Grande Futebol
O talento nem sempre é aproveitado nos clubes portugueses
Diogo Cardoso Oliveira
2017-11-13 16:20:00
Nem só nos três principais clubes nacionais se desperdiçou talento.

Sabe o que têm em comum jogadores como Cristante, Thiago Silva, Arias, Carole ou Luís Fabiano? Todos passaram quase despercebidos, em Portugal, mas conseguiram construir carreiras de valor, lá fora. Diz-se que o clima, a segurança, a comida e o custo de vida agradam aos estrangeiros que por cá passam. No entanto, isso nem sempre é verdade. O Benfica e o FC Porto têm mostrado especial “apetência” para desperdiçar talento estrangeiro. A ler mais à frente.

Nesta semana, noticia-se a intenção da Atalanta em acionar a opção de compra por Bryan Cristante, médio emprestado pelo Benfica, para depois o vender à Juventus, por 25 milhões de euros. Cristante tem estado na berlinda, tendo já mesmo chegado a internacional italiano.

Scorpions e Tracy Chapman indicam o caminho

Se gosta de música, lembre-se do que cantam Tracy Chapman, em “Change” [mudança], ou os Scorpions, em “Winds of change” [ventos de mudança]. Na Liga Portuguesa, já alguns estrangeiros precisaram de ventos de mudança para serem alguém no futebol europeu.

Num raciocínio transversal, é fácil pensar em exemplos de jogadores que são “flops” em Portugal, mas que rendem no estrangeiro. O Bancada foi um pouco mais longe e foi ver que jogadores, desde 2004 – ano em que o FC Porto colocou o futebol português nas bocas da Europa –, foram “fantasmas” na Liga Portuguesa, mas conseguiram ter sucesso, mais tarde.

O exercício tem um lado subjetivo, sim, pelo que é difícil dizer se quem mais desperdiçou foi o Benfica ou o FC Porto. Façamos análise conjunta.

Dragão tem os casos mais bizarros

No FC Porto moraram os casos mais bizarros desta tendência. Thiago Silva, capitão do PSG, dificilmente não entra em qualquer top 5 de defesas centrais do futebol mundial. Não se lembra dele no campeonato português? É natural, porque nem sequer jogou. O defesa brasileiro esteve na equipa B do FC Porto, em 2005, antes de regressar ao Brasil. Só mais tarde seria comprado pelo AC Milan e, depois, pelo PSG.

Luís Fabiano, o “fabuloso”, é um fabuloso exemplo deste desperdício. O avançado brasileiro marcou três míseros golos, no FC Porto, em 2004/2005, antes de sair para Espanha. No Sevilha FC tornou-se um dos melhores avançados do futebol europeu, com seis temporadas quase sempre acima dos 15 golos por época. Para compor o ramalhete, ainda venceu a Taça das Confederações, em 2009, e esteve no Mundial, em 2010.

Ainda no FC Porto, destaque para três casos curiosos. Primeiro, Diego Váleri. Lembra-se dele? Se não se lembra, não fique preocupado. É natural. O médio argentino teve uma passagem quase “fantasma” por Portugal, em 2009/2010, mas, hoje, é uma das estrelas da MLS… como avançado. Nesta temporada marcou mesmo 21 golos em 34 jogos, um registo só superado por Nikolic e pelo bem conhecido David Villa.

O segundo exemplo curioso é o de Jean Michaël Seri. O médio do Nice esteve muito perto de reforçar o Barcelona, neste verão, anos depois de ter dado nas vistas no Paços de Ferreira e de ter chegado a jogar no FC Porto B.

Por fim, Juan Iturbe. O extremo argentino chegou ao FC Porto como grande promessa, mas nunca rendeu. O empréstimo ao Hellas Verona, em 2013/14, acabou por ser proveitoso financeiramente para os dragões, dado que os italianos compraram o jogador por 15 milhões de euros (venderam-no à AS Roma, logo a seguir, por 25).

Benfica nem sempre teve olho para miúdos

Seguindo já no caso de Iturbe, falemos de Cristante, que pode estar perto de se tornar num exemplo gémeo do de Iturbe. Como explicámos no início, tem sido noticiado, em Itália, que a Atalanta quer comprar o médio, para depois o vender à Juventus. Ainda assim, este negócio renderá quatro milhões de euros aos encarnados, um valor bem distante dos 15 que o Verona pagou por Iturbe.

Na Luz destaca-se a parca visão para a juventude. Lionel Carole tornou-se titular do Galatasaray, antes de se transferir para o Sevilha. Tudo isto depois de uma passagem insignificante pelo Benfica (quase 40 jogos na equipa B, mas apenas seis na equipa principal).

Ainda na juventude, há o caso menos conhecidos de Daniel Wass e Stefan Mitrovic. O dinamarquês chegou ao Benfica como lateral, mas nunca jogou. Saiu para França e, já como médio, chegou a titular do Celta de Vigo, na Liga Europa, e a internacional dinamarquês. Já o central Mitrovic jogou apenas pela equipa B do Benfica, em 2013/14, mas, hoje, já no Gent, é um dos centrais habitualmente chamados pela seleção da Sérvia. Em princípio, estará no Mundial 2018.

Destaque ainda para Marçal e Melgarejo, dois laterais esquerdos que não vingaram no Benfica, mas que jogam em boas equipas do futebol europeu (Olympique Lyon e Spartak Moscovo, respetivamente).

Sporting não viu bem os avançados

Caicedo e Barcos. Soa-lhe a exemplos forçados? Então fique a saber que Caicedo joga na Lazio, já depois de ter conseguido temporadas com 14 golos, no Levante, e 22, no Espanyol. Já Hernán Barcos, um caso bem recente, leva, nesta temporada, 21 golos em 35 jogos pela LDU Quito.

Mas o caso mais estranho acaba mesmo por ser o de Santiago Arias. É quase unânime que o lateral colombiano, hoje, seria uma tremenda mais-valia no plantel do Sporting. Está na quinta temporada como titular do PSV e já esteve no Mundial 2014 e em duas Copa América. Estará, se tudo correr bem, no Mundial 2018. Tudo isto depois de apenas dez jogos na equipa do Sporting.

Quem também merece destaque é Ronny. Lateral considerado mediano, quando esteve em Alvalade, mas que, mais tarde, na Alemanha, se tornou um bom… médio ofensivo. Chegou a ser titular do Hertha Berlim, durante cinco temporadas.

Avançado de topo passou pelo… Penafiel

Sabia que Diego Costa, que trocou recentemente o Chelsea pelo Atlético Madrid, já jogou em Portugal? O hispano-brasileiro fez parte dos quadros do SC Braga e chegou a estar emprestado ao Penafiel. No entanto, só mais tarde, em Espanha, chegou a avançado de topo do futebol mundial.

Nota ainda para Diego Benaglio, que teve de sair de Portugal para chegar a um grande clube, para Caiçara, que rendeu no Gil Vicente e que chegou ao Schalke 04, e para Antolín Alcaraz, um ilustre desconhecido para a maioria das pessoas, que esteve no Beira-Mar, durante cinco temporadas, mas foi já ao serviço do Wigan que esteve no Mundial 2010, como titular do Paraguai.

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