Grande Futebol
Hakeem Al-Araibi: um homem no centro do turbilhão e teste à honra da FIFA
2018-12-06 19:00:00
Hakeem Al-Araibi está detido irregularmente e os novos estatutos da FIFA estão agora a ser postos à prova.

Para Hakeem Al-Araibi o pesadelo teve início em 2012. Futebolista profissional no Bahrain, hoje, aos 25 anos, mais do que atleta é um preso político. Um refugiado político, sob o qual recaiu um alerta vermelho da Interpol até há bem pouco tempo e que motivou a detenção de Al-Araibi quando este se encontrava na Tailândia. A história de Al-Araibi remonta a 2012, mas o que levou a ela, obriga-nos a viajar ainda mais no tempo. Em 2012, Al-Araibi chegou-se à frente e corajosamente acusou o governo e as autoridades do Bahrain de detenção ilegal e tortura durante a mesma. Tudo devido ao suposto envolvimento do irmão em causas políticas consideradas "ilegais" pelo governo do país natal.

Al-Araibi fugiu do país. Viajou para a Austrália onde lhe foi reconhecido um visto de refugiado em vigor desde 2014, ano em que foi sentenciado a dez anos de prisão por parte das autoridades do Bahrain por alegadamente ter vandalizado uma esquadra da polícia, acusações que o jovem futebolista recusa. Afinal, segundo o próprio, à hora dos supostos crimes que cometera até estava a jogar um encontro ao serviço do Al-Shabab que, curiosamente, foi televisionado no Bahrain. "Eles vendaram-me. Apertaram-me de forma rígida e um deles começou a bater-me com muita força nas pernas e a gritar-me na cara que nunca mais iria jogar futebol. Vamos destruir o teu futuro", recordou Al-Araibi em entrevista recente ao New York Times.

Perante este pesadelo, Al-Araibi fugiu do país rumo à Austrália em 2014, sendo-lhe concedido o visto de refugiado em 2017, jogando agora futebol ao serviço de um clube semi profissional de Melbourne. Foi numa viagem para a Tailândia onde iria passar uns dias de férias com a mulher que Al-Araibi voltou a ser detido e ainda hoje se encontra aprisionado pelas autoridades de Banguecoque, numa clara ameaça aos direitos humanos, chocando mesmo a comunidade internacional e organizações como a Amnistia Internacional que já ordenou a libertação de Al-Araibi que vai protagonizando um verdadeiro conflito diplomático entre a Austrália, o Bahrain e a Tailândia. A FIFA, essa, que recentemente lançou um novo programa dedicado aos direitos humanos, tarde em agir.

As desavenças entre Al-Araibi e as autoridades do Bahrain, porém, vão ainda mais longe. O futebolista tem sido nos últimos anos uma das vozes mais ativas contra o atual presidente da Confederação Asiática de Futebol, o Sheikh Salman Bin Ibrahim Al-Khalifa, candidato à presidência da FIFA em 2016, exigindo investigações devido ao ataque e tortura feitos a atletas do país durante as manifestações da Primavera Árabe em 2011.

Al-Araibi continua detido pelas autoridades tailandesas e a inoperância da FIFA neste caso, apesar de contraditória face às recentes diretivas da organização relacionadas com os direitos humanos, acaba por não ser totalmente surpreendente e nem precisamos ir pelo caminho económico. Afinal, Sheikh Salman Bin Ibrahim Al-Khalifa é hoje um dos vice presidentes da organização. A FIFA tem assim um caso bicudo nas mãos caso queira evitar ver-se envolvida na repetição da história de Ali Haroon - que tal como Al-Araibi foi um pacífico crítico das políticas governamentais do seu país -, o mais recente extraditado da Tailândia para o Bahrain e que segundo a Amnistia Internacional acabou torturado e severamente agredido ainda antes de ser posto num vôo rumo ao Bahrain.

Apesar da base de na dados da Interpol não constar qualquer mandado de captura internacional em nome de Al-Araibi válido atualmente - ainda para quais quando desde 2015 as diretrizes da organização recusam a emissão de um por parte dos países de onde fugiram depois de lhes ser concedido o estatuto de refugiado como foi o caso de Al-Araibi e a Austrália -, só já depois da detenção a organização se pronunciou sobre caso levantando o alerta vermelho que recaia sobre Al-Araibi e ordenando que as autoridades tailandesas libertassem o jogador, algo que ainda não sucedeu, voltando a colocar a Tailândia, como em várias outras situações, em violações relacionadas com direitos humanos.

Depois de vários anos a jogar futebol, hoje, o desafio de Al-Araibi, é a sobrevivência. Devolvê-lo ao Bahrain seria uma decisão de alguém sem coração, que violaria a obrigação da Tailândia em proteger os refugiados mundiais e seguramente resultaria numa condenação a nível internacional sobre o país asiático, que, verdade se diga, nunca se comprometeu com o acordo assinado internacionalmente em 1951 e ao longo dos anos recentes tem um histórico rico em deportações de refugiados. "A minha vida irá acabar caso regresse ao Bahrain", suplica Al-Araibi.