Grande Futebol
As finais de Portugal (I): A arte de Chalana e a frieza de Jordão
António José Oliveira
2017-10-09 17:00:00
"Ficámos alagadinhos de emoção", recorda Eurico Gomes, titular da Seleção Nacional na vitória por 1-0 obtida na Luz

Estádio da Luz, 13 de novembro de 1983. Portugal precisava de ganhar à poderosa União Soviética de Dasaev, Demyanenko, Blokhin e companhia para conquistar um lugar ao sol. Chalana inicia um lance de um para um a meio da zona intermediária adversária, rasga a defensiva pelo corredor central e só é parado em falta. O árbitro francês Georges Konrath não hesita e aponta para a marca de penálti. Decorria o minuto 44 quando Jordão é chamado para a conversão do castigo máximo. Com o país em suspenso, o ponta-de-lança atira para a direita e o lendário guarda-redes da URSS voa para o lado contrário. Estava feito o golo numa memorável tarde de chuva que ainda hoje é recordada com emoção.

"Ficámos alagadinhos de emoção, nós, os jogadores, e o povo português", lembra Eurico Gomes, com orgulho, lembrando as semelhanças entre a situação da altura e a de agora. "Tínhamos não só de ganhar à União Soviética, mas também à Polónia, tal como agora sucede. É preciso ganhar à Suíça, mas também era necessário vencer em Andorra. Tal como a Suíça, a União Soviética era líder e só a vitória servia a Portugal. E tal como agora sucede, o jogo decisivo também foi no Estádio da Luz."

O triunfo sobre a temível União Soviética resultou numa "sensação única", como testemunha o antigo defesa-central da Seleção Nacional, único jogador bi-campeão nacional por Benfica, Sporting e FC Porto. "Tal como amanhã sucede, o jogo disputou-se no Estádio da Luz, num dia de chuva com cerca de 120 mil pessoas no estádio. O povo estava muito mais unido, pois até as escadas estavam cheias de pessoas, num ambiente espetacular."

Eurico Gomes recorda a importância não só do jogo com a URSS, mas também do tal desafio na Polónia. "Se agora era importante ganhar em Andorra, na altura era o mesmo na Polónia", lembra, contando uma história curiosa. "O Carlos Manuel marcou o golo da vitória e já depois de estarmos a vencer, para evitar o 1-1, parti uma caneleira. Num lance entre o Bento e o Lato podia ter interferido mas não o fiz porque senti concentração máxima por parte do Bento, que foi à 'mancha'. Só que a bola acabou por ressaltar e o Lato ficou com ela. Foi então que fiz um 'carrinho' para evitar o golo e ao fazê-lo bati com a caneleira no poste esquerdo." O lance revelou-se decisivo e acabou por ficar para sempre na memória de Eurico. E a caneleira ficou guardada religiosamente.

"A força interior era muito forte e depois fizemos um Europeu histórico", enfatiza Eurico, que espera que Portugal tenha no mesmo espírito para levar de vencida a Suíça. "Tem tudo para dar certo. Se fosse lá, certamente que seria mais difícil, mas jogando cá, no Estádio da Luz, num ambiente favorável, temos tudo para ganhar. Com uma ressalvazinha: a Seleção Nacional ainda não fez dois/três jogos com o mesmo nível de qualidade. Para ganharmos à Suíça, temos de fazer um jogo a roçar a perfeição." No fundo, a mesma perfeição evidenciada por Chalana e, depois, por Jordão, no lance que em 1983 deu a vitória a Portugal frente à União Soviética. "Tive plena confiança no golo até por saber que seria Jordão a marcar o penálti. Joguei com ele no Benfica, no Sporting e na Seleção Nacional, também fomos antagónicos, e conhecia bem as suas qualidades e o seu talento. Jordão era enorme em termos técnicos, mas era também um glaciar. As emoções dele eram muitos interiores. Não se perturbava e nestas alturas era extremamente frio."

Eurico Gomes não esquece também Chalana, uma espécie de Cristiano Ronaldo da altura. "Contrariando um pouco os princípios físicos e clínicos, o Chalana, que vinha de uma lesão, acabou por jogar. E em boa hora o fez pois teve aquela jogada genial. Sentindo que já não tinha força, para mais depois de galgar tantos metros num campo difícil devido à chuva, sentiu o contacto, aguentou a carga, e acabou por cair já com o jogador da União Soviética sobre a linha de grande área, num lance muito difícil de ajuizar e que ainda hoje divide opiniões."

Data: 13 de Novembro de 1983

Local: Estádio da Luz

Constituição das equipas

Portugal: Bento; João Pinto, Lima Pereira, Eurico e Inácio; Carlos Manuel; Jaime Pacheco, José Luís e Chalana (Shéu, 79'); Gomes e Jordão (Diamantino, 75'). Treinador: Fernando Cabrita.

União Soviética: Dasaev; Borovksiy; Chivadze, Demyanenko e Baltacha; Bal, Rodionov (Yevtushenko, 70'), Sulakvelidze e Gavrilov (Oganesyan, 60'); Cherenkov e Blokhin. Treinador: Valeriy Lobanovskiy.

1-0, Jordão (44, de penálti)

 

 

 

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