Grande Futebol
Kenny Miller, a lenda para quem a idade é uma treta
2018-12-10 11:00:00
Aos 38 anos, o internacional escocês não dá sinais de abrandar. A missão? Salvar o Dundee da despromoção.

Aos 38 anos, não há quem coloque juízo na cabeça de Kenny Miller. E porque haviam de o fazer? A poucos dias de cumprir o 39º aniversário, Kenny Milller ainda está aí para as curvas. Com seis golos marcados na Premiership escocesa, o mais recente deles numa pequena traição a um antigo clube, este fim de semana, são poucos aqueles que esta temporada marcaram mais golos na primeira divisão escocesa do que Kenny Miller. O icónico avançado escocês demorou a abrir o ativo, agora, parece não haver quem o pare.

Com um golo logo a abrir o jogo entre Dundee e Rangers, Kenny Miller elevou para seis o número de golos apontados esta temporada na Liga Escocesa. O avançado de 38 anos só começou a marcar já com a época bem avançada, mas agora ninguém o pára e os resultados da equipa do Dundee agradecem. Sempre que Kenny Miller marcou, o Dundee não perdeu. Uma série que já vai em quatro jogos consecutivos. Sim, depois de 12 jornadas em qualquer golo marcado e após uma série de cinco derrotas consecutivas, as últimas quatro sem qualquer golo, o Dundee FC é agora uma das equipas em melhor forma na liga escocesa com três empates e uma vitória nos últimos quatro jogos.

Frente ao Rangers, Kenny Miller marcou pelo quarto jogo consecutivo. Não festejou. Como poderia fazê-lo? Pelo Rangers foram nove temporadas da carreira distribuídas por três períodos diferentes. Saísse para onde saísse, Kenny Miller sempre regressou. Não a casa. Essa é Edimburgo, onde nasceu e se deu a conhecer ao futebol ao serviço do Hibs. Foi em Glasgow, porém, que Kenny Miller se fez lenda. Um dos poucos que ao longo dos anos jogou em ambos os rivais de Glasgow, do Old Firm.

Pelo Rangers, Kenny Miller apontou 103 golos em 264 jogos e venceu praticamente tudo o que havia para vencer. Um dos mais importantes jogadores da pré falência do Rangers e até do pós, pelo clube de Glasgow, Kenny Miller venceu três Premiership, um Championship, uma Taça da Escócia, uma Taça da Liga Escocesa e uma Challenge Cup. Tudo isto, já depois de ter festejado uma dobradinha pelo Celtic em 2006/07, saindo para o Derby County na temporada seguinte e regressando à Escócia pela porta do grande rival.

Se a carreira de Kenny Miller nunca se pautou pela lógica, não supreende que os meses mais recentes da mesma sejam, no mínimo, bizarros. Hoje ao serviço do Dundee, não foi pelo clube de Dens Park que Kenny Miller começou a época. Na verdade, em junho de 2018, Kenny Miller foi apresentado como treinador jogador do Livingstone para a temporada de regresso do clube ao convívio com os grandes do futebol escocês, competição onde o clube não pontuava desde 2006. Pelo Livingstone, Kenny Miller marcou ao terceiro jogo, mas ficou por aí. Dois meses depois de ter sido apresentado, deixou o clube.

Tudo porque Kenny Miller queria continuar a jogar futebol e a direção do Livingstone queria que o internacional escocês, que marcou 18 golos nas 69 presenças que teve pela Escócia, se dedicasse somente às tarefas de treinador. Ainda não era tempo disso, acreditava Kenny Miller, algo comprovado pelas últimas semanas em Dundee onde chegou, viu e venceu. Ao quinto jogo pelos dark blues, Kenny Miller já era capitão e este fim de semana liderou a equipa do Dundee no quarto jogo consecutivo sem perder, e logo na receção ao gigante Rangers.

Kenny Miller leva agora quatro jogos consecutivos a marcar num total de seis golos em quatro jogos onde se inclui um hat trick apontado frente aos Accies, rivais pela manutenção. Em boa hora o icónico avançado escocês se lembrou de marcar golos, ou não fossem os Dens últimos classificados na competição. Até ao início daquele que se começa a vislumbrar como o ponto de viragem da temporada do Dundee, o clube levava apenas uma vitória em doze jogos, tendo perdido os restante onze. Curiosamente, ambas as vitórias do Dundee esta temporada, aconteceram perante o Hamilton Academical.

Com conquistas nos grandes de Glasgow e até um playoff de promoção na segunda divisão inglesa conquistado ao serviço do Wolverhampton Wanderers em 2002/03, a carreira de Kenny Miller é uma carreira repleta de incidências. Ao serviço do Hibs, em 1999/00, foi eleito o melhor jogador jovem a atuar na Escócia, feito que lhe valeu uma transferência para o Rangers onde voltou a evidenciar-se ao ponto de rumar a Inglaterra para cinco temporadas ao serviço do Wolves, ainda que apenas uma delas na Premier League, mas sempre com registos goleadores muito interessantes.

Foi depois de cinco anos em Inglaterra que Kenny Miller fez polémica, ao assinar pelo Celtic numa altura em que era muito acarinhado na zona azul de Glasgow. Miller tornou-se no, somente, terceiro jogador pós Guerra a atuar em ambos os clubes do Old Firm. Uma temporada foi tudo o que bastou para nova aventura em Inglaterra, agora ao serviço do Derby County numa temporada histórica pela negativa para os Rams. Ainda hoje, nenhum outro clube conquistou tão poucos pontos na Premier League, onze, nem tão poucas vitórias, apenas uma, em toda a história da competição.

Era tempo de regressar à Escócia e, exatamente, para regressar ao Rangers em nova transferência polémica. Se até então só três jogadores após a segunda guerra tinham jogado em ambos os clubes, talvez nenhum deles à exceção de Kenny Miller tenha conseguido irritar de tal maneira ambas as massas adeptas. Mas Kenny Miller retratou-se em campo e entre 2008 e 2011, ao serviço do Rangers, teve as melhores temporadas da carreira com vários prémios de jogador do mês, culminados com o triunfo na bota de ouro da competição em 2010/11, mesmo tendo abandonado o clube a meio da época rumo ao Bursaspor.

O sucesso ao serviço do Rangers permitiu a Kenny Miller tornar-se num globetrotter do futebol. Saiu para a Turquia onde ficou apenas uma época, rumando em 2011/12 ao Cardiff City ajudando o clube galês a chegar à final da Taça da Liga Inglesa, mas terminando a temporada de forma inglória falhando uma oportunidade de ouro no prolongamento do encontro, bem como a sua grande penalidade no desempate derradeiro perante o Liverpool.

Seguiram-se três temporadas algo anónimas na MLS ao serviço dos Vancouver Whitecaps até que, por fim, regressou e assentou no país natal. Para muitos, o regresso ao Rangers em 2014 com a equipa no Championship, segunda divisão escocesa, era uma missão final de carreira para Kenny Milller. Devolver o clube à elite e reformar-se em seguida, diziam. Kenny Miller, porém, tinha outras ideias. Pedro Caixinha chegou mesmo a elogiar o profissionalismo e a liderança de Kenny Miller, para mais tarde, segundo a imprensa escocesa, acusar o avançado escocês de passar informação privada da equipa para a imprensa e afastá-lo do plantel.

A terceira passagem de Kenny Miller começou bem, com o avançado escocês a ajudar o clube a regressar à primeira divisão escocesa bem como a uma final da Taça da Liga (perdida para o Hibs), mas acabou de forma tempestuosa. Em Abril de 2018, Kenny Miller e Lee Wallace acabaram multados pelo clube e afastados do plantel depois de uma alercação com Graeme Murty então treinador da equipa do Rangers. Os dois jogadores, porém, acabaram por ganhar o recurso apresentado em tribunal e continuam a aguardar uma indemnização por parte do Rangers. Um final negro para uma lenda do clube.

Foi então já com experiência como treinador nas equipas jovens do Rangers que Kenny Miller chegou ao Livingstone. Tornar-se treinador é a ambição futura para o antigo internacional escocês, mas não é para já. Afinal, ainda há muitos golos para marcar e um Dundee FC para salvar da despromoção. Aos 38 anos, Kenny Miller continua a marcar golos como poucos. A idade não passa por ele. Porque havia de parar agora?