Grande Futebol
Falcioni, o Imperador. O terror de Maradona que quase perdeu a voz
2018-12-07 18:35:00
Depois de vários meses a debater-se com graves problemas de saúde, Falcioni despediu-se do futebol.

Dizem que há sempre uma primeira vez para tudo e, para Maradona, aquela tarde no bairro de Liniers, casa do Vélez Sarsfield, terá sido uma delas. A memória não alcança outra como aquela, tivesse sido antes, tivesse sido depois. Naquela tarde, a mão de Deus foi de Falcioni que, ainda hoje, é recordado por ela, independentemente de tudo o resto que tivesse feito na carreira desde então. Afinal, não é todos os dias que se defendem duas grandes penalidades no mesmo jogo aquele que, para muitos, é o Deus do futebol e o melhor jogador da história do jogo. Foi por ele, muito por ele, que o Vélez venceu o Argentinos Juniors por 1-0 naquela tarde no bairro de Liniers.
"É incrível. Os anos passam e surge sempre alguém que me recorda daquele momento: 'tu defendeste duas grandes penalidades a Maradona no mesmo jogo!'. Enche-me de orgulho, ainda que não goste de andar a exibi-lo como um troféu. Sou uma pessoa de perfil discreto, um pouco envergonhado e tímido, até".

Júlio César Falcioni. Facha. Pelusa. El Emperador. Sob graves problemas de saúde que quase o levaram a perder a voz e a surgir no banco de suplentes com um megafone de forma a conseguir passar as suas instruções aos jogadores, o antigo guarda redes internacional argentino abandonou o futebol obrigado. Era, desde 2016, treinador do Banfield, naquela que foi a terceira passagem pelo comando técnico d'El Taladro ao longo da carreira, clube que levou ao título argentino no Apertura 2009. O primeiro de três títulos conquistados na carreira enquanto treinador. Os outros dois? Ao comando do Boca, em 2011 e em 2012.

O futebol e a vida têm destas ironias. Se em 1980 Falcioni defendeu duas grandes penalidades num jogo frente ao Argentinos Juniors de Maradona, em 2018 foi após um Banfield-Argentinos, 0-1, que Falcioni abandonou o comando técnico do clube. Não será o fim de Falcioni no futebol, porém, com um comunicado do Banfield a dar conta das negociações que decorrem para que Falcioni assuma uma posição na estrutura diretiva do clube, porém, dificilmente El Emperador, el Gato, como ficou conhecido na Colômbia, dificilmente voltará a treinar.




A guerra de Falcioni dura desde o final do ano passado e teve mais uma batalha nos últimos dias depois de ter sido operado novamente à garganta para retirar um nódolo que lá surgiu. Isto, depois de ter sido diagnosticado no final de 2017 com um cancro na laringe e que quase retirou a voz ao lendário guarda redes argentino. O que inicialmente era uma intervenção para durar três horas foi uma maratona de dez, com o período de recuperação hospitalar a estender-se de um dia, para nove nos cuidados intensivos.

"Eu fiz alguns exames para uma disfonia que tinha já há algum tempo. Disseram-me que tinha apenas alguns nódulos e à partida era uma operação bastante simples. Contudo, quando os médicos me estavam a operar encontraram uma situação muito diferente", recordou Falcioni no início do ano. A vida do antigo guarda redes não mais foi a mesma. Durante meses teve de reaprender a respirar e a comer, tendo sido privado de muita coisa após a operação. Hoje, confessa, já não sente falta de uma que o acompanhava desde os 16 anos: o tabaco.

Durante meses, Falcioni dividiu os relvados de treino no Banfield com sessões de quimioterapia, algo que serviu até de inspiração aos próprios jogadores como recorda Dario Cvitanich. "Conheço o Julio há 17 anos. É uma pessoa muito importante para mim, já para não falar do que representa para este clube. Assustou-nos, mas deixou-nos inspirados pela sua garra durante a luta contra o cancro. É surpreendente ver que faz as suas sessões de quimioterapia e logo a seguir vem trabalhar connosco. Isso é algo que nos dá muita força para respondermos de outra forma dentro de campo", atira o goleador.

Foi na Argentina que Falcioni se deu a conhecer, mas acabou por ser na Colômbia que atingiu estatuto lendário ao serviço do América Cali, transferência agridoce para El Gato, como passou a ser conhecido, devido ao seu estilo... felino. Apesar das exibições ao serviço do América reconhecerem hoje Falcioni como um dos melhores guarda redes da história do futebol colombiano, o pouco interesse recolhido por este na Argentina impossibilitou que Falcioni fosse convocado para os Mundiais de 1982 ou 1986 como certamente o seu percurso futebolístico justificava. Foi somente em 1990 que finalmente foi convocado para um Campeonato do Mundo, numa altura em que regressara ao país para representar o Gimnasia La Plata e surgir na seleção argentina pela mão de Bilardo.

Na Colômbia, porém, Falcioni praticamente tocou o céu, ajudando o América Cali a vencer um inédito penta campeonato entre 1982 e 1986, período durante o qual ficou também muito perto de se sagrar campeão continental tendo acabado por perder três finais da Copa Libertadores, em 85, 86 e 87. Três das quatro Libertadores perdidas por Falcioni que, em 2012, ao comando do Boca Juniors, voltou a ser derrotado na final da competição. Pelo Boca, Falcioni não conseguiu matar o borrego mas a passagem pelo comando dos Xeneizes foi histórica. O título conquistado pelo Boca, no Apertura 2011, foi conseguido sem qualquer derrota, e o seu Boca esteve mesmo 33 jogos consecutivos sem perder qualquer jogo, algo apenas igualado por Bianchi em toda a história do emblema de Buenos Aires.

As duas grandes penalidades defendidas por Falcioni a Maradona, em 1980, talvez não tenham sido as mais importantes da carreira do antigo internacional argentino que, também na Colômbia, se especializou em marcá-las, um momento pioneiro, já que não havia registo de tal coisa no país sul americano. Ainda hoje, Falcioni é o guarda redes com mais golos na história do clube de Cali. Em 1987, porém, na última jornada do campeonato colombiano e com uma qualificação para a Libertadores em disputa, Falcioni fez-se herói no duelo entre Nacional e América, naquele que foi um dos mais icónicos duelos entre os rivais de Cali. Falcioni voltou a defender duas grandes penalidades num só jogo e o América venceu o jogo por 1-0, tal como o Vélez anos antes, atirando o Nacional para a terceira posição e o América para a maior prova de clubes da América do Sul. Uma atuação recordada como heróica e milagrosa.


Depois de vários meses a lutar contra uma doença grave, em 2018, Falcioni quase perdeu a voz tendo surgido sentado no banco do Banfield munido de um megafone. Nos últimos dias voltou a ser operado a uma infecção na garganta e os problemas de saúde finalmente obrigaram El Emperador a deixar o futebol. Enquanto técnico, pelo menos, com o futuro do antigo jogador e treinador a poder passar agora pelo escritório do Banfield onde fará o pleno de funções no futebol. Foi no campo, porém, que Falcioni se agigantou e aquela tarde em Liniers será para sempre recordada como uma exibição de antologia.

"Um tempo depois, quando encontrei Maradona num treino da seleção, já na Era de Bilardo, Diego disse-me: 'recordas-te daquele jogo em que me defendeste duas grandes penalidades no mesmo jogo?'. A resposta ainda a tenho guardada na memória: 'Claro que me lembro. Tu talvez o possas esquecer um dia, mas eu nunca o esquecerei'. Esses dois penáltis são aquilo que um dia contarei, mais do que qualquer coisa, ao meu neto que hoje tem um ano. São os momentos com que sempre sonhaste. Os mais importantes de todos", recorda o homem para quem os guarda redes são a posição mais importante numa equipa de futebol.

Afinal, "se tens um bom guarda redes e uma boa equipa, tens uma grande equipa. Agora, se tens uma boa equipa e um mau guarda redes, tens uma má equipa pois tudo o que de bom possa fazer a tua equipa, atira-o ao lixo um mau guarda redes". Falcioni. O gato. O terror de Maradona que quase perdeu a voz.

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