Prolongamento
O Mário Duarte vai abaixo: as memórias de quem pisou o "paraíso"
2018-10-13 21:00:00
O barulho dos capacetes, os banhos com água aquecida a lenha, a equipa de barba rija: relatos de quem pisou palco mítico

A casa do Beira-Mar vai ser demolida em 2019. Oitenta e quatro anos depois do Estádio Mário Duarte, em Aveiro, ter sido inaugurado, no longínquo ano de 1935, a bola deixará de rolar no próximo ano num relvado que foi pisado por grandes figuras do futebol português envergando a camisola amarela e preta, como Eusébio, António Sousa, Dinis, Abdel Ghani, entre tantos outros. Os terrenos do velhinho Mário Duarte servirão para ampliar as infraestruturas do Hospital de Aveiro. A equipa principal, a atuar na I Divisão Distrital, já joga desde o ano passado no Municipal, embora ainda continue a treinar no “velhinho” estádio que tem a morte anunciada. Para trás ficarão as memórias de um estádio que tinha o estatuto de ser um palco muito complicado para os adversários e que deu abrigo ao melhor Beira-Mar da história, que chegou a conquistar uma Taça de Portugal em 1999. Mas, afinal, o que tinha de tão especial o Mário Duarte? Foi isso que o Bancada foi tentar perceber ouvindo figuras históricas do clube aveirense que pisaram aquele relvado, "que estava sempre muito bem tratado" e sentiram o ambiente "ferrenho" vindo das bancadas dos adeptos. Há muita tristeza e preocupação, mas também esperança no futuro do Beira-Mar.

"Não sabia dessa triste notícia. Estou a ouvi-la pela primeira vez". Fernando Colorado representou o Beira-Mar durante sete épocas, de 1967 a 1974. Aos 73 anos guarda boa memória do Mário Duarte e tem muitas histórias para contar, ele que acabou por ser informado por Bancada da demolição anunciada do velhinho estádio do clube beiramarense. "Que pena! Era um estádio espetacular, dava gosto lá jogar. Estava sempre cheio, e havia uma coisa engraçada naquela altura: as pessoas iam ao futebol de motorizada e levavam os capacetes para dentro do estádio. Quando havia um golo do Beira-Mar batiam com os capacetes nos painéis publicitários, que eram de chapa, e aquilo fazia muito barulho". O antigo médio dos aveirenses recorda-se também da "baliza da sorte". "Fazíamos mais golos na baliza do topo norte e associado ao barulho dos capacetes isso ainda dava-nos mais força para fazer mais golos”, relata ao Bancada. "Às vezes, mandavam-nos umas bocas mas no essencial era sempre para nos apoiarem. E isso motivava-nos. O pior era para os adversários...".

Já nos anos 80/90 do século passado, António Freitas, conhecido por “Freitinhas”, representou o Beira-Mar entre 1985 e 1991 e enfatiza a aproximação do público ao relvado como uma das mais-valia do Mário Duarte, o que favorecia sempre a equipa da casa garante. "Aquela coisa de ter o público em cima era uma mais-valia para nós. Era um cheirinho diferente. Era um estádio à inglesa, com um ambiente muito bom, sempre cheio", recorda o antigo médio beiramarense que cumpriu seis épocas no clube de Aveiro.

"Um estádio à inglesa, onde dava gozo jogar". As recordações do 'velhinho' Mário Duarte por antigos jogadores que pisaram este palco histórico (Foto Facebook)

O título quase tirado ao Sporting e a água aquecida a lenha

Colorado recorda alguns jogos no Mário Duarte que lhe ficaram na memória, um sobretudo contra a sua ex-equipa que representou durante três épocas antes de rumar a Aveiro. "No ano em que foi campeão (1973/74), quase que tirava o título ao Sporting, mas ainda bem que falhei. Tentei fazer um chapéu ao Damas mas a bola saiu por cima da baliza. Nesse jogo, dois jogadores do Sporting foram para o hospital, o Baltasar e outro que já não me lembro. O Sporting viu-se aflito para empatar esse jogo [1-1]."

No desfilar de memórias, Colorado recorda outro jogo no Mário Duarte, com o Gouveia no ano da subida à Iª Divisão, em 1971. "Ganhámos 4-0, fiz o segundo golo e no final da partida os sócios elegeram-me como o melhor em campo. Em dez, oito votaram em mim. E o meu prémio foi um par de sapatos, uma camisa e um corte de fato. Foi festa durante toda a noite. Era um mar de gente na cidade. Apagaram as luzes da cidade, e quando estávamos no autocarro aberto atrás de nós vinham associados com tochas a iluminarem-nos".

Colorado recorda-se bem das condições das infraestruturas do Mário Duarte de então, que classifica à época de “boas”. “Aquecíamos a água a lenha, não havia gás para ninguém. Não havia o luxo de agora. Só tínhamos quatro chuveiros, uma casa de banho e um posto médico. Acabava o jogo e tínhamos de esperar para tomar banho. Foram tempos que gostei”. A demolição do Mário Duarte deixa no entanto Fernando Colorado triste. "É uma pena, é um estádio que fica bem situado, dentro da cidade, no meio do parque. Aos domingos, ia tudo a pé para o futebol".  

Um sentimento corroborado por Dinis, antigo defesa central do Beira-Mar entre 1987 e 1995. "A demolição do Mário Duarte é matar grande parte da mística e da história do Beira-Mar. O Mário Duarte é dos relvados mais antigos do futebol português pisado por Eusébio e outras grandesa figuras como Rodrigo Dias, Coluna, etc". Dinis destaca a localização privilegiada do estádio como um ex-libris da cidade que se vai perder. "As pessoas iam para o parque, levavam os farnéis, faziam o seu piquenique até à hora do jogo e depois iam a pé para o estádio. Eram os tempos em que a família ia ao futebol. O Mário Duarte era um estádio de família". "É uma casa que é muita chegada a nós, antigos jogadores", lembra "Freitinhas".

Dinis puxa da memória e recorda dois jogos marcantes que viveu nos tempos áureos do Mário Duarte. "Recordo-me de umas meias-finais da Taça de Portugal em que ganhámos 2-0 ao Boavista e fomos à final com o FC Porto. Estava um enchente. Depois, a burrice de alguns dirigentes estragou tudo. Na sexta-feira, antes da final, o Tozé, um dos melhores jogadores da nossa equipa, foi contratado pelo FC Porto...Outro jogo foi o empate a zero com o FC Porto de Artur Jorge que vinha rotulado de campeão europeu. No final do jogo, o Artur Jorge disse: "Viemos encontrar uma equipa de barba rija". Recorde-se que Dinis, naquela altura, tinha como imagem de marca uma barba cerrada.

"Os grandes quando ganhavam era sempre à rasquinha"; os matraquilhos aurinegros

O egípcio Abdel-Ghani brilhou no Beira-Mar nos anos 90,onde foi a uma final da Taça de Portugal com o FC Porto, em 1991, tendo perdido para os dragões por 3-1, já no prolongamento. E guarda recordações do Mário Duarte. "O Beira-Mar estava sempre entre as cinco/seis melhores equipas de Portugal. Quase ninguém nos ganhava em Aveiro. As bancadas estavam sempre a abarrotar. No inverno estávamos no relvado, olhávamos em volta e só víamos guarda-chuvas", contou o egito ao Mais Futebol, em dezembro de 2012. Assim como dos treinos no pelado. "Só tínhamos um relvado, por isso treinávamos muitas vezes nos campos pelados. Acho que isso nos deixava mais fortes, agressivos. Quando chegávamos à relva, chegávamos ao paraíso".

A propósito da afirmação do Beira-Mar no futebol português, Dinis recorda-se que naquela altura a projeção do clube aveirense era tal que chegava aos matraquilhos. "Nas festas do Norte, lembro-me que os matraquilhos tinham equipas do FC Porto, Benfica, Sporting e…Beira-Mar. Só os mais velhos como eu é que se recordam disso. Esta malta jovem nem sabe o que são os matraquilhos (risos)".

O Beira-Mar também treinava no Parque da Cidade, e António Freitas recorda-se de um episódio ali ocorrido com ele próprio. "Levávamos cada coça no parque. O treinador era o belga Jean Thissen. Ele estava muito à frente na altura na preparação física, vinha do Anderlecht e da seleção belga, e e tinha por hábito mandar-nos dar cinco voltas ao parque. Cada volta correspondia a 1km. Comecei a apanhar a manha daquilo e fazia uma, duas, três voltas e escondia-me através de uma árvore, metia água na camisola e entrava na última volta...".

António Oliveira, antigo defesa central, que fez os últimos quatro anos da carreira no Beira-Mar, lamenta também a demolição do “velhinho” Estádio. “Infelizmente, há muitos Mários Duarte por este país fora. É uma pena, estão aos poucos a matar o futebol. Lembro-me que as pessoas iam a pé até ao Estádio. Estava sempre cheio aos domingos, então os jogos com os grandes era uma loucura. Tudo isso acabou”. “Passei boas tardes no Mário Duarte”, diz com alguma nostalgia. “Tínhamos uma grande equipa, com o Sousa, o Abdel Ghani...Lembro-me de um ano em que não fomos à Europa por um golo...”. Do estádio em si, e de todo o ambiente ao seu redor, Oliveira define-o numa palavra: "mítico". "Havia o peão em frente à bancada central, em que as pessoas ficavam de pé e apoiavam-nos muito, mas mesmo muito. Era mais de apoiar do que criticar". "São adeptos ferrenhos", assegura Colorado. "E os grandes quando ganhavam era sempre à rasquinha", lembra António Freitas.

Dinis tem uma certeza: "mataram a galinha dos ovos de ouro, o estádio melhor situado do futebol português”, referindo que a ida do Beira-Mar para o Municipal “foi um grande erro". "Era mais aceitável fazer um estádio de apoio ao Mário Duarte, assim como fizeram com o Estádio do Águeda, que ainda se mantém. Há um conjunto de terrenos paralelos que podiam ter sido melhor aproveitados", defende. 

Com a localização na Taboeira, distante do centro da cidade, Colorado diz que as pessoas com menos posses não vão ao Municipal porque fica mais distante do centro da cidade. "Estive o ano passado a ver um jogo do Beira-Mar nos Distritais, no Mário Duarte, e estavam duas/três mil pessoas quando antes estava cheiinho [o Mário Duarte tem capacidade para 12 mil lugares]. Agora no novo, quantas pessoas vão lá? Se calhar nem mil..."[O Estádio de Aveiro tem capacidade para 30 mil lugares].

A vida continua, a história tem de ser criada

O atual presidente do clube, Hugo Coelho, compreende o sentimento de perda que a demolição do Mário Duarte acarreta mas aponta ao futuro. "Tenho boas recordações do Mário Duarte, de ir ver os jogos do Beira-Mar com os meus pais e avôs, é um estádio mítico, mas a vida é feita de crescimento, de mudança. O clube hoje necessita de outras condições", afirma Hugo Coelho que disse ao Bancada que a Câmara de Aveiro pretende construir um complexo desportivo na Taboeira, zona onde está situado o Municipal, com a construção de mais dois campos de futebol de onze, de relva sintética, além de outras infraestruturas. "Vamos conseguir concentrar lá a nossa Academia de futebol. Já lá temos seis modalidades de combate a competir. No conjunto de 15, seis já lá estão".

A alegada perda da mística do Beira-Mar que a morte anunciada do Mário Duarte pode acarretar é relativizada por Hugo Coelho. "A história temos de a criar. Temos de ganhar a mística noutro palco, senti-lo como nosso. Hoje em dia, Aveiro tem uma universidade e um hospital de que se deve orgulhar e que necessitam de crescer ainda mais. Tenho muito pena [da demolição do Mário Duarte] mas ao contrário do passado em que não havia um plano B para a saída do Mário Duarte, desta vez temos um plano A. Tentamos olhar para isto de uma maneira desapaixonada. O Estádio das Antas também deu lugar ao Dragão, o Estádio José de Alvalade também deu lugar ao Alvalade 21...Mística? Perde-se de um lado, ganha-se noutro".

Crónica de uma morte lenta

Situado no centro da cidade de Aveiro, ao lado da universidade e do hospital, o Mário Duarte continuou sempre a ser visto como a casa dos beiramarenses, mesmo quando a equipa profissional de futebol passou a jogar no Municipal, situado na Taboeira, construído para o Europeu de 2004 (o clube desceria em 2004/05 para a 2ª Divisão). Os adeptos do "Beira" nunca se conformaram com o abandono do Mário Duarte, mas a Câmara, que num primeiro momento queria vender o velhinho estádio à Universidade de Aveiro, queria rentabilizar um estádio novo que custou mais de 60 milhões de euros.

O Mário Duarte foi ficando sem utilização constante, sendo usado ocasionalmente para os treinos da equipa. Em 2014/15, problemas financeiros levaram a que o clube caísse para as competições distritais. A SAD deixou de pagar as contas correntes e o estádio ficou ao abandono, sem manutenção ao longo de vários meses. Os direitos de utilização do estádio passaram então da SAD de volta para o clube. No verão de 2015, um grupo de voluntários deitou mãos à obra e resolveu devolver a vida ao velho recinto. Durante várias semanas foram limpando, pintando e colocaram uma nova relva. Dinis foi um dos que viveu de perto esta iniciativa.

"Quando o Beira-Mar bateu mesmo no fundo, ajudei o clube como coordenador da formação. Conseguimos colocar equipas a competir nos nacionais e um grupo de associados juntou-se para recuperar o estado degradante em que o estádio se encontrava. Fiz parte dessa onda. Pensei que bastava um empurrão e que as coisas fossem andando, mas infelizmente não foi isso que se passou. Era expectável que tivesse havido um apoio muito maior das entidades oficiais, Câmara, juntas e freguesias", lamenta Dinis.

O Estádio Mário Duarte foi deixado ao abandono, e em 2015 um grupo de associados reabilitou o "velhinho" palco beiramarense que ganhou um novo relvado (Foto Diário de Aveiro)
O estado em que ficaram as bancadas e o novo relvado depois da restauração em 2015. O voluntarismo dos associados do clube foi em vão, o estádio vai mesmo abaixo (Foto Diário de Aveiro)

Parecia que, afinal, o velhinho estádio poderia ter um destino diferente. Mas, afinal, a morte já estava anunciada. A Câmara de Aveiro ainda permitiu que o recinto voltasse a ser utilizado para os jogos da equipa sénior, mas apenas em 2016/17. Na seguinte, o Beira-Mar deveria voltar a jogar no Estádio Municipal de Aveiro. E assim foi, até hoje. Um acordo estabelecido entre Câmara e Beira-Mar prevê que o clube terá deixar o Mário Duarte e mudar-se em definitivo para o Municipal em 2019. Os terrenos do velhinho Estádio Mário Duarte servirão para ampliar as infraestruturas do Hospital de Aveiro. O Beira-Mar, atualmente na I Divisão Distrital, está a jogar no Municipal e ainda treina no Mário Duarte, em Aveiro. Com a mudança em definitivo para o novo recinto, o clube terá também novos campos de treino, prometidos pela Câmara.

O Mário Duarte, um dos palcos históricos do futebol português, tem assim os dias contados. “Mataram a mística e a história do Beira-Mar”, dizem uns, "é a possibilidade de criar história" , dizem outros. Como escreveu o poeta: "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades/Muda-se o ser, muda-se a confiança/Todo o Mundo é composto de mudança/Tomando sempre novas qualidades/Continuamente vemos novidades/Diferentes em tudo da esperança/Do mal ficam as mágoas na lembrança/E do bem, se algum houve, as saudades."

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