Prolongamento
Um “louco pelo treino” na liderança do Benfica B
António José Oliveira
2018-06-18 22:00:00
Bruno Lage é aposta forte de Luís Filipe Vieira para substituir Hélder Cristóvão

A escolha está feita. Bruno Lage é o eleito para dirigir a equipa B do Benfica na próxima época. Adjunto de Carlos Carvalhal na aventura por terras britânicas ao serviço do Sheffield Wednesday e do Swansea City, o técnico, de 42 anos, licenciado em Educação Física, Saúde e Desporto, com especialização em Futebol, começa agora nova fase numa carreira iniciada em 1997 enquanto treinador adjunto das camadas jovens do Vitória de Setúbal.

“Sei escolher bem os meus adjuntos, por isso, é normal que outros clubes tenham interesse neles”, afirmava Carlos Carvalhal, quando confrontado com o interesse dos encarnados. “Bruno Lage já trabalhou comigo no Dubai e no Sheffield Wednesday e disse-lhe desde o início que, se decidisse ser treinador, iria apoiá-lo. É um ótimo treinador. Somos bons amigos. Quando alguém vem trabalhar comigo, quero que dê tudo, mas estou preparado para que queiram ser técnicos principais. Já estou habituado a que alguns antigos assistentes meus se tornem treinadores”, acrescentava.

Bruno Lage vai agora trabalhar em colaboração direta com Rui Vitória e Pedro Marques, o novo diretor técnico do futebol de formação. Trata-se, de resto, de um regresso à Luz onde foi aposta pessoal de Luís Filipe Vieira e trabalhou dos juniores aos iniciados entre 2004 e 2012.

Irmão de Luís Nascimento, de 38 anos, que comanda os iniciados do clube da águia, Bruno Lage, diz quem o conhece, é “um louco pelo treino”, um estudioso atento do fenómeno do futebol nas mais variadas vertentes, com incidência no capítulo da formação. Neste contexto, o Bancada dá-lhe a conhecer as ideias preconizadas pelo novo treinador do Benfica B e os conceitos que defende. “É pela qualidade do treino que o treinador, em especial o treinador formador, se deve distinguir, e deixando de parte o jogou o A em vez do B, o jogar em 4x3x3 ou em 4x4x2”, defende o técnico.

De acordo com o ex-treinador adjunto do Swansea City, a existência ou não de pressão não deve condicionar o trabalho de um treinador no processo formativo. “Não partilho da opinião de que um treinador na formação trabalhe melhor sem a pressão do resultado. Desenvolvendo o trabalho em clubes de topo, em Portugal, na Europa ou em qualquer outro ponto do globo, é normal que assim seja, de acordo com a grandeza do clube. A inexistência ou não de pressão não pode, de forma alguma, condicionar o modo de trabalhar de um treinador e muito menos conduzir a alterações no método de trabalho. Para além disso, nada garante que passar praticamente todo o tempo disponível a preparar o jogo seguinte assegure a vitória. Treinar em função do resultado não garante que o mesmo seja atingido. O ganhar e perder estão relacionados com o processo, entendido como treino, mas não é determinante, pois pode-se ganhar ou perder trabalhando bem ou mal.”

Estas são ideias espelhadas em livro por Bruno Lage. “Formação: da iniciação à equipa B”, é o título da publicação, com prefácio de Carlos Carvalhal, onde o treinador explana os seus ideais. “Na formação existem mais garantias de sucesso ao desenvolver as competências nos jogadores, segundo a sua idade biológica, em função de um plano anual, e, simultaneamente, acompanhar esta progressão individual dos atletas com a evolução de um jogar em equipa, ao invés de treinar uma equipa de iniciados, juvenis ou juniores à semelhança de uma equipa de seniores”, advoga o jovem técnico, acrescentando: “Privilegiando o treino como um espaço de aquisição de competências de evolução e não apenas como um momento de exercitação, os jogadores apresentarão mais recursos tornando-se mais competentes, mais preparados, e em consequência formarão uma equipa mais competitiva, com maior capacidade para jogar bem e consequentemente vencer mais vezes. “

Bruno Lage não deixa, aliás, de recordar a experiência que teve na primeira passagem pelo Benfica e no tempo em que liderou a equipa B do Al Ahli. “Guiei-me sempre por uma ideia de jogo, compreendida como apenas mais um conteúdo a abordar ao longo do tempo, e sempre ajustada às características do escalão e à capacidade dos jogadores. Paralelamente à evolução de um jogar organizado, deve ocorrer a evolução dos jovens atletas e garantir-se que em treino todos tenham as mesmas oportunidades de evoluir embora em escalas diferentes.”

Neste âmbito, o treinador lembra a temporada 2007/08 quando, na transição dos juniores para os iniciados do Benfica, elaborou um documento de “Orientações Metodológicas” no sentido de adaptar o modelo de jogo ao escalão, isto porque, sustenta, é fundamental “definir os princípios mais importantes e adequados para as diferentes fases dos vários momentos de jogo, em função da capacidade dos atletas , e perspectivar a sua evolução ao longo do ano.”

Em síntese, Bruno Lage defende que se deve “trabalhar para ganhar mas sem abdicar daquilo que é o melhor para a evolução dos jogadores e da equipa”. “Mas isso depende da impressão digital de cada um e da forma como cada um pretende deixar a sua marca…”, faz questão de sublinhar.

De Setúbal ao País de Gales, passando pelo Dubai

Licenciado em Educação Física, Saúde e Desporto, com especialização em Futebol, Bruno Lage iniciou a carreira como treinador adjunto nas camadas jovens do Vitória de Setúbal decorria a temporada 1997/98. Orientou o Comércio e Indústria (na 1ª Divisão Distrital) como treinador principal, e como adjunto esteve na AD Fazendense (3ª Divisão), no Estrela de Vendas Novas (3ª Divisão e 2ª Divisão B) e no Sintrense (3ª Divisão). Colaborou também com a Escolinha de Futebol Quinito, tendo desempenhado as funções de treinador e coordenador técnico.

Foi, então, que em 2004/05 ingressou nas camadas jovens do Benfica, onde treinou os escalões de Escolas, Iniciados, Juvenis e Juniores, tendo conquistado dois campeonatos nacionais e dois distritais.

A experiência seguinte passou pelo Al Ahli, do Dubai, onde treinou os sub-19 e foi o responsável pela equipa B até ser convidado por Carlos Carvalhal, acompanhando o antigo treinador do Sporting ao serviço do Sheffield Wednesday, no Championship, e do Swansea City, na Premier League, durante a última época.

Seis anos depois está de volta ao Seixal, onde acompanhou os processos de formação de jogadores como Bernardo Silva, Gonçalo Guedes, Ederson, André Gomes, João Cancelo, Rony Lopes, Ivan Cavaleiro, Hélder Costa, Bruno Varela, Bruno Gaspar, Ricardo Horta, David Simão ou Miguel Cardoso, o avançado do CD Tondela que bisou no triunfo averbado na Luz por 3-2.

Uma formação que é sinónimo de milhões

A aposta do Benfica na formação e na equipa B acentuou-se nos últimos anos e o investimento começou a dar frutos, sobretudo no retorno financeiro, tendo em conta que jogadores como Bernardo Silva, João Cancelo ou Rony Lopes  pouco ou nada deram à equipa principal, em contraponto com Gonçalo Guedes, Ederson ou Oblak.

Mas desde o verão de 2014 que os negócios com jovens oriundos da formação e da equipa B ganharam uma dimensão nunca vista. São mais de 200 milhões de euros de encaixe.

Jan Oblak

A 16 de julho de 2014, o Benfica comunicou à Comissão de Mercado dos Valores Mobiliários (CMVM) a venda do internacional esloveno ao Atlético de Madrid por 16 milhões de euros. Oblak afirmou-se como o sucessor do internacional belga Courtois, que rumou ao Chelsea.

Bernardo Silva

No primeiro mês de 2015, a 21 de janeiro, os encarnados anunciaram a venda a título definitivo do médio português ao AS Mónaco por 15.750.000 euros. Bernardo Silva deixou posteriormente o principado para assinar pelo milionário Manchester City.

João Cancelo

O clube da águia confirmou a 25 de maio de 2015 a venda do lateral direito ao Valencia CF, clube que representava por empréstimo, por 15 milhões de euros. Entretanto, João Cancelo rumou ao Inter, de onde poderá agora sair para a Juventus.

André Gomes

Os encarnados revelaram a 12 de junho de 2015 a cedência dos direitos desportivos do médio ao Valencia CF por 15 milhões de euros, ficando com direito a 25 por cento de uma futura transferência que acabou por concretizar-se rumo ao FC Barcelona.

Ivan Cavaleiro

Em julho de 2015, o avançado seguiu os passos Bernardo Silva e rumou também ao AS Mónaco por 15 milhões de euros, depois de terminado o empréstimo ao Deportivo da Corunha. Ivan Cavaleiro está agora ao serviço do Wolverhampton WFC, liderado por Nuno Espírito Santo.

Renato Sanches

10 de maio de 2016. O Benfica informou a CMVM da venda do passe do centro campista ao Bayern de Munique pelo valor de 35 milhões de euros. Renato Sanches foi, entretanto, cedido ao Swansea City e está agora de volta à Alemanha com o Benfica de olho.

Hélder Costa

Em janeiro do ano passado, as águias cederam os direitos desportivos do jogador também ao Wolverhampton WFC, que esta época subiu à Premier League. Hélder Costa rendeu igualmente 15 milhões de euros aos cofres da Luz.

Gonçalo Guedes

Em abril de 2017, o Benfica confirmou a venda de Gonçalo Guedes ao Paris Saint-Germain por 26 milhões de euros. O avançado internacional português está agora emprestado ao Valencia CF, que se mostra disposto a avançar para a compra do passe.

Ederson

A 1 de Junho de 2017, as águias confirmaram a venda do passe de Ederson ao Manchester City por 40 milhões de euros. Na informação prestada ao regulador, os encarnados divulgaram "o compromisso de entregar 50% da mais-valia obtida nesta transferência a terceiros", o que significa que aos cofres da Luz chegaram apenas 20 milhões de euros. 

Lindelof

O Benfica comunicou a 10 de junho de 2017 à CMVM que chegou a acordo com o Manchester United para a transferência a título definitivo do central sueco para o clube inglês, a troco de 35 milhões de euros, mais 10 milhões pelo cumprimento de determinados objetivos.

Nélson Semedo

A 14 de julho do último ano, o clube da águia avançou ter chegado a acordo com o FC Barcelona para a transferência do lateral-direito por 30,569 milhões de euros.

João Carvalho

Há quatro dias, os encarnados anunciaram a transferêncja do jovem médio para o Nottingham Forest, do Championship, por 15 milhões de euros. O Benfica explicou ainda que garantiu o direito a 25 por cento do valor da mais-valia obtida numa futura transferência do jogador. Diogo Gonçalves foi emprestado ao mesmo clube.

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