Grande Futebol
Júlio César tocou o Olimpo, passou pelo Inferno e reinventou-se no Benfica
2018-04-22 13:45:00
Júlio César pendurou as luvas a uma carreira de 21 anos, nos quais viveu momentos de glória e de desilusão tremenda.

Chegou ao topo do futebol, o mítico Olimpo do desporto rei, mas também conheceu as profundezas de um Inferno que esteve perto de lhe terminar a carreira. Os anos de Júlio César como Imperador das balizas chegaram ao fim e para trás o brasileiro deixa um legado com uma Liga dos Campeões, duas Taças das Confederações e inúmeros títulos em Portugal e Itália. Os 7-1 sofridos pela seleção do Brasil perante a Alemanha no Mundial de 2014, em pleno solo canarinho, serão sempre recordados como o momento mais negativo no trajeto de 21 anos, em que soube reinventar-se com a camisola do Benfica. O guardião pendurou ontem as luvas, num jogo de despedida marcado pela emoção.

Júlio César chegou à Luz em 2014/15, uma época depois do Benfica começar a trilhar o tetracampeonato que agora atravessa. Foi precisamente depois de viver o pior momento da carreira que o guardião canarinho foi adquirido pelas águias e por isso mesmo nutre um sentimento de agradecimento ímpar. “A pior dor do mundo, mas o mundo não parou ali [7-1 da Alemanha ao Brasil], tivemos de encher o peito para seguir em cada dia a caminhada e os projetos, de olhar em frente. Foi quando o Benfica me abraçou. Não sou hipócrita, os títulos são maravilhosos, mas o mais importante foi ter-me sentido querido. Obviamente não agradei a toda a gente, mas acredito que fui um jogador acarinhado pelos adeptos e isso não tem valor", salientou Júlio César recentemente, numa entrevista à Globo.

Nas águias, o guarda-redes sucedeu a Oblak e passou depois o testemunho a Ederson. Ao todo, foram três temporadas e meia com a camisola dos encarnados. 83 jogos oficiais pelo Benfica resultaram na conquista de três campeonatos, uma Taça de Portugal, uma Taça da Liga e uma Supertaça. Em janeiro deste ano, Júlio César voltou a clube do coração, o Flamengo, para ter uma própria despedida dos relvados. Aconteceu este sábado que passou, num encontro diante do Atlético Mineiro, em pleno Estádio do Maracaña, que terminou com um triunfo do mengão, sem golos sofridos para Júlio César. Foi no Flamengo que começou a carreira e foi também no emblema do Rio de Janeiro que a terminou, num total de 273 partidas oficiais pelo clube.

"Às vezes eu nem sei se mereço isso tudo. Queria agradecer a quem veio prestigiar o Flamengo e o Júlio César. Valeu, rapaziada. Sou uma pessoa que coleciona momentos. É um momento muito especial para mim. Podem ter a certeza de que o vou guardar com muito carinho. Eu já vim com a situação bem fixa na minha cabeça e bem madura. Despeço-me do futebol feliz por aquilo que eu fiz e o mais importante para mim foram as amizades que fiz. Espero ter deixado um legado positivo com as pessoas com que convivi", emocionou-se Júlio César depois da despedida, em declarações reproduzidas pelo Globo.

Aqueles 7-1 que nunca serão esquecidos...

Júlio César viveu uma experiência falhada no futebol inglês, quando rumou do Inter Milão para o Queens Park Rangers, mas não há como negar que o pior momento da carreira do guarda-redes teve lugar ao serviço da seleção brasileira, pela qual somou 87 internacionalizações e conquistou duas Taças das Confederações e uma Copa América. Em 2014, o Brasil tinha tudo a seu favor para chegar ao sexto Mundial da história. A principal competição de seleções disputava-se em solo canarinho, o país estava todo a apoiar e a estrela Neymar estava a brilhar até se lesionar, nos quartos de final contra a Colômbia. Ora, foi precisamente nas meias finais que tudo descambou.

8 de julho de 2014. Dia que jamais será esquecido, principalmente para o povo brasileiro. Foi cum um estonteante 7-1 que a Alemanha vergou o Brasil do Campeonato do Mundo. Quem teve a infeliz missão de defender as redes da canarinha? Precisamente Júlio César. Não é que o guardião tenha sido o culpado do desaire, mas as sequelas irão permanecer para todo o sempre. “É um peso que eu vou carregar, é. Mas, nada apaga o esforço que eu fiz, o trabalho que eu fiz para estar lá. Logicamente que eu sei que o dia em que eu morrer, quando algum jornal anunciar, vai dizer: 'morre Júlio César, o guarda-redes dos 7 a 1'.” Foram estas as palavras de Júlio César a recordar o momento no programa Seleção Sportv.

O triplete com Mourinho no Inter Milão

Foi o Inter Milão que abriu as portas do futebol europeu a Júlio César e o brasileiro agradeceu com um legado no clube italiano que basta observar pelos números: cinco Ligas Italianas, uma Champions, três Taças e quatro Supertaças. O culminar do trajeto nos nerazzurri chegou através do comando do português José Mourinho, em 2009/10. Nessa temporada, o Inter conquistou o triplete (Champions, campeonato e taça), num sonho que foi o “melhor momento” da equipa, nas palavras de Júlio César. “Não somos prisioneiros das lembranças de Mourinho porque antes de ele chegar ao clube vencemos muitos troféus, mas é verdade que o melhor momento do Inter se viveu com ele: cinco títulos consecutivos são algo inesquecível. Mourinho fez história!”, destacou o brasileiro à Gazzetta dello Sport em 2011.

Mourinho e Júlio César a festejarem a conquista da Serie A. Crédito: Daniel Dal Zennaro

Júlio César foi treinado por Mourinho durante duas épocas e o laço que criou com o treinador do Manchester United foi tremendo, mas também conflituoso, por vezes. "Percebi o quão mau perdedor ele é. É um treinador que vive realmente no limite. É mau perdedor e exige muito. Se um jogador não tem uma personalidade forte, pode ter uma quebra de rendimento muito grande porque ele procura sempre a perfeição. Respira futebol 24 horas e consegue passar isso ao grupo. Talvez seja esse o grande segredo dele", reforçou o brasileiro ao Esporte Interativo em 2016. De facto, não foi há muito tempo que o canarinho recordou uma mensagem que o português lhe enviou após a final da Taça das Confederações 2013, na qual Mourinho disse que Júlio César “com um braço defendia mais do que Casillas”, espanhol do FC Porto que foi treinado pelo técnico setubalense no Real Madrid.