Grande Futebol
A "Rooneyzação" de Harry Kane é cada vez mais real
2018-10-18 18:45:00
Tal como Wayne Rooney, a versatilidade de Harry Kane tem afastado o goleador inglês das balizas adversárias.

Sevilha, Estádio Benito Villamarín, outubro de 2018. Numa primeira parte de luxo e que muitos consideraram ter sido uma das melhores performances da história da seleção inglesa, os Três Leões de Gareth Southgate saem para intervalo a vencer a Espanha por 3-0. A Espanha! Uma seleção que não perdia um jogo oficial em casa desde... 2003, altura em que a Grécia foi a Saragoça, ao La Romareda, derrotar a Espanha por um zero durante a fase de qualificação para o Europeu de 2004 disputado em Portugal. Desde então, dezenas de jogos se passaram sem que a Espanha, excetuando jogos particulares, tivesse perdido em casa. Harry Kane, com duas assistências, foi uma das figuras do encontro.

Com seis golos em dez jogos pelo Tottenham, mas nenhum em quatro jogos pela seleção inglesa esta temporada, muito se discute acerca da “seca de golos” do avançado inglês. Terá a fonte secado? Mesmo que o internacional inglês mantenha uma média de um golo a cada 150 minutos? Ou seja, uma média de um golo a menos de cada dois jogos? Não. As notícias da morte de Harry Kane enquanto goleador, já dizia Mark Twain, são manifestamente exageradas. Podemos, sim, falar de uma Rooneyzação de Harry Kane. Isso sim. Apesar do registo goleador, Harry Kane é cada vez menos, somente um grande goleador.

Há quem diga que foi a versatilidade que “matou” Wayne Rooney. Nascido em Craven Cottage como um dos melhores avançados do país da sua geração, a capacidade e visão de jogo mostrada por Rooney, aliada a uma quase inumana capacidade física, fizeram de Wayne Rooney, durante muitos anos, um dos melhores jogadores do Mundo da sua geração. À medida que a carreira de Wayne Rooney avançou, porém, o outrora avançado tornou-se cada vez mais um todo o terreno. Wayne Rooney afastou-se das balizas à medida que a carreira avançou e, para muitos, isso acabou por ser a sua morte futebolística.

Frente a Espanha, Harry Kane não marcou qualquer golo. Foi decisivo, porém, na vitória inglesa perante a Espanha com duas assistências, permitindo que Rashford e Sterling colocassem um histórico 3-0 no marcador ainda antes de estarem cumpridos 40 minutos de jogo. Até então, Harry Kane tinha apenas três toques na bola dados dentro da área adversária, tendo terminado o encontro com apenas dois a mais. Em 90 minutos de jogo, Harry Kane tocou a bola na área adversária apenas em cinco ocasiões, com a esmagadora maioria dos toques dados pelo avançado inglês a surgirem longe da baliza e em redor do círculo de meio campo.

É certo que frente à Espanha Harry Kane até foi o jogador inglês que mais bolas tocou na área adversária, porém, se compararmos com aquilo que os avançados espanhóis fizeram, quer Asensio, quer Rodrigo, quer Aspas, se percebe o quão longe Harry Kane passou da baliza adversária e que deviam ser os seus terrenos como se de Alan Shearer se trasse. Asensio tocou a bola na área inglesa por doze vezes, Aspas por seis vezes e Rodrigo, que tocou metade das vezes na bola em relação a Kane, teve tantos toques na bola na área adversária quanto Harry Kane.

Esta é, aliás, uma tendência muito particular do jogo de Harry Kane esta temporada ao ponto de, no encontro frente ao Inter Milão a contar para a fase de grupos da Liga dos Campeões, que terminou com a vitória italiana por 2-1 no tempo de compensação, Harry Kane ter terminado o encontro sem qualquer remate efetuado, fosse ou não enquadrado com a baliza. Ao serviço do Tottenham, a questão parece mesmo ser estratégica com Harry Kane a partir de posições mais ofensivas para arrastar a linha defensiva contrária, abrindo caminho para a exploração do espaço por parte de Dele Alli, Son e Lucas, pisando terrenos mais próximos do círculo central e mais afastados da baliza adversária.

A definição torna-se mais coletiva, mas o impacto direto de Harry Kane nos resultados parece diminuir. Estatisticamente apenas, já que a abertura de espaço não é possível ser quantificada. Ainda assim, um Harry Kane mais longe das balizas parece estar a ressentir-se na capacidade do Tottenham em marcar golos. A equipa de White Hart Lane é somente o sexto melhor ataque da Premier League por esta altura - até o Bournemouth tem mais golos marcados -, sofrendo o conjunto de Pochettino em não ter um verdadeiro goleador na equipa perante o afastamento de Kane da baliza adversária.

Mais do que nunca, Harry Kane está em 2018/19 a emular o estilo de jogo dos seus grandes ídolos e dos quais herdou uma camisola mítica do futebol inglês. O #10 do Tottenham, vestido por nomes como Jimmy Greaves, Glenn Hoddle ou Teddy Sheringham, este último, o grande ídolo de Harry Kane e que tal como o capitão inglês, fazia da posição de “trequartista” o seu Mundo. E, também por aí, se percebe o que Harry Kane entende de si enquanto jogador: muito mais do que um simples goleador. Muito mais do que a reencarnação londrina de Alan Shearer.

Em 2018/19, Harry Kane leva seis golos em dez jogos pelo Tottenham e mesmo a jogar mais longe da baliza, tem apenas um golo a menos esta temporada do que aqueles que havia conseguido marcar na temporada passada. Em Inglaterra, diz quem com ele convive que Harry Kane está convicto de ser um jogador melhor enquanto #10, do que aquilo que pode ser enquanto #9, mesmo que desde Alan Shearer Inglaterra não tenha um avançado tão goleador, tão mortífero e tão letal quanto Harry Kane. Deverá temer-se por uma Rooneyzação de Harry Kane? Será este afastamento da área e baliza adversária a ruína de um dos maiores goladores da atual geração?