Opinião
O Sporting como briga de machos-alfa
António Tadeia
2018-06-12 14:20:00

O Mundial começa depois de amanhã e não há maneira de nos livrarmos desta novela em torno do Sporting. Não, não é obsessão, não é para esconder os mails, ou vouchers, a operação Lex, o Apito Dourado ou a batalha de Alcácer-Quibir. O Sporting continua no topo da atualidade porque insiste em infligir danos a si mesmo, num confronto de machos-alfa que deixará a equipa de futebol bem pior do que estava quando Bruno de Carvalho chegou ao clube. E disso já não há forma de escapar.

Que as posições estão extremadas percebe-se na constante fuga para a frente que vai sendo ensaiada de parte a parte. Dos jogadores, que se terão cansado de esperar que o clube entre na via da normalidade e fizeram o que todos os jogadores, de todos os clubes, fazem, quando não são preservados – trataram da sua vida e pediram a rescisão de contrato. Mas também do próprio Bruno de Carvalho que, ele sim, devia zelar pelos interesses do clube mas fez tudo ao contrário do que fariam outros presidentes: em vez de reconhecer aquilo que é uma evidência, que já o era mesmo antes de o ser (que os seus constantes ataques em público foram a motivação primeira do ataque selvagem da guarda pretoriana aos jogadores) e recuar um pouco numa tentativa de conciliação, avançou ainda mais para o confronto, desafiando os jogadores a apresentarem as cartas de rescisão.

Se estivéssemos numa mesa de póquer, Bruno de Carvalho estaria a pagar para ver, o que levou os jogadores a pôr as cartas na mesa. E, como vai levar muito tempo a perceber-se se o que tinham era um straight flush, um póquer de ases ou um simples par de duques, o que me faz mais confusão são as razões pelas quais o presidente segue nesta escalada confrontacional que inibirá bastante a capacidade de formar uma equipa competitiva em 2018/19. Não quero crer que seja por simples egomania, fruto de uma crença profunda de que se tem sempre razão em todas as disputas pontuada pela incapacidade de ver e compreender os argumentos dos outros. Se for este o caso, Bruno de Carvalho acreditará que está a defender o Sporting de múltiplos ataques externos, desde os empresários de jogadores aos seus próprios acionistas e até à banca, todos concertados para o tirar do Sporting, utilizando vários meios (jogadores, jornalistas, todos uns idiotas manipuláveis…) para atingir esse fim.

Assim sendo, resta uma explicação de índole mais estratégica e que tem como motivação maior a autopreservação. A Bruno de Carvalho só interessará extremar posições se a ideia for puxar para o seu lado mais e mais gente, convencida de que do outro lado estão os maus, os que querem tomar conta do clube, os que não veem com bons olhos o trabalho que ele tem estado a fazer. Interessa-lhe puxar da carta do clubismo, ignorando que os jogadores são profissionais e não representam o sentir leonino – nem têm de sentir. Interessa-lhe transportar a discussão para o famigerado “um-clube-dirige-se-de-dentro-para-fora-e-não-de-fora-para-dentro”, como se os jogadores na verdade quisessem dirigir o clube: e tanto não querem que vão embora e foi o presidente que lhes abriu a porta à interferência quando disse que sai do clube se eles se comprometerem a voltar.

De acordo com esta tese, para Bruno de Carvalho, quanto pior, melhor. Isto é: o melhor que lhe poderia acontecer era que todos os desertores de repente assinassem pelo Benfica, chumbando no teste da pureza e dando indiretamente razão ao presidente. Aí, o líder leonino ficaria com um enorme problema em mãos – reconstruir, sem dinheiro, uma equipa a quem fugiram os seus melhores jogadores – mas com uma justificação perfeitamente aceitável para um eventual fracasso e, sobretudo, com uma carta estratégica poderosíssima para jogar em caso de eleições: afinal, ele sempre tinha razão em ser duro com os jogadores, que no meio disto tudo já andavam a pensar no Benfica. É que há quem acredite nisto.

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