Grande Futebol
Giuseppe Marotta, o homem que tudo mudou e fez da Juventus grande de novo
2018-12-15 12:00:00
Depois de vários anos em Turim, revolucionando por completo a Juventus, Marotta juntou-se agora ao maior rival. O Inter.

Era uma Juventus muito diferente daquela que hoje passeia na Liga Italiana a Juventus aquela à qual chegou Giuseppe Marotta. O ano era 2010. Após o escândalo de viciação de resultado conhecido como Calciopoli que levou a Juventus para a segunda divisão do futebol italiano, em 2010/11, a Vecchia Signora cumpria a quarta temporada de regresso à primeira divisão italiana. Entre o estar de regresso ao convívio com os grandes italianos e regressar à elite, porém, vai uma distância assinalável mas foi Beppe Marotta quem o conseguiu. Génio astuto dos meandros do mercado de transferências, negociador implacável de provas dadas, Beppe Marotta fez da Juventus grande de novo e, agora, juntou-se ao inimigo para fazer o que melhor sabe. Como Midas. Transformar aquilo em que toca em ouro.

Apesar de um regresso com tudo da Juventus à Serie A após promoção em 2007, com um terceiro e um segundo lugar respetivamente nas duas primeiras temporadas, em 2010 a Juventus era um clube estagnado fruto de um salto nunca dado, de um subir de patamar competitivo que não foi dado e que permitisse à Vecchia Signora regressar aos títulos. Em 2009/10, a Juventus não foi sequer além da sétima posição na Liga Italiana e depois de uma temporada complicada com Ciro Ferrara e Alberto Zaccheroni ao leme do emblema de Turim, chegaram os dois homens que tudo mudaram. Em maio de 2010, Beppe Marotta tornava-se o novo diretor desportivo da Juventus, apontado por Andrea Agnelli que apesar de apenas ter sido oficializado como novo presidente da Juventus em outubro de 2010, já mexia os cordelinhos bem antes disso.

Marotta não era um homem qualquer. Com provas dadas no futebol italiano, esteve na base de algumas das ascensões futebolísticas mais impressionantes do futebol em Itália das últimas décadas e apesar de uma primeira temporada em que sob o comando de Luigi Del Neri, ele mesmo, a Juventus ter voltado a repetir o sétimo lugar na Serie A, o trabalho de Marotta deu frutos quase imediatos. Na primeira temporada completa da dupla Marotta/Agnelli, em 2011/12, a Juventus sagrou-se campeã italiana e alcançou a final da Taça de Itália apenas perdida para o Nápoles. Era o início de uma dinastia, de uma hegemonia que dura até hoje. Em apenas poucos meses, Marotta transformou pedra em Ouro e fez da Juventus grande de novo.

A história de Marotta com o futebol não é nova ou de agora. Na verdade, remonta décadas atrás e é preciso viajar até ao início dos anos 80. Primeiro como diretor do futebol jovem do Varese, em 1978 e a partir da temporada seguinte, como diretor desportivo do mesmo clube. Marotta tinha 21 anos e logo na primeira temporada enquanto diretor desportivo do Varese o clube regressou à Serie B depois de uma passagem pela terceira divisão italiana quando em meados dos anos 70 era mesmo uma equipa primodivisionária. Com Marotta, o Varese estabeleceu-se durante cinco temporadas na segunda divisão italiana, porém, nas duas últimas temporadas com Marotta o clube acabou duplamente despromovido rumo à quarta divisão italiana numa altura em que já atravessava gravíssimos problemas financeiros e que obrigaram mesmo à refundação do clube no início dos anos 2000.

De Varese, Marotta seguiu para Monza, então clube da terceira divisão italiana e que Marotta fez regressar à Serie B pouco depois, competição em que o clube se manteve duas temporadas consecutivas antes do regresso à Serie C. Quatro anos depois, Marotta seguiu para o Como onde ficou três temporadas e depois para o Ravenna onde esteve duas temporadas, ambos clubes de terceira divisão onde acabou por não conseguir ter o impacto que pretendia. Em Veneza, porém, a história foi bem diferente e foi a partir de 1995 que Marotta começou a desenhar o seu estatuto lendário no dirigismo do futebol italiano.

Convidado por Maurizio Zamparini, ele mesmo, o louco de Palermo, em 1995, para assumir a direção das operações futebolísticas do clube da icónica cidade italiana, foi sob a mão de Marotta que o Veneza fez história no futebol italiano. Então clube da segunda divisão italiana e há muito enterrado nas divisões secundárias do país, em apenas três anos Marotta conseguiu o que nenhum outro conseguira em mais de trinta: devolver o Veneza à primeira divisão italiana. A queda do clube à Serie B no final da temporada 1999/2000, porém, colocou um ponto final numa ligação de cinco temporadas de Marotta em Veneza, seguindo-se uma aventura de dois anos em Bergamo, durante os quais a Atalanta terminou a Liga Italiana em sétimo e quinto lugar, respetivamente.

Por esta altura, a fama de Marotta na reconstrução de clubes e elevação dos mesmos a outros patamares futebolísticos era cada vez maior e foi sem surpresa que a Sampdória, recentemente comprada pelo milionário Riccardo Garrone, em 2002, fez chegar ao clube Marotta numa altura em que este atravessava a maior crise desde a sua fundação em 1946. Marotta, chegava à Sampdória depois de um décimo lugar do clube na Serie B, competição onde competia pela terceira temporada consecutiva, algo sem precedentes na história do clube. Era o momento mais negro da história da Samp, mas com os conhecimentos de Marotta e um folga financeira renovada, rapidamente a Sampdória regressou para junto dos grandes italianos. Logo à primeira, a Sampdória alcançou o segundo lugar na Serie B de 2002/03 e assegurou o regresso à Serie A depois de uma verdadeira revolução no plantel orquestrada por Marotta. Tal como em Veneza, pela mão do treinador Walter Novellino.

No regresso à Serie A, a Sampdória terminou logo em oitavo lugar falhando a qualificação europeia por pouco, enquanto Marotta continuava a apetrechar o plantel do emblema de Génova. Em 2004/05, a Sampdória ficou mesmo a um ponto de garantir uma qualificação surpreendente para a Liga dos Campeões terminando a Serie A na sexta posição. A chegada à Taça UEFA, porém, passava a ser um marco na carreira de Marotta: pela primeira vez uma equipa sua alcançava as competições europeias, algo repetido três temporadas mais tarde, em 2008, depois de um 12º e um 9º lugar em 2006 e 2007, com Marotta a fazer chegar ao Luigi Ferraris nomes muito relevantes do futebol italiano como Cassano ou Pazzini, que passaram a formar uma das grandes duplas do futebol transalpino de então. Em 2009/10, atingiu o Olimpo. Com o quarto lugar na Serie A, a Sampdoria regressava à Liga dos Campeões.

A impressionante reconstrução da Sampdória pela mão de Marotta abriu as portas da Juventus ao dirigente italiano. Se Marotta havia conseguido fazer da Samp grande de novo, como não conseguiria em Turim? O histórico estava do lado de Marotta e o lendário diretor desportivo não falhou. Apesar de uma primeira temporada em que a Juventus fez sétimo lugar na Serie A, o pior desde que regressara após o escândalo Calciopoli, foi à segunda temporada com Marotta, a primeira com Agnelli e Marotta, que a Juventus se voltou a sagrar campeão italiano. Pela mão de Antonio Conte, uma aposta de risco de Marotta, mas sinal do seu vanguardismo. Quando poucos o viam e quando muitos consideravam Conte um homem inexperiente e sem estaleca para pegar num clube como a Juventus, já Marotta via um dos melhores do Mundo na sua função.

Marotta nunca teve medo de tomar decisões aparentemente impopulares. Assim que chegou, tratou de revolucionar o plantel, da Vecchia Signora, deixou cair onze jogadores, entre eles Trezeguet ou Diego, contra a vontade dos adeptos e fez chegar a Turim nada menos do que 14 novos homens logo na primeira temporada no clube. Os frutos demoraram meses até poderem ser colhidos, mas não só a Juventus regressou aos títulos em pouco tempo, como Marotta tinha lançado as bases do que viria a ser uma hegemonia sem precedentes e uma dinastia como poucas na história do futebol mundial.

Foi o trabalho astuto de Marotta no mercado de transferências que concedeu ao dirigente italiano o estatuto lendário que o levou a que em 2014 fosse indiciado para o Quadro de Honra do futebol italiano. Nomes como Pirlo, Pogba, Arturo Vidal, Coman ou Tévez, chegaram ao clube de Turim ora em transferências livres, ora a preços reduzidos. Vidal, por exemplo, custou pouco mais de dez milhões de Euros à Juventus. Khedira, Llorente e Emre Can, são outros dos nomes que Marotta convenceu a ingressar na Juventus depois de terminarem contrato com os seus anteriores clubes.

Em apenas cinco anos, Marotta permitiu que a Juventus regressasse a uma final Europeia, perdida para o Barcelona, é certo, mas cujo onze inicial da Juventus era um verdadeiro caso de estudo. Era a obra prima de Marotta. Lichsteiner tinha custado dez milhões de Euros tal como Vidal, Bonucci quinze, Barzagli menos de meio milhão, Evra um par deles, Pirlo e Pogba nada custaram em valores de transferência, Buffon e Marchisio já por lá andavam, Tévez não chegou aos dez milhões e só Morata, no meio disto tudo, foi um investimento milionário ainda que os vinte milhões de Euros que custou à Juventus na altura, sejam hoje vistos como uma pechincha. Depois disso, Morata regressou ao Real Madrid por mais dez milhões e acabou no Chelsea pouco depois por mais de sessenta milhões.

Agora, depois de fazer da Juventus grande de novo, ter levado a Vecchia Signora à final da Champions com um plantel de tostões, e ter lançado as bases de uma hegemonia e de uma dinastia sem precedentes no futebol italiano, rumou ao Inter. O grande rival, culpa de uma divergência com a restante direção que decidiu mudar de forma quase total a forma de trabalhar e o modelo de negócio da Juventus nos últimos tempos. Na imprensa italiana diz-se mesmo que Marotta foi um irredutível opositor à contratação de Cristiano Ronaldo, algo que não surpreende dado o histórico de Marotta.

E quanto precisa o Inter de um homem como ele. Arredado do título italiano há vários anos e acumulando erros de casting no mercado, Marotta parece ser neste momento o maior adversário da Juventus e o homem que mais pode ameaçar o fim da hegemonia. Para bem do futebol italiano. Para Marotta, é hora de fazer do Inter grande de novo.

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