Grande Futebol
Gian Piero Ventura: uma queda com estrondo durante o período áureo da carreira
João Pedro Cordeiro
2017-11-13 23:30:00
Ventura fez história pela negativa ao falhar a qualificação para o Rússia 2018 e logo durante a melhor fase da carreira.

Calmo, experiente, tradicional. Porventura, até demais. Defensor do futebol positivo e ofensivo. Em junho de 2016 Itália surpreendeu. Depois de um par de anos bem-sucedidos sob o comando técnico de Antonio Conte, bandeira principal da nova vaga de técnicos italianos, que culminou com a presença de Itália nos quartos de final do Europeu 2016 com queda perante a Alemanha apenas nos quartos de final, Itália rompeu com o vanguardismo/modernismo e contratou Gian Piero Ventura como novo técnico principal da Squadra Azzurra. Aos 68 anos, Ventura chegou à cadeira de sonho para que a mesma se tornasse um pesadelo meses mais tarde. Perante a Suécia, em pleno San Siro, Itália ficou fora de um Campeonato do Mundo pela primeira vez em 60 anos, logo quando a carreira de Gian Piero Ventura parecia atingir o seu auge. 

Hoje, de nada vale o histórico italiano no palco milanês. Em quase 50 jogos disputados no Giuseppe Meazza, nunca Itália perdeu. O empate perante a Suécia, porém, sabe a derrota. Itália está fora de um Mundial pela primeira vez em 60 anos (a última vez que aconteceu, ironia das ironias, foi em 1958 no torneio organizado pela... Suécia) e logo numa altura em que a carreira de Gian Piero Ventura atingia o pináculo. Depois de anos de mediania e trabalhos discretos – com ligeira exceção à primeira temporada em Bari -, tudo mudou em 2011 com a chegada a Turim. Ao serviço do Torino, não só retirou o histórico italiano da segunda divisão italiana, como colocou o Toro nas competições europeias pela primeira vez em mais de duas décadas. Um período que valeu a Gian Piero Ventura a chegada à seleção italiana.

Substituir Antonio Conte não foi situação inédita para Gian Piero Ventura. Contudo, da primeira vez que tal ocorreu para o experiente técnico genovês, as memórias deixadas foram claramente mais positivas. Ventura foi o homem escolhido para suceder a Antonio Conte em Bari, em 2009, quando o atual técnico do Chelsea abandonou o clube para romar a Bergamo e à Atalanta. Antonio Conte tinha acabado de subir a AS Bari à Serie A após vencer a Serie B e talvez alavancada por tal feito, a equipa de Bari foi uma das revelações do campeonato italiano em 2009/2010 ao terminar a época em 10º lugar logo na primeira temporada de Ventura ao comando dos Galos. Em Bari, Ventura fez história. Os 50 pontos alcançados pela equipa em 09/10 foram um recorde para o clube na primeira divisão italiana. No futebol, porém, tudo muda em poucas semanas. Com o Bari instalado na última posição da Serie A de 2010/11 em fevereiro, Ventura abandonou o clube que acabou despromovido no final dessa temporada. Se em Bari Ventura atingiu um ponto alto da sua carreira, os meses que se seguiram em Turim estabeleceram-se como os mais importantes da mesma. Uma campanha de alto nível ao serviço do Toro que culminou com a chegada à seleção italiana. 

Após a saída de Bari, Gian Piero Ventura não demorou muito a encontrar novo desafio. O chamamento chegou de um histórico italiano e a partir do verão de 2011 tornou-se treinador do Torino. "Poderia estar a treinar uma equipa do meio da tabela na Serie A, mas o tentar fazer regressar ao Torino ao convívio dos grandes é a verdadeira libido", referiu na altura. Se hoje o clube de Turim é um clube bem sólido na principal divisão italiana, em 2011 a história era bem diferente. E se, hoje, o Torino é um emblema consolidado na Serie A, em muito se deve a Ventura. Ventura revolucionou o Torino – que cumpria na altura a terceira temporada consecutiva na Serie B - e logo à primeira temporada pelo clube Granata, Ventura alcançou a promoção. Só o Pescara de Zdenek Zeman fez melhor, equipa na qual pontuavam nomes como Insigne, Verratti ou Immobile - com quem Ventura contracenou mais tarde em Turim.  

O regresso à primeira divisão não foi fácil para Ventura ou para o Torino, mas a manutenção permitiu a Ventura voltar a reescrever história na temporada seguinte. Depois do 16º lugar alcançado em 2012/13, Ventura comandou o Torino à melhor temporada do clube de Turim desde o início dos anos 90, fazendo o Toro regressar às competições europeias mais de 20 anos depois – o Torino terminou em 7º, a melhor classificação da carreira de Ventura em posição e pontos, mas beneficiou da não atribuição de uma licença europeia ao Parma, sexto classificado -. A carreira de Ventura atingiu, também ela, o topo. Depois de trazer o Torino de volta ao convívio com os grandes de Itália, o histórico emblema italiano tornou-se uma das equipas mais competitivas da Serie A. Consolidados na primeira divisão, não mais o Torino lutou de novo pela manutenção, sendo mesmo uma presença constante no Top-10 italiano desde que Ventura retornou o emblema de Turim à Serie A. Em cinco temporadas ao comando técnico do Torino, Ventura levou o emblema Granata a vitórias históricas perante o Athletic Bilbau – tornando o Torino na primeira equipa italiana a vencer em Bilbau, chegando mesmo aos quartos de final da Liga Europa -, bem como à primeira vitória do Toro no Derby della Mole (dérbi de Turim) em 20 anos. Em dezembro de 2015, tornou-se ainda no treinador com mais jogos consecutivos à frente do Torino. 

O trabalho alcançado por Gian Piero Ventura em Turim foi meritório, mas terá sido, porventura, a capacidade do experiente técnico italiano em elevar o rendimento desportivo de jovens jogadores que mais convenceu a seleção italiana. Foi sob o comando técnico de Ventura que nomes como Bonucci (que em 2016 definiu Ventura como um grande motivador e um excelente técnico a treinar jovens jogadores) e Andrea Rannocchia chegaram à seleção italiana (então na primeira temporada de Ventura por Bari), tendo sido o mesmo Ventura que reabilitou a carreira de Alessio Cerci, bem como deu a conhecer Ciro Immobile ou Andrea Belotti ao futebol - de Belotti afirmou mesmo vir a ser um fracasso seu se o avançado italiano não acabasse sendo convocado à seleção italiana. Sob o comando técnico de Ventura, nomes como Matteo Darmian, Kamil Glik, Davide Zappacosta, Ciro Immobile, Alessio Cerci, Angelo Ogbonna ou mesmo Danilo D'Ambrosio, atingiram um nível tão elevado que valeram transferências milionárias ao emblema de Turim.  

"Seria capaz de treinar de graça um clube durante um ano só para poder ter uma experiência da Liga espanhola" afirmou em tempos Gian Piero Ventura que tem em Guardiola um exemplo a seguir. Depois da eliminação no play-off de acesso ao Rússia 2018, o futuro de Ventura poderá muito bem passar por aí. Poucas horas depois do empate frente à Suécia, é já forte a pressão exigindo a demissão do genovês que, aos 68 anos, se havia definido como o técnico mais velho a tomar conta da seleção italiana desde 1974. Ventura acompanhou a Itália e caiu com estrondo. Uma queda que chega, para o experiente técnico italiano, meses após novo casamento e, mais que isso, numa fase em que a carreira de Ventura ganhou um crédito que até então não conhecera.  

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