Opinião
Os benefícios e os (tantos) defeitos do vídeo-árbitro
Pippo Russo
2017-09-23 14:00:00

A I Liga portuguesa e a Série A italiana têm em comum o facto de estarem entre os torneios que se prestaram a servir de cobaia para a experiência do Video Assistant Referee (VAR). Uma opção certamente corajosa, de vanguarda nas intenções dos dirigentes que assumiram a responsabilidade, mas também plena de consequências. E nem todas são positivas. Destas últimas, apercebemo-nos no primeiro mês de aplicação do VAR. É um lapso de tempo demasiado curto para se fazerem avaliações definitivas, mas certamente suficiente para obtermos algumas indicações. E uma vez que este primeiro ano de VAR é dado como experimental, é bom que se tenham estas indicações em conta.

As considerações que me preparo para fazer necessitam de uma premissa: o futebol evoluiu no plano técnico e atlético e, em paralelo, transformou-se a sua relação seja com os meios de comunicação – que por sua vez se tornaram muito mais sofisticados e por isso mesmo capaz de escrutinar de forma extremamente minuciosa o que sucede em campo – seja com o público, sempre mais exigente e competente. Estas mudanças globais justificam o recurso live à tecnologia, o que abre a possibilidade de auxílio à decisão do árbitro em casos controversos. Digo isto mesmo tendo por muito tempo optado por um posicionamento desconfiado face ao uso da tecnologia para resolver as circunstâncias duvidosas que ocorram no campo de jogo. Sou, desde sempre, um defensor do perfil “humanista” do futebol e por esse motivo considero que o erro (humano) faz parte das coisas que podem acontecer num jogo de futebol. Mas com o tempo fui, em parte, mudando de opinião. Há casos em que a ajuda externa pode evitar erros muito graves, como os que ocorrer a atribuição ou não atribuição errada de golos. Nesse sentido, dei como boa a abertura à Tecnologia da Linha de Golo e ao auxílio televisivo em casos bem circunscritos. Tudo isto para dizer que acolhi a introdução do VAR com curiosidade e sem preconceitos. Mas se vejo a amplitude casos onde o instrumento tecnológico tem sido aplicado e os efeitos que tudo isto teve no futebol, aí está: as minhas preocupações voltam a manifestar-se.

O primeiro mês de VAR em Itália deixou muitos motivos de perplexidade. Passá-los em revista a todos e analisá-los de forma aprofundada reclamaria um espaço excessivo, além de uma robusta dose de paciência por parte dos leitores. Daí que prefira alongar-me em três pontos específicos, que não se referem a aspetos regulamentares mas mais ao impacto que um abuso da intervenção tecnológica pode ter sobre a natureza do futebol.

O primeiro elemento, até por ser aquele cuja incidência é mais visível, é a fragmentação do tempo de jogo. O recurso ao VAR impõe a suspensão do jogo para dar tempo para se reverem as imagens do episódio e decidir de modo mais apropriado. Estas paragens têm um efeito direto e visível e um efeito secundário menos explícito mas muito mais importante. O visível está no facto de os tempos de jogo se alongarem demasiado, devido às pausas necessárias à consulta das imagens, depois compensadas no final das partidas. O menos explícito está no facto de o futebol ser desvirtuado com todas estas paragens. Trata-se de um desporto com uma temporalidade contínua, na qual até as pausas que antecedem a recolocação da bola em jogo fazem parte da partida. Mas as paragens do jogo à espera de decisões arbitrais são algo que não pertence ao futebol. Em Itália, mais de um futebolista, a começar por Gigi Buffon, se lamentou a este propósito.

O segundo elemento tem a ver com o risco de desresponsabilização do árbitro. Que antes tinha uma carga excessiva de responsabilidade e se desconcentrava em caso de erro e que agora fica feliz por se libertar dela. À mínima dúvida, para o jogo e pede ajuda aos colegas colocados frente ao monitor. Daqui se pode admitir que num futuro não muito longínquo se possa delegar nas regies televisivas as funções de aplicação do regulamento. Com todos os riscos de manipulação que daí resultariam.

O terceiro elemento é o que me parece mais significativo. Refiro-me à objetividade das decisões em episódios controversos. Um dos argumentos mais fortes para apoiar o VAR é que a possibilidade de consultar as imagens dos episódios controversos conferiria um alto nível de objetividade às decisões arbitrais, tornando-as incontestáveis. Os factos dizem que as imagens tanto têm o efeito de aumentar as dúvidas como de as eliminar. E além disso há um equívoco de fundo: a escolha dos episódios acerca dos quais se utiliza ou não o VAR continua a ser subjetiva. E aqui regressa-se ao ponto de partida e a tecnologia deixa de ser um elemento a favor da objetividade para se transformar em mais um motivo de polémica.

PS – Em Itália, além do debate acerca do VAR, falou-se de instituir no futebol o tempo efetivo, como no basquetebol. Segundo os proponentes, esta seria a solução para o problema das interrupções excessivas causadas pela consulta das imagens. Para mim, essa seria a morte do futebol. Espero que continue a ser uma ideia isolada.

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