Grande Futebol
A FIFA prometeu lutar contra a corrupção. Agora parece ter desistido
2018-08-15 17:20:00
Recente alteração ao código de honra revela pormenores alarmantes na luta, ou falta dela, contra a corrupção diz a AP.

Se tiver uma federação de futebol e estiver a pensar subornar a FIFA por alguma razão em particular, este é o momento certo. Pelo menos, é essa a mensagem que a organização que tutela o futebol Mundial parece querer passar depois de reescrito os estatutos da organização, o seu código de conduta e alguns dos pontos relativos a matérias de corrupção no seu regulamento disciplinar. A partir de agora, se subornar a FIFA, só tem de conseguir manter o suborno secreto durante dez anos que a partir daí já nada lhe pode acontecer.

Gianni Infantino chegou à presidência da FIFA em fevereiro de 2016 e com ele chegaram promessas da limpeza na organização que tutela o futebol Mundial. Mais do que qualquer outro objetivo, o grande ponto de Infantino na FIFA foi desde logo a credibilização de uma instituição que saíra gravemente prejudicada na sua imagem após a governação de Sepp Blatter e todos os casos de corrupção que envolveram a FIFA que levaram mesmo Infantino a categorizar a FIFA de “clinicamente morta”. Durante meses a luta da organização foi a luta contra a corrupção, mas como diz o povo quando a esmola é grande... Agora, depois de várias reuniões das altas instâncias da FIFA, surgiram as primeiras grandes alterações ao código de conduta da organização.

Infantino fez um trabalho tão bom na FIFA nos últimos dois anos que erradicou por completo a corrupção na instituição. Note-se a ironia. A verdade, é que analisando o código de conduta recentemente reescrito pela organização, a verdade é que em lado algum surge qualquer referência à palavra corrupção. Como magia, a corrupção desapareceu por completo para a FIFA. Além disso, nos mesmos, passa a ser possível perceber quanto tempo é preciso ter cuidado com possíveis actos de corrupção, ficando a saber, quem quiser corromper ou ser corrupto, que apenas terá de ser especialmente cauteloso durante dez anos. A partir daí, tudo prescreve. E se Infantino vem sendo acusado de tirania afastando todos aqueles que discordam de si, a partir de agora tal tornou-se ainda mais fácil.

Pela primeira vez no código de conduta da organização que tutela o futebol Mundial a “difamação” passa a ser punível pelo mesmo. O pior, é que não estando especificado o que confere a determinada declaração o estatuto difamatório, a avaliação irá ficar a cargo do comité de ética da organização conforma alerta Rob Harris da Associated Press que analisou detalhadamente os novos estatutos da FIFA e chegou a conclusões alarmantes. “Todos aqueles que estão sob a alçada do código de conduta da FIFA estão proibidos de tecer qualquer declaração pública de natureza difamatória para a FIFA ou qualquer outro indivíduo também afetado pelo mesmo código”, pode ler-se no ponto 22.2 dos novos estatutos.

Todos aqueles que o fizerem, ou forem considerados culpados de, irão ser banidos de todas as atividades relacionadas com o futebol durante dois anos, podendo mesmo a sanção ascender aos cinco anos para casos de reincidência. A vaguidão do artigo, remetendo tal avaliação para o comité de honra da FIFA, porém, não augura nada de bom ou positivo e parece facilitar a vida da FIFA e Infantino em situações desconfortáveis para a organização, facilitando a expulsão daqueles que não concordarem com algum tipo de medida tomada pela instituição.

"O artigo do código com respeito a difamação não está lá apenas para proteger a FIFA, mas também para proteger qualquer outra pessoa coberta pelo código que possa ser submetida a declarações difamatórias ou discriminatórias no contexto de eventos da FIFA", justificou a organização.

"A FIFA não está preparada para ter instrumentos de escrutínio independente"

“Isto irá fazer diminuir qualquer tipo de criticismo, seja ele justificado ou não, o que é provavelmente o que a FIFA espera com estas alterações”, assinalou à AP Alexandra Wrage antiga membra do comité governativo da FIFA e especialistas em casos de anti corrupção. “Enquanto organizações bem dirigidas encorajam a transparência e encorajam que todas as pessoas se adiantem caso tenham algum tipo de preocupação, a FIFA toma uma posição autoritária e exige que todos se mantenham quietos e calados. A difamação exige um depoimento falso e a FIFA ainda terá de provar que algum tipo de crítica seja falso, mas o valor real para a FIFA em tudo isto é o efeito anabolizante que pode ter em todos os seus críticos”.

Alarmante é também o facto do crime de corrupção, para o qual a FIFA arranjou toda uma nova nomenclatura passar a ter prazo de validade. Se o pagamento de subornos tiver decorrido há mais de dez anos, este irá prescrever e nenhuma ação será tida em conta contra os detratores. Se o caso não for descoberto ou julgado num prazo de dez anos, o mesmo será arquivado. Algo que não sucedia no código de conduta anterior, criado em 2004, e que acabou por ser a razão da queda de Sepp Blatter. Querem ver que...

Certo, é que entretanto a FIFA reagiu ao artigo publicado pela Associated Press e defendeu as alterações. "Ainda que o novo código tenha adotado novos prazos de prescrição para algumas violações sérias, o comité de ética considera que 10 anos (ou 15 anos se uma investigação já estiver aberta) são prazo suficiente para concluir a investigação, em caso de infrações sérias. Essa mudança trará mais certeza legal ao mundo do futebol, ao garantir que as potenciais violações do código sejam investigadas rapidamente", justificou a FIFA.

A FIFA garante que as alterações irão promover uma maior transparência, mas esta é também a FIFA que não permite que Vassilios Skouris ou Maria Claudia Rojas, membros do comité de ética e luta contra a corrupção e procuradora geral da FIFA respetivamente, respondam a perguntas feitas pela imprensa, depois dos mesmos terem substituído os antecessores em 2017 sem qualquer justificação por parte da FIFA. A mesma FIFA que já sob o comando de Infantino demitiu investigadores independentes e viu Domenico Scala, auditor das contas da FIFA demitir-se dias antes da oficialização das mudanças feitas ao código de honra.

Estas não foram, aliás, as únicas saídas recentes na FIFA. Recentemente vários órgãos independentes abandonaram o trabalho que iam realizando com a entidade por considerarem que a FIFA não estava realmente focada com as reformas que prometeu após os escândalos de 2015 que afetaram a imagem da instituição e levaram à demissão de Sepp Blatter. Um deles foi Poiares Maduro que se demitiu depois da FIFA o ter pressionado a não investigar questões relativas ao envolvimento do governo russo na instituição, bem como Navi Pillay ex representante máximo da ONU para os direitos humanos.

"A FIFA não está preparada para ter instrumentos de escrutínio independente. Durante este processo, sofri pressões mais fortes durante este processo do que na política ou no Tribunal Europeu de Justiça”, afirmou então ao Público Miguel Poiares Maduro. A FIFA prometeu transparência e rédea curta à corrupção quando Infantino pegou na instituição após o afastamento de Sepp Blatter. Dois anos depois, parece ter feito marcha atrás nas intenções. Já diz o povo, de boas intenções está o Inferno cheio.