Grande Futebol
Leon Bailey e a incontornável influência jamaicana no futebol europeu
2018-01-22 18:00:00
Tal como outros nomes antes de si, Leon Bailey recusa comprometer-se com a Jamaica. E se todos tivessem querido?

Leon Bailey está numa encruzilhada. Aos 20 anos, o extremo jamaicano tem uma decisão a fazer. Por quem jogar a nível internacional? O jovem parece decidido, porém. Como tantos outros anteriormente, alguns deles, dos mais entusiasmantes jogadores que já passaram pelo futebol inglês, Leon Bailey não parece particularmente interessado em representar a Jamaica. Mesmo sendo natural de Kingston e mesmo já tendo representado os escalões jovens do país caribenho. A história da seleção de futebol jamaicana podia, por esta altura ser bem diferente. O que seria dela se nomes como John Barnes, Raheem Sterling ou, agora, Leon Bailey, por ela tivessem decidido jogar? A influência jamaicana no futebol europeu, porém, não pode ser ignorada. Leon Bailey é só mais um exemplo.

16 jogos, sete golos, cinco assistências. Aos 20 anos, Leon Bailey é por esta altura uma das grandes figuras da temporada na liga alemã. Depois de ter dado nas vistas ao serviço do KRC Genk, Bailey vai destruindo defesas adversárias ao serviço do Bayer Leverkusen, um momento de forma que não vai passando despercebido aos maiores clubes europeus. Nesta altura, porém, a grande dúvida de Leon Bailey passa pelo país que possa vir a representar no futuro. Nascido na Jamaica e sem anos de domicilio suficientes para representar Bélgica ou Alemanha, a escolha de Leon Bailey parece ser só uma. Ainda assim, o jovem não se compromete, mesmo com um país ou seleção que já representou, por uma vez, ao serviço dos Sub-23 jamaicanos. Sobre o assédio, referiu, “tem sido sempre assim desde há vários anos, mas a minha opinião não mudou e as pessoas têm de o aceitar. A Jamaica é um país maravilhoso, onde está sempre sol e onde as pessoas são felizes, mas, neste momento, só me importa o futebol de clubes”, assumiu Leon Bailey ao Bild há poucos dias.

Leon Bailey não joga em Inglaterra, como muitos outros jamaicanos ou descendentes de jamaicanos antes dele, mas podia. No início da década, algures por 2011, foi dura a tentativa do seu pai adotivo, Craig Butler, em encontrar um clube para o filho num qualquer campeonato europeu. Bailey teve quase tudo certo para assinar com o Genk, porém, foi na Eslováquia que encontrou espaço para crescer. Não foi fácil para Bailey encontrar o seu espaço na europa, mas como o aproveitou. O amor do Genk por Bailey nunca esmoreceu e depois de dois anos passados ao serviço do AS Trencín, Bailey lá chegou à Bélgica. Com 18 anos, impôs-se como um graúdo. Fez sete golos em 42 jogos pelo Genk na temporada de estreia ao mais alto nível e venceu o prémio de jovem jogador do ano no futebol belga. Só durou mais seis meses na Bélgica, mas ainda foi a tempo de fazer o golo da temporada na liga Europa e de permitir um encaixe milionário ao Genk: em janeiro de 2017 chegou ao Bayer Leverkusen a troco de 20 milhões de euros. Ia já com 9 golos em 35 jogos pelo emblema belga.

Na Alemanha não se impôs de imediato. Fez dez jogos no que restou da temporada 2016/17, mas explodiu de vez em 2017/18. Aos 20 anos e com três temporadas de alto nível na Europa, Leon Bailey não é mais uma promessa, é uma certeza. Um talento demasiado grande para a Jamaica, aparentemente. Mas como tudo poderia ser diferente para os jamaicanos se, ao longo da história do futebol, todos os nomes que podiam ter alinhado pelo simpático e soalheiro país do Caribe, o tivessem decidido fazer. Perderam os jamaicanos, mas ganharam, acima de tudo, os ingleses.

Rum, reggae, ska e muito futebol. A influência cultural e desportiva jamaicana em Inglaterra é tão profunda que, ao dia de hoje, ambas se confundem entre si. Hoje não é mais estranho que um jamaicano, ou descendente jamaicano, represente a seleção dos “três leões”. Nos anos 70, porém, a situação era bem diferente e grandes barreiras tiveram de ser ultrapassadas para que nomes como Viv Anderson, Laurie Cunningham, Luther Blisset ou John Barnes pudessem ter representado a equipa inglesa, independentemente do talento óbvio que tinham para jogar futebol. “Um zero para Inglaterra, pois não contamos o teu golo” ouviu muitas vezes o recentemente falecido Cyrille Regis, também ele, um caribenho ao serviço de sua majestade. Viv Anderson, que pouco tempo antes de se tornar o primeiro negro de sempre a vestir a camisola dos “Três Leões”, recebia fruta vinda das bancadas do Brunton Park em Carslisle quando só queria aquecer para poder ser opção para o icónico Brian Clough. “Leva esse traseiro de volta para o aquecimento e traz-me uma banana e duas peras”, disse-lhe Clough. O episódio talvez tenha endurecido Viv Anderson que, três anos mais tarde, derrubou o muro e fez história pela seleção britânica. Também ele descendente jamaicano.

Desde os anos 60 e 70 que a influência jamaicana na cultura e desporto, em particular, no futebol, é enorme por Inglaterra. Hoje, tornou-se comum ver jamaicanos ou descendentes de jamaicanos vestir a camisola inglesa. Assim aconteceu com Danny Rose, Kyle Walker, Raheem Sterling, Theo Walcott, Alex Oxlade-Chamberlain, Ashley Young, Andros Townsend, Chris Smalling ou Aaron Lennon nos tempos mais recentes, como já havia acontecido, anos antes, com nomes como Ian Wright, Sol Campbell ou Andy Cole. Leon Bailey ainda não chegou lá, mas, quem sabe, possa vir a ser o próximo. O interesse da Premier League é forte e foi o próprio website da Bundesliga a dar conta da possibilidade de Leon Bailey jogar por Inglaterra mesmo nunca tendo vivido no país britânico. Diz, a Liga Alemã, que Leon Bailey tem ascendência inglesa e por isso é elegível para honrar a tradição jamaicana ao serviço da seleção de Inglaterra.

Tivessem todos estes nomes jogado pela Jamaica e talvez, por esta altura, o país caribenho não estivesse tão abaixo no ranking FIFA e, muito menos, tivesse registado até agora apenas uma presença num campeonato do Mundo de futebol como quando o conseguiram, em 1998, em França.

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