Portugal
O 'miúdo' dos seniores que ajudava nos treinos dos juniores
Fernando Gamito
2017-06-15 12:00:00
Ricardo Pereira está nas bocas da Europa e o treinador que o levou para Guimarães recorda porque o pretendeu no Vitória

Da condição de jogador emprestado a potencial trunfo que pode lutar por um lugar de destaque no plantel principal do FC Porto ou então vir a valer uma quantia lucrativa aos cofres dos azuis e brancos. Após duas épocas em evidência no OGC Nice, Ricardo Pereira prepara-se para ser um dos atrativos da próxima janela de transferências, ao ser ligado ao interesse de vários clubes de topo da pirâmide do futebol europeu, como o Paris Saint-Germain ou o Tottenham, entre outros.

Ricardo Pereira tem vindo a destacar-se pelo rendimento exibicional demonstrado dentro das quatro linhas, mas o caráter enquanto pessoa também tem sido fator marcante na carreira do jogador. Quem o diz é Armando Evangelista, treinador de Ricardo nos juniores do Vitória de Guimarães em 2012/13 e principal obreiro na aquisição do jovem à Naval. “O que o tem ajudado a singrar, para além das qualidades técnicas, são as qualidades enquanto pessoa que o Ricardo possui”, começou por dizer Armando Evangelista, em declarações ao Bancada.

O técnico de 43 anos contou ainda ao Bancada um episódio que caracteriza a chegada ao plantel principal do ‘miúdo’ que já treinava com os seniores, mas ainda ajudava nos treinos dos juniores. “Estreou-se a titular no plantel sénior contra a Académica e não mais voltou aos juniores. Acabou por ficar no plantel sénior e só ia aos juniores para ver os treinos e apanhar bolas, mais nada. Ele continuou a assistir aos treinos todos dos juniores, quando tinha sido promovido aos seniores e ia aos juniores só para apanhar bolas e ajudar os colegas a treinar. Isso reflete bem a personalidade do Ricardo”, reiterou Armando Evangelista.

Com as exibições demonstradas nas temporadas mais recentes e uma potencial vaga entre as escolhas de Sérgio Conceição, fica para saber se a eventual necessidade de venda do clube do FC Porto será fulcral para a continuidade de Ricardo Pereira, o jovem que se formou no Sporting e acabou a pertencer aos quadros do conjunto da cidade Invicta.

De Alcochete, via Guimarães, rumo à Invicta

Com o início da carreira enquanto jovem no Futebol Benfica, Ricardo Pereira passou a maior parte da formação em Academia de Alcochete, ao serviço do Sporting. Desde 2004 a 2010 nas camadas jovens do emblema leonino, o jogador agora pertencente ao FC Porto viu-se preterido das escolhas verde e brancas para os juniores em 2010/11, pelo que teve que rumar à Naval. Um desaproveitar de talento pelo Sporting, de acordo com Rodolfo Castro Simões, jogador do Lusitano VRSA e antigo colega de Ricardo nas camadas jovens leoninas.

“O Ricardo sempre foi um jogador de grande qualidade, muito humilde e revelava na altura ser bastante inteligente já. Penso que não teve as oportunidades merecidas no Sporting e acabou por demonstrar a toda a gente na Naval e posteriormente no Vitória todo o potencial que tinha”, considerou Rodolfo em declarações ao Bancada.

Esteve uma época nas camadas jovens da Naval, mas foi na cidade-berço que Ricardo Pereira se mostrou à elite do futebol português, tendo passado ainda pelos juniores do Vitória, tal como já foi referido. Recrutado por Armando Evangelista, saltaram à vista em Ricardo Pereira as características de ser “rápido e tecnicamente evoluído”, enquanto avançado na Naval, referiu o treinador.

Em 2012/13, o jogador de 23 anos destacou-se no conjunto principal vitoriano que conquistou a Taça de Portugal. Ricardo apontou, inclusive, o golo que deu o triunfo (2-1) aos minhotos sobre o Benfica na final da prova-rainha. Um dia “inesquecível”, segundo o próprio chegou a referir recentemente em entrevista à “TSF”.

Essa foi, de facto, a época que valeu a Ricardo Pereira a transferência para o FC Porto. Com um total de 37 partidas disputadas ao longo da temporada, o jogador foi uma das peças-chave no conjunto treinado por Rui Vitória. 2012/13 tem também o marco de ser a fase na qual o jogador luso-cabo verdiano demonstrou maior veia goleadora (oito golos) na carreira. Curiosamente, seis desses golos foram apontados na Taça de Portugal, competição conquistada pelos vimaranenses, na qual Ricardo obteve o registo de um golo por jogo, em média.

Ao fim de uma época no principal escalão do futebol português, já Ricardo Pereira estava a dar o ‘salto’ para um dos crónicos ‘três grandes’. Com 19 anos, o jovem rumava à cidade Invicta para vestir de ‘dragão’ ao peito. 2013/14 marcou a primeira temporada de Ricardo ao serviço do FC Porto, a qual foi pautada por fases entre a equipa principal e o conjunto secundário. Em termos globais, foram 21 partidas pela turma principal (onze como titular) e 12 pela equipa B, numa época em que Ricardo falhou em conseguir manter um lugar entre as escolhas principais de Paulo Fonseca (e posteriormente Luís Castro, a título interino) de uma forma consistente. 2014/15 seria similar e a saída aparentava ser o cenário mais provável, tal como se verificou.

Sair da zona de conforto para reencontrar a ribalta

A falta de minutos no FC Porto veio a transformar-se numa oportunidade que Ricardo Pereira não viria a desperdiçar. Em 2015/16, o jovem jogador foi emprestado pelos azuis e brancos e rumou então ao campeonato francês, para representar o OGC Nice. Um acordo para duas épocas que veio a revelar-se como fulcral para o que aguarda a carreira de Ricardo num futuro próximo. Nas duas temporadas em que marcou presença em solo francês, Ricardo Pereira conseguiu a façanha de valorizar-se substancialmente.

Em 2015/16 foi considerado o melhor lateral-direito da Liga Francesa, mas foi nesta época que se deu a afirmação plena de Ricardo Pereira. A versatilidade que o acompanha – já atuou como lateral-direito, lateral-esquerdo, médio-direito e extremo-direito – é atributo de peso no repertório do jogador que se destacou a fazer todo o corredor direito da equipa do Nice, que atua com uma defesa com três centrais, sistema tático díspar do habitualmente utilizado no FC Porto, pelo que é de considerar para que posição no plantel azul e branco se adequaria mais o jogador de 23 anos, com a eventualidade de uma proposta de transferência a pairar sob a Invicta.

Com a janela de transferências prestes a abrir, fica no ar a questão sobre por onde irá passar o futuro futebolístico do ‘miúdo’ que aos 18 anos já jogava nos seniores do Vitória, mas ainda era ‘apanha-bolas’ nos treinos dos juniores.

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