “Recebíamos comida das Nações Unidas uma vez por mês. Apenas tínhamos uma refeição por dia, que era o jantar, e não havia tal coisa como pequeno almoço ao almoço”.

A experiência de vida complicada de Mabil foi também o que o motivou a criar a fundação “Barefoot to Boots” e a regressar regularmente a Kakuma, localidade queniana onde nasceu e cresceu. “Levo botas e equipamento futebolístico e equipamento hospitalar e acabo por doná-los aos refugiados. Viver como um foi realmente difícil, mas é algo no qual tenho um grande orgulho e no qual terei sempre um grande orgulho até ao fim da minha vida. Incutiu algum tipo de mentalidade na minha cabeça que me permite apreciar de outra forma os bons momentos e em nunca desistir dos meus sonhos”.

O trabalho realizado por Mabil junto dos refugiados africanos, em especial, em Kakuma onde nasceu, através da sua fundação, permitiram agora ao extremo ex Paços um galardão de mérito humanitário por parte da FIFPro. Um prémio já atribuído anteriormente a nomes como Styilian Petrov, Shabani Nonda, Kei Kamara, Michael Lahoud ou Steven Bryce e Reynaldo Parks, isto, apenas nos últimos anos. Sempre com base no trabalho humanitário desenvolvido e de certa forma relacionado com o futebol. Um prémio que permite agora a Mabil Awer um balão de 25 mil dólares destinado ao trabalho que vai realizando através da Barefoot to Boots, mas cuja atenção mediática recolhida ultrapassa em larga escala a influência possibilitada pelo valor monetário recebido.

“O meu objetivo é fazer a vida dos refugiados mais fácil e fazê-los perceber que os seus sonhos se podem realmente tornar realidade. Eles, os refugiados, apenas precisam de uma oportunidade para serem notados e não isolados”, afirmou Mabil. Atualmente, no campo de refugiados de Kakuma, onde os pais chegaram em 1994 fugidos da guerra civil que se instalou no Sudão do Sul, vivem cerca de 185 mil pessoas em condições sub-humanas. “O programa humanitário desenvolvido por Mabil com a sua fundação é brilhante. Ele está a realizar um trabalho tremendo em tentar trazer esperança e uma vida melhorada a pessoas desfavorecidas dos mais diversos países africanos e que acabaram no campo de Kakuma”, explicou Tony Higgins, porta voz do júri de atribuição do Prémio de Mérito da FIFPro.

“Nenhuma pessoa escolhe de forma voluntária tornar-se um refugiado. Muitas delas são obrigadas a fugir das suas casas devidos a ambientes e circunstâncias que colocam em causa a sua vida e a das suas famílias. Além disso, viver num campo de refugiados é extremamente difícil e até desolador. Uma coisa simples como jogar futebol é muitas vezes o suficiente para lhes dar uma muito necessária alegria”, acrescentou Higgins, justificando a atribuição do prémio a Mabil.

Agora? Com o dinheiro, Mabil promete levar a sua missão mais longe. Entre a construção de um “youth centre” e a atribuição de bolsas escolares para os refugiados do campo de Kakuma, o antigo extremo do Paços está ainda indeciso. Uma coisa é certa, porém: “Quero continuar a ajudar os refugiados através do futebol. O futebol deu-me tudo”, assegura Mabil.

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