Grande Futebol
Diário de um jornalista no Mundial (15)
Mauro
2018-06-29 13:00:00
António Tadeia vai publicar todos os dias uma entrada neste diário, sempre pelas 13h

Os últimos minutos do Polónia-Japão, com os japoneses a trocarem a bola no seu meio-campo, a segurar uma derrota por 1-0 que, mantendo-se tudo igual no Colômbia-Senegal, lhes valia a qualificação através do critério de fair-play (dois cartões amarelos a menos que os senegaleses), foram apontados como uma vergonha ao nível do RFA-Áustria de 1982 e fizeram cair o rótulo de farsa sobre o Mundial. Claramente um exagero. Que o Inglaterra-Bélgica da noite se apressou a passar para segundo plano.

A história é bem simples. A perder por 1-0 com a Polónia, que já estava fora, o Japão sabia que se apurava desde que: não visse mais amarelos, os polacos não fizessem mais golos e o Senegal não empatasse o jogo com a Colômbia. Feitas as contas, o selecionador japonês mandou para o campo o seu capitão de equipa e deu-lhe ordens para aguentar a bola. Não vou dizer sem um pingo de vergonha, porque o próprio Akira Nishino veio no final do jogo reconhecer que o que se passou foi “ligeiramente lamentável”. É uma curiosa associação de palavras, que permite entender que estamos a caminhar sobre gelo fino em qualquer apreciação que façamos deste caso.

Uma ação pode ser ligeiramente negativa ou absolutamente lamentável. Mas ligeiramente lamentável é que não. Pessoalmente acho que foi ligeiramente negativa. E se está aí a acusar-me de branquear dez minutos de não-futebol, lembre-se do que pensou quando António Oliveira não quis saber o resultado do Polónia-Estados Unidos, em 2002: a equipa portuguesa não sabia que o empate com a Coreia apurava os dois conjuntos e partiu para a agressão – tanto no sentido futebolístico como como no sentido literal.

O Japão jogou com as regras. O futebol jogado nos últimos dez minutos, sim, foi absolutamente lamentável, a estratégia definida por Nishino tem de ser aceite. Porque seria condenada se de repente o Senegal marcasse e o Japão acabasse penalizado por não ter querido ir em busca de um golo que lhe garantisse o apuramento, com o risco de sofrer outro que o eliminasse. Nestas coisas há tanto em jogo que não dá para pensar de outro modo. Aliás, quem viu o Inglaterra-Bélgica, à noite, viu duas equipas com muitas segundas escolhas, é verdade, mas em busca da vitória, deitando por terra as teorias segundo as quais o jogo ia dar “porrada de criar bicho”, pois os dois estavam empatados e, se persistisse o nulo, quem visse mais cartões amarelos acabava em segundo lugar e garantia a metade mais fácil do quadro. Não foi assim. E desenganem-se os que acham que foi por romantismo. Não foi. É que tanto a Bélgica como a Inglaterra preferiam jogar os oitavos-de-final com o Japão e não com a bem mais forte Colômbia. A ponto de lhes ser mais ou menos indiferente se a seguir, no jogo dos quartos, lhe tocaria o Brasil. Isto é um dia de cada vez.

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